terça-feira, 3 de março de 2015

A REUNIÃO

          Por um momento cheguei a pensar que, hoje, justamente hoje, uma segunda-feira, eu estaria sendo perseguido por ela, a segunda-feira. Diferente do Crusoé, que encontrou o Sexta-Feira, imaginei que a segunda-feira seria, doravante e para mim, uma presença densa e constante. Ao seu final constatei – a segunda-feira é, de fato, um dia incomum.
         Paro no cruzamento entre Pessoa Anta e Alberto Nepomuceno. À direita o motoqueiro não dá a mínima para o farol vermelho e imprime velocidade à sua bicicleta provida de motor, avançando o sinal. À esquerda, um outro, um motociclista, para a meu lado e, olhando para mim, comenta, referindo-se ao insano: – “É por isso que ninguém respeita a gente e pensa que somos todos iguais a esses malucos”... Concluí que os preconceitos e os posconceitos frequentemente se confundem. De fato, no caso em questão, o posconceito prevalece lastreado em evidências gritantes e incontestáveis, o que leva muitos de nós a serem levados na conta daqueles que não amam suas vidas o que, obviamente, é uma dedução presunçosa e injusta. Toda regra tem lá sua exceção...
          A nota mais robusta do dia foi a reunião. Não sei se comentei – acho que não comentei –, mas fui convocado a uma reunião. Meus mais antigos e recalcitrantes leitores sabem – detesto reuniões. Pois fiquem sabendo que a tal foi marcada para hoje, uma segunda-feira. Por aí se vê como minhas segundas-feiras têm sido, no mínimo, suspeitas. O sujeito podia ter marcado a reunião para a terça, para a quarta, para a quinta ou para a sexta-feira. Mas não – marcou-a para a segunda. Ao menos uma vantagem tive – pude preparar a “defesa” ou, melhor dizendo, a pauta no fim de semana. Como detesto reuniões, ninguém obviamente acredita que eu tenha perdido meu fim de semana preparando a pauta de uma, e nem deve mesmo acreditar – não perdi um segundo sequer de meu precioso tempo preparando nada disso.
          Devo dizer, não sem uma pitada de empáfia, que nada preparei porque já me considerava preparado. Os amigos leitores hão de me perdoar esse deslize na humildação, mas ele, de fato, nada tem de pretensioso. Em que pesem opiniões contrárias, o tempo de vivência é um senhor professor, inda mais se estivermos sustentados sobre fortes pilares de princípios imutáveis e valorosos.
          Eis que começa a reunião. Lá fora a chuva e a violência, a mesma que nos traz, aqui no hospital, a “matéria prima” na qual labutamos. O assunto, a pauta, a melhoria e a integração das Residências Médicas do Instituto Dr. José Frota. Lá fora a demanda que, na reunião, segundo o superintendente, mantém-se constante, como a constante gravitacional, nada tem de constante. Segundo ele, a grande diferença são as pessoas. Se as pessoas fizerem a sua parte, superaremos as dificuldades e a demanda já não será uma variável importante da equação. E o doutor? o médico? O médico quer encolher, quer responsabilidades restritas, tem medo da “juridicização” da medicina. Em suma, o médico tem medo de ser processado. Por isso não quer ir um micra além do que faz sua especialidade. Mas... que diabos é uma especialidade? Falando de outra forma, quais os limites de uma especialidade médica? Onde começa e onde termina uma especialidade médica? Mais: – até onde onde posso atuar sem ser processado?
          Quanto menos se sabe, menos responsabilidade se tem, menos envolvimento se tem. Trabalhemos, então, contra a maior responsabilidade. Restrinjamos-nos a um campo restrito, bem curto, quase nada. Esqueçamos, inclusive, o básico, a febre, os estertores, as bulhas, o ritmo de galope, a anasarca, o facies hipocratica, a dispneia paroxística noturna, os ruídos hidroaéreos... esqueçamos tudo o que é básico. Escondamos-nos por detrás da ignorância, como se a nós, médicos, fosse permitida alguma ignorância a respeito de tudo o que basicamente e frequentemente acomete o ser humano em suas agonias e angústias... Fujamos, afrouxemos os laços!... Não nos envolvamos...!
          Na reunião quase ouvi alguém dizer: – “Coitado do médico residente!... 'Tadinho! Tanto trabalho”!... Minha indignação quis gritar, mas minha polidez impediu... a muito custo, devo admitir. Por um momento me distraí e meti o dedo no nariz, em busca de uma casca de minha crônica rinite... Súbito, me vi pego como o menino travesso a catar melecas no nariz adulto... Estou na reunião! Aquieta-te! Comporta-te! O residente está sendo preservado pelo discurso que o quer preservar. Mas... preservar de quê? A resposta veio rápida: – do trabalho excessivo, das vicissitudes do dia-a-dia de um médico interno. Interno?? Corrijamos: – interno é o doente, não nós, médicos residentes. Como se chama o doente? Não sabemos. Ou, melhor, sabemos sim: – seu nome é 1304. Sim, o doente do leito 1304.
           A reunião passou por mim como o vento que não consigo deter. Boa vontade não paga o almoço, nem resolve a questão do residente que não quer aprender. Falou-se em cultura. Estamos sob a égide de uma nova cultura, a cultura do não envolvimento. Súbito, na reunião, lembrei-me da definição de cultura da Brené Brown: – cultura é a maneira como fazemos as coisas por aqui. Perfeito! Demonstrei aos presentes à reunião que cultura é um modo, uma maneira de agir. Eles diziam: –“Aos poucos vamos mudar a cultura”... Sem falar, sem emitir um som, como um coelho prestes a ser abatido para o churrasco, eu gritava para dentro de mim mesmo: –“Não, não, não! A cultura numa instituição se impõe pelas regras e elas, as regras, são ditadas pela caneta da autoridade”! Eis aí tudo... a autoridade... A autoridade persegue, corta o ponto, desconta o salário... mas não impõe a cultura que gera resultados!
            Acabada a reunião – mesmo que não estivesse acabada, para mim ela já era passado – saí. Devo dizer que bebi do café e da água de coco dos chefes, mas tive náuseas e refluxos. O melhor é que, mais uma vez, tive a certeza: – reunião nada resolve. Evitar a ilusão me acalmava, me dava uma sensação de unicidade, de clarividência e liberdade. Eis aí tudo: – liberdade! Pensar segundo as regras de pensar é uma forma de submissão ultrajante e aviltante. Mais gente sou com o dedo no nariz a arrancar melecas e crostas riníticas. À tarde, a má notícia – a gravíssima doença de um querido amigo, de um colega... As lágrimas queriam vir e eu as suprimia, eu as afogava, eu as bebia, nelas me afogava... E pensava e levitava como se pairasse dois ou três metros acima do chão, como o bêbado do dia-a-dia que não repousa... Ah...! é segunda-feira, dia com cara... de segunda-feira. Mas, que importância tem isso se quem vive, vive e quem vai morrer, vai morrer? Perdi a noção... devo por aqui ficar...