quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

PARECERES E PARICEIROS

          Hoje capitulei. 
      Tudo começou quando recebi do Ary, o funcionário encarregado de distribuir os pedidos de parecer nos vários setores, justamente um pedido de parecer para a Cirurgia Vascular. Trouxe-me, da Cirurgia Geral, um papel onde o médico de lá, após identificar o paciente, escreveu exatamente o seguinte:
    “Paciente vítima de PAF abdominal; submetido a LE em 06.01.2015, que evidenciou lesão hepática grau II; segmento VI não sangrante. 06 lesões de jejuno próximas, à 20 cm do Treitz, 02 lesões em ângulo hepático de cólon, 01 lesão tangencial em cólon E. Realizado enterectomia de 15 cm de jejuno”. Datou, carimbou e assinou.
      Há alguns dias, conversando com Bella, concluí, não sem um elevado grau de certeza: – estou ficando completamente doido. Sim, acreditem. Estou louco varrido. Meu diagnóstico sobre mim mesmo é uma dessas raras certezas que se tem na vida, quero crer. E para que os amigos leitores aquilatem o que vai comigo, descrevo alguns de meus sintomas. Para falar a verdade, não são sintomas: – são sinais que podem ser observados por qualquer um que presencie o meu dia-a-dia. (Os sintomas são diferentes dos sinais na medida em que eles são sensações subjetivas, experimentadas apenas e somente pelo paciente.)
      Por exemplo, meus diálogos. Meus diálogos têm sido tormentosos para mim. Obviamente meu interlocutor também passa maus bocados, de modo que ele pensa de mim o seguinte: –”Está doidinho de pedra”...! Eis aí, em curtas linhas, a dimensão de minha tragédia pessoal. Bella, percebendo minha frustração e inconformação, sugeriu, numa tentativa de amainar as nuvens negras que pairavam sobre minha cabeça: –”Estás armado; desarma”... 
      Assumi, incontinenti: –"Estou com um exército inteiro e mais a aeronáutica”! O sujeito que é doido precisa se armar, sob pena de o levarem numa camisa de força a tomar choques elétricos calmantes. E pensava: –”Ora, bolas”!... 
          Mas, voltemos ao pedido de parecer. 
        Afora a péssima redação, repleta de incontáveis equívocos e afrontas à língua madre que até o sujeito que está a passar por um surto de doidice reconhece, jurei que estava diante de um outro grave sinal de minha humilhante condição: – uma cegueira seletiva. Como a redação do documento foi arrematada pelos “15 cm de jejuno”, julguei que o restante do texto estaria oculto para mim, que meus olhos fossem os únicos incapazes de ler o restante. Esse pensamento vinha ao encontro do que ocorria em meus diálogos: – eu não conseguia me entender com meus interlocutores. Agora estava incapaz também de compreender o que lia. 
         Pensei que só havia uma saída para mim, antes que me internassem: – esmiuçar o documento. Entrei, então, a fazer, para mim mesmo, uma espécie de revisão da matéria de modo a me certificar. Quando se está doido, tudo soa irreal e mesmo o que se vê é duvidável, como se fora uma alucinação. Baixinho, de mim para mim, lia: “PAF” significa “perfuração por arma de fogo” e “LE” é “laparotomia exploradora”, consegui decifrar. “Enterectomia” é a retirada do intestino e “Treitz” é uma referência ao “ângulo de Treitz”, a transição entre o duodeno retroperitoneal e o jejuno intraperitoneal, ao passo que segmento hepático VI se refere à porção posterior e inferior do lobo direito do fígado. Meus conhecimentos de anatomia do abdome pareciam estar intactos... Deixemos de lado, portanto, a explicação do que seja o “ângulo hepático do cólon” que o leitor já se exaspera e já o perco para seus afazeres. 
         Contudo, eu sabia: – faltava algo ali. Corri a Bella para que me socorresse. Dei-lhe o papel, as mãos trêmulas de medo, como o sujeito que espera de seu médico o prognóstico sombrio. Ela leu. Releu. Tresleu. Já esfregando uma mão na outra, quis saber: –”Que há aí que não enxergo”? Ela foi categórica: – o texto era aquilo mesmo, exatamente como transcrevi acima. Não havia nem mais uma vírgula, nem mais um ponto além daquele depois do “15 cm de jejuno”. 
          Então, súbito, tudo se fez claro. O médico pediu um parecer sobre... nada! Fez um muito mal feito relato e embananou-se, talvez desviado de seu propósito justo no instante do arremate... quem vai saber...? Pensei cá com meus botões que o homem havia de ser doido de pedra, como eu. Sim, porque o que me faz doido são os meus delírios sobre o clássico modo de se fazer medicina em hospital-escola: – pareceres à beira do leito; a velha “junta médica” onde o profissional especializado emite sua opinião sobre o caso em questão diante de internos, residentes e pares; uma aula teórico-prática que nos deliciava a todos pelo cabedal de informações que recebíamos...
          Em meus delírios, os pareceres de papel sempre me pareceram verdadeiros abortos da prática médica, verdadeiros descompromissos com o aprendizado e competentes fabricantes de médicos compartimentalizados e ignorantes. Não há mais dúvida: – estou doidinho da silva... E, pior! Como hei de defender os pariceiros?...
            Ah! E quem de mim duvidar por louco que estou, carrego cá comigo o papel que o Ary me trouxe como prova material de que existem esses tais assassinos do ensino médico. Posso estar doido, mas não sou besta...