segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

BALANÇANDO O RABO OU PRENDENDO A RESPIRAÇÃO

          Foi no último sábado. O meu amigo Fábio Motta juntou-se a seus pariceiros mais longínquos, que o conhecem desde que usava cueiros e fraldas, para uma noitada e cantoria. Assim, somos do tempo dos cueiros e das fraldas de pano. As chupetas já existiam como existem até hoje, de modo que a única coisa que não evoluiu com o tempo foram os cueiros. 
          Se querem saber a verdade, não faço a menor idéia de qual seja a diferença entre cueiros e fraldas e, pelo que me consta, as fraldas continuam aí, ao passo que os cueiros tornaram-se peça obsoleta e inexistente aos dias de hoje. O diabo é que, ao que me lembre, cueiros e fraldas são exatamente a mesma coisa. O que mudou foi o material com que se faz esse item do vestuário dos bebês e, com a mudança, sumiu também a sinonímia entre as palavras que o designam. Hoje, as fraldas são feitas de material plástico impermeável e em sua embalagem está escrito "FRALDA DESCARTÁVEL"; jamais "cueiro descartável". É como se a mudança da matéria-prima causasse um rebuliço nos dicionários.
          Mas, que estou eu a fazer? falando sem parar sobre cueiros e fraldas? Voltemos ao último sábado, à noite, quando nos reunimos, os amigos de infância, para uma pilhéria. Foi na casa do Mesquita. O Mesquita, vocês sabem, gosta de receber em seu solar os amigos para uma boa conversa mole, uns acepipes, uns drinques regados às canções que nos embalaram na vida... 
          Dona Rejane, dona da casa e do Mesquita, muitíssimo cuidadosa e zelosa, vai além. Não permite os quitutes mínimos com os quais o marido e os amigos afugentam das línguas o gosto da cerveja, do uísque e até da cachaça. O Bacana, apreciador declarado desta última, que o diga. Afinal, a aguardente tem um forte sabor etílico e necessário é, à sua ingestão, um salgado ou um azedo para limitar o paladar. Por isso, Dona Rejane sempre prepara mais de um prato a serem servidos como ceia, e todos de lá saem com as panças bem fornidas. Isso o diga o Motta, um glutão incorrigível e grato, no que muito se assemelha ao Mesquita, ambos excelentes garfos.
          Nesta noite, especificamente, Dona Rejane nos serviu um delicioso bacalhau, acho que a Gomes de Sá, e um cremoso camarão ao molho branco, ambos guarnecidos por um bem solto  arroz branco. Quase perde os pratos principais o Tomasinho, sempre serodiamente chegado aos compromissos, mas, desta feita, justificadamente atrasado por estar vindo de um casamento pomposo e nababesco, o que foi fácil perceber pelos trajes requintados com que ele e Dona Mércia se vestiam. 
          O amigo Gaudêncio, visivelmente preocupado com as taxas de gordura, antes de se servir de um dos suculentos pratos, encheu até onde pôde uma colher de sopa de azeite extra virgem quero crer – uma vez que Dona Rejane não é dona de casa de se prestar a comprar produto de quinta categoria para seu lar, no que o Mesquita muito a apóia – e a sorveu sofregamente. Em seguida, regateou-se com o camarão e, ato contínuo, com o bacalhau. Não me recorda se repetiu um dos pratos, mas que comeu bem, isso posso garantir. É bem verdade que utilizou-se de um prato menor, desses onde se servem as sobremesas, mas o preencheu tão completamente que vi a hora a comida vazar pelas beiradas. 
          O amigo Motta, lá pelas tantas, relatou-nos o drama. Como retomou a prática do surf, esporte que praticava em tempos adolescentes, tem ido, com certa freqüência, à praia do Titanzinho, conhecida por suas grandes ondas e onde está encravada uma comunidade esquecida pelo mundo e miseravelmente empobrecida. Ao que consta, em tal cenário pululam e prosperam o crime e as gangues. Para lá adentrar, o cidadão precisa se identificar e obter autorização dos “donos” se não quiser ser alvejado por uma bala. Meu amigo Motta, ao que pude entender, tornou-se conhecido por lá e, para garantir a simpatia daqueles, costuma fazer favores aos moradores, levar presentes para as crianças, comprar remédios para os doentes, enfim, bajular os moradores e criminosos. 
          Tendo explicado tudo isso, veio o Motta perguntar aos amigos se algum de nós teria um carro de bebê para doar a um pobre casal cujo filho pequeno estava a encher-se de feridas e úlceras por falta de um leito apropriado. Infelizmente, nenhum dos convivas dispunha de tal apetrecho, de modo que, se o amigo prometeu conseguir com cem por cento de certeza o tal objeto, ver-se-á envolto em maus lençóis por não poder cumprir a promessa, a não ser que o adquira com recursos próprios, o que, com certeza, não deixará de fazer porquanto pretende ir ao Titanzinho surfar até o fim da vida. Ademais, fomos também devidamente informados que o Motta providenciara um emprego para uma jovem moradora do pobre bairro, o que muito agradou a todos pela evidência da presteza com que o amigo atende aos interesses da comunidade, deixando-nos apenas o temor de que esteja de safadezas e más intenções com a pequena, já que seu currículo o credencia a concorrer com Don Juan, um conhecidíssimo, histórico e notório conquistador.
          Após o relato de tão caridosas peripécias, demos por falta de dois outros pariceiros até aquele momento faltosos, o Sérgio Moura e o Joserme. Não deram, até as quase 4 da manhã, quando deixei o solar Sales-Mesquita, o ar de sua graça e, com efeito, tiveram a descortesia e o desplante de faltar ao tão bem preparado regabofe; o primeiro, vim a saber depois, por pura e leniente preguiça; o segundo por pura falta de interesse, ainda que resida em cidade distante e tenha tido todo o tempo do mundo para planejar a viagem de modo a não ser, depois, necessário recorrer a desculpas esfarrapadas e blablablás que não convencem nem mesmo o Berilo, o vira-latas do Bacana que mais parece gente quando quer comer ou arrancar um cafuné de seus donos. 
          Não reclamem nem se queixem os ausentes se alguém morrer antes de dizer adeus e antes de se despedir da vida. Lembro-os que nem mesmo as estrelas vivem eternamente. Espero que o Motta surfe uma Maverick após terminar seu curso de apneia. Na vida só sobrevive quem leva caldo e sabe prender a respiração ou  a balançar o rabo como o Berilo.