domingo, 11 de janeiro de 2015

TODO BOI É A CARA DO OUTRO

          Encontrei hoje, ali no hospital, o meu amigo Rogério Cruz Saraiva, cirurgião pediátrico da mais elevada estirpe e o centro-avante que mais se posicionou em off-side em toda história do futebol amador. De fato, o Rogério nunca jogou futebol, nem mesmo o amador. Sua passagem pelo esporte das multidões deu-se tão-somente e unicamente na imaginação de seus amigos e, principalmente, na imaginação de nosso grande Mestre em Cirurgia, Doutor João Evangelista Bezerra Filho.
          Certo dia, numa reunião da Clínica Cirúrgica, conversávamos informalmente esperando o início das discussões científicas. Em dado momento, quando coincidentemente todos silenciaram ao mesmo tempo, doutor Evangelista olhou para o Saraiva e fez a seguinte reflexão:
          –"Não poderias, jamais, jogar de centro-avante"...
          (Rogério é dono de um vigoroso  e afilado nariz cuja ponta se projeta para a frente numa extensão considerável, de modo que o homem bem poderia representar o Pinóquio ou o Cirano de Bergerac numa peça teatral, e isso sem a ajuda de qualquer meio para lhe ampliar artificialmente o órgão.)
          Olhando-nos entre si, sem entender o que o Mestre exatamente queria dizer, ficamos tentando captar a mente brilhante do chefe. Poucos segundos depois, alguém quis saber:
          –"E por que diz isso, doutor João"?
          Ele respondeu na bucha: 
          –"Ora... Porque estará sempre em off-side"!
          Assim, permanece até hoje no terreno do que foi sem nunca ter sido a carreira futebolística do querido Rogério. No mundo real ele é, como muitos, um profissional médico zeloso, competente e humilde, atuando nas sombras dos holofotes de um mundo que valoriza estrelas opacas. A cegueira grassante impede que se veja o brilho das verdadeiras Betelgeuses, lamentável admitir...
          O diabo é que o Saraiva fez-me um relato que demonstra que seu nariz não é uma estrutura tão notável quanto dei a entender ao início. Dele concluí que a cegueira que não permite que se enxerguem valores não permite também que se veja um poste a um palmo do nariz, e aqui falo de narizes de tamanho normal e de narizes semelhantes ao do querido Rogério. O que aconteceu foi o seguinte.
          Rogério, há vários anos, prestou concurso para a Prefeitura Municipal de Fortaleza para o cargo de cirurgião geral a ser lotado numa unidade periférica do Instituto Dr. José Frota. Foi aprovado e trabalhou num dos "Frotinhas" por 2 anos e, repito, por 2 anos fazia plantões diurnos e noturnos atendendo casos cirúrgicos de urgência e emergência. Por ter sido aprovado, algum tempo depois, noutro concurso que lhe traria maiores vantagens, demitiu-se do "Frotinha" e foi viver sua nova vida. 
          Recentemente, dias atrás, Saraiva foi a este "Frotinha" onde trabalhou por 2 anos solicitar uma certidão atestando o serviço prestado por ele naquela unidade hospitalar, a fim ajuntá-la para contar como tempo de serviço para fins de aposentadoria. Qual não foi sua surpresa quando a funcionária do Departamento de Pessoal do hospital lhe disse que lá nada constava a seu respeito. Procuraram-se arquivos e pastas, reais e virtuais, e nada foi encontrado. Meu amigo doutor Rogério Cruz Saraiva, constava nos arquivos do "Frotinha", nunca trabalhara lá. Dois anos dedicados ao serviço público simplesmente desapareceram, e nem seu nariz foi capaz de lembrar à funcionária de sua presença semanal, no hospital. Não fossem outras "provas", como crachá, contra-cheques, relatórios cirúrgicos feitos por ele, prontuários de pacientes, etc., Rogério teria jogado ao lixo 2 anos de sua vida profissional. 
          O episódio, hilário e trágico, suscita em nós, que dedicamos a vida ao serviço público, a insegurança típica que ronda os que estão a mercê da incompetência de outros. O que estão fazendo com as informações sobre nós em nossa pasta funcional? Que legítimos direitos estarão subtraindo de nós? Enfim, quem somos nós para o serviço público? 
          Após uma breve reflexão sobre o caso, tomei a única decisão possível para a circunstância que se apresenta: – de hoje em diante irei trabalhar fantasiado de palhaço. Sim, já esta semana irei a uma loja providenciar, para meu guarda-roupas, os apetrechos mais indiscretos possíveis a fim de usá-los no trabalho. Certo de que as câmeras de segurança lá estão gravando e filmando o entra-e-sai do pessoal que vai ao hospital, estarei seguro quanto a que não me esqueçam na hora de provar que sou um dos funcionários da casa. Não fossem somente as câmeras, terei também o testemunho de todos os outros colegas de trabalho e também dos pacientes e seus acompanhantes. Estou certo de que muitos deles pedirão para se deixar fotografar em minha companhia. Afinal, não é todo dia que recebem os cuidados de um médico vestido como artista de circo. As fotos servirão como mais uma prova de que lá estou fazendo o meu papel e cumprindo a missão que escolhi. Assim, facilitarei o trabalho dos funcionários do Departamento de Pessoal na hora de requisitar as informações de minha pasta funcional. 
          De antemão peço perdão aos companheiros de trabalho. Não os aconselho a fazer o mesmo. Se o fizer, como poderão nos distinguir uns dos outros? Passaríamos a ser, novamente, a mesma massa indistinta no local de trabalho. Uma das desvantagens de se fazer parte da manada é justamente a indistintividade. Afinal, todo boi é a cara do outro.