domingo, 18 de janeiro de 2015

A NUDEZ OPINIOSA

          Era costume andar nu pela casa. Bem, não era uma casa, de fato. Era um apartamento. Chamamos "casa" ao cantinho onde chegamos diariamente para deitar os ossos, chorar, lucubrar, sonhar até que venha outro dia, e mais outro, e mais outro...
          Morar sozinho permite essa convivência naturista consigo mesmo: – andar nu pela casa. Estava tão acostumado que já nem se importava se as janelas expunham seu despudor. Às vezes, na sala, assistia à televisão sentado nu no sofá. A porta ficava aberta a fim de melhorar a ventilação, em dias quentes. O corredor de acesso estava a cinco ou seis passos. Se alguém, algum vizinho, um hóspede viesse apreciar a paisagem da rua naquele ponto do corredor, veria sua nudez escancarada. Pensava: "estou em minha casa; os olhos de fora aqui chegam, mas nada podem dizer ou reclamar. Que olhem"!... 
          O janelão que dava para os prédios da vizinhança ele o fechava, à noite, sem o menor cuidado. Nu, ia até lá e o fechava. É verdade que a luz era pouca, não permitia que alguém visse a plenitude daquela nudez, mas sabe-se lá!... Um raio de luz mais fraco por trás de si talvez desenhasse aos olhos de todos a silhueta nua de um vizinho despudorado. A verdade é que não se importava. E assim iam e vinham os dias.
          A porta da rua, porta de acesso ao apartamento, precisava ficar presa para não bater, impelida pela força dos ventos que entravam no imóvel. Pusera, há tempos, um segura-porta para evitar esse evento desagradável e até danoso porquanto afetava a moldura do objeto, sendo capaz até de destruir o reboco da parede.
         Quanto mais fazemos algo, mais o repetimos. A repetição é o hábito que se adquire pela impunidade ou pela virtude. Sendo mau, o vício nos domina; sendo bom, a paz nos acalenta o coração. Não tinha o hábito de ir levar o lixo ao coletor da escada sem prender a porta. Por fora, a porta só se podia abrir com chave. Se ela inadvertidamente fechasse e ele estivesse sem as chaves, estaria trancado por fora. 
          Naquela noite, nu, abriu a porta para apagar as luzes do corredor que o incomodavam. Como o interruptor era próximo, não se deu ao trabalho de prender a porta ou segurá-la com o pé, a fim de garantir que não batesse. Eis que, então, ocorreu o improvável. Uma lufada de ar lhe trancou por fora. Nu em pelo, a "trouxa" pendurada sem nada para o cobrir a não ser as mãos, sem um aparelho portátil para chamar alguém, sem nada...! Até hoje não sei como se saiu da inusitada e constrangedora situação de nu desamparado. O que sei é que, ainda hoje, anda cabisbaixo pelos corredores e elevadores. A nudez pública o salvou da empáfia...