sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

GENTE BOA

          O país está cheio de gente boa. Sim, basta olhar em torno ou abrir bem os ouvidos. Ouço toda hora: fulano é gente boa; sicrano é pedra 90; beltrano é show de bola... e por aí vai. Em suma, somos um país de gente boa. Nunca vi tanta gente boa junta. Somos o maior ajuntamento de gente boa do mundo.
          Hoje de manhã, pilotando minha moto indo pro hospital, faço a seguinte reflexão. Perguntava-me a mim mesmo como é possível que, abrigando tanta gente boa, esse seja um país que tanto odeia. E nem falo dos nossos mais de 50 mil assassinatos anuais. Como estava no trânsito, sentia o trânsito. E o que sentia era justamente a agressividade do trânsito. Sentia o ódio no trânsito. O trânsito era, naquele momento, um ódio só.
          De carro ou de moto, no trânsito desta cidade o sujeito sofre todas as agressões possíveis e imaginárias. Diria até mais. Diria que, não bastassem as inúmeras, cotidianas e horárias infrações às leis, às vezes – imperioso e vergonhoso admitir –, necessárias por conta da insegurança geral que ronda o cidadão comum, até mesmo nosso pedestre agride o condutor e, ele próprio, o pedestre, infringe regras básicas. Vejam o interessante: – o sujeito acha que, porque é pedestre, tem sempre razão. Esse comportamento recente por parte do pedestre faz parte de um comportamento mais geral, qual seja, o sujeito acha que, por ser "mais fraco", tudo pode. Não importa o que diga a lei, o "mais fraco", no Brasil, acha que sempre terá razão. A prova é que, se for atropelado ao andar em plena pista de rolagem, sentir-se-á cheio de razão ainda que estivesse fora da faixa de pedestre. A coisa é mais ou menos por aí.
          Outro dia vinha eu na moto, voltando do hospital, quando vejo a jovem que acompanhava uma senhora idosa tentando atravessar a pista. Não se utilizava da faixa de pedestre; simplesmente queria atravessar em meio ao trânsito implacável e feroz. Cheguei a pensar: –"Há de ser a sogra"... A jovem, em sua consciência de "mais fraca" – ela e a senhora idosa –, sentia-se repleta de razão e queria porque queria que os carros e caminhões parassem a fim de que elas pudessem alcançar a calçada oposta. A pobre senhora, de tão idosa, não parecia perceber os riscos a que era exposta por sua irresponsável acompanhante. Um dos carros parou, mas a maioria não se deu o trabalho. E seria bem provável que um eventual atropelador fosse, de fato, considerado culpado. As leis, por aqui, só funcionam para punir o "mais forte".
        Falando assim parece que estou delirando, que estou dizendo uma asneira sem tamanho. Alguém há de repreender-me e, esgoelando-se, tentará corrigir-me dizendo: –"A lei protege o mais forte, imbecil"! Afinal, dizem, sempre foi assim. Ou não?
          Ah...! Bons tempos aqueles...! Bons tempos aqueles!... Foram-se os tempos em que a lei protegia o "mais forte"... Hoje ela protege o "mais fraco". Vejam, por exemplo, o caso da jovem que forçava a passagem pela pista tentando atravessá-la com a senhora idosa. Caso fossem atropeladas, o condutor teria uma dor de cabeça tremenda com a lei. Sendo "mais fraco" o pedestre, ninguém procuraria saber se ele está errado. De cara. Afinal de contas, o pedestre tem sempre razão. Estar ou não na faixa teria nunhuma importância. A participação de uma senhora idosa no "acidente", ainda que involuntária, excluiria qualquer possibilidade de leitura dos códigos. Como é possível o sujeito atropelar uma pobre e indefesa senhora e não ter a culpa? Uma senhora idosa é, e sempre será, inocente. Cadeia no condutor que atropela o pedestre! (O diabo é que, hoje, nem o "fraco" nem o "forte" vai para a cadeia.)
          Só agora, com tantas aspas a enfeitar-me a crônica, percebo minha ambiguidade sobre quem seriam os "mais fortes" e os "mais fracos". Definamos, portanto, quem seriam esses senhores. Mas antes confesso que, pilotando a moto pela manhã, pensava também noutro viés do "país de gente boa".
          Todos sabem que o brasileiro é conhecido por ser um "solidário" nato. (Aviso de antemão: – as aspas deste texto vieram para ficar.) Basta que os morros desabem sobre os casebres que nunca deveriam estar ali porque a lei os proíbe e que as enchentes destruam as casas construídas em áreas de risco para que se manifeste o "brasileiro solidário". Milhares de objetos de primeira necessidade e milhares de reais serão doados para atender as necessidades do povo desabrigado. É um evento quase anual. Se não acontecer há de ser porque a estiagem não permitiu. Estamos justamente adentrando a estação chuvosa e até agora nenhum desabrigado, nenhum alagamento, nenhum transbordamento. Desejando ardentemente estar equivocado, há de ser uma questão de tempo e do tempo. Ainda que existam as leis que visam proibir a construção em áreas sujeitas a riscos, elas não surtem efeitos porque quem resolve morar nessas áreas é o "mais fraco" e, como dissemos, nada é mais forte do que o "mais fraco" aos dias de hoje. Assim, é ponto pacífico: – o brasileiro é solidário até debaixo d'água. Literalmente. Diferente do mineiro, um espécime de brasileiro que, segundo o Otto Lara Resende só é solidário no câncer, o brasileiro em geral adora ser solidário com a desgraça de seus conterrâneos.
          E, afinal, quem é o "mais fraco" em toda essa história? Há várias possibilidades. De cara pensei que o "mais fraco" seria o pobre, aquele que tem poucos recursos financeiros. O diabo é que o governo tirou da pobreza, por decreto, um monte de gente que, para efeitos de seus feitos, não mais é pobre, mas que, para a realidade dos fatos, continua terminando o mês sem um tostão na carteira. O pobre no Brasil é uma alucinação, um espectro do passado a assombrar o governo.
          Depois pensei que o "mais fraco" seria o marginal, o criminoso declarado, o assassino, o traficante de drogas ilícitas, que, quando preso, vai cumprir pena em prisão que mais parece um calabouço medieval. Mas de imediato concluí que o difícil é esse povo ir preso e, se for, mais difícil ainda é lá permanecer já que os indultos e frouxidões aí estão para livrá-lo. Isso sem falar que a alguns a prisão é o céu, já que lá ficando recebem pensão do governo para sustentar os filhos.
          Em seguida imaginei que o "mais fraco" é o menor abandonado, o menino de rua que vive debaixo de viadutos e pontes, sem ter o que comer e vestir, largado ao relento da noite e ao calor do dia, sem escola para frequentar e sem família para abrigá-lo; mas logo vi que não, que hoje o menor tem a proteção do Estado, tem o Estatuto que o livra de todos os males e o protege de todas as ameaças e perigos, de modo que tem tudo, dispõe de tudo, é feliz e sadio....
          Já estava me vendo sem opções quando imaginei que o "mais fraco" é o idoso que, depois de passar a vida pagando elevados impostos, o governo acabou por presenteá-lo com um outro Estatuto que o protege do preconceito e maus tratos, além de livrá-lo de filas e das roletas do transporte público, embora ainda lhe pague uma aposentadoria humilhante e aviltante, enquanto lhe oferece serviços de saúde onde ficam mais doentes e acabem por morrer.
         Assim, cheguei a meu destino sem descobrir quem seria o “mais fraco” nessa estória, admitindo a possibilidade de que este pudesse ser eu e os a mim semelhantes, mas aí já seria advogar em causa própria e, além do mais, não gosto de ser “mais fraco” em coisa nenhuma, de modo que estacionei, desliguei a moto e fui trabalhar. Qualquer dia desses, num lampejo de inspiração, lograrei vislumbrar quem é o “mais fraco”. Afinal, ele há de ser muito gente boa...