quarta-feira, 25 de março de 2015

A MORTE DO PAULO E O "SWELL" DO FÁBIO MOTTA

          Faleceu ontem, após meses de luta contra o câncer, o amigo Paulo José Brasil de Souza.
        Paulo descansou. Estava cansado e, ouso dizer, extenuado. Seus instantes finais demonstraram toda a fadiga que dele se apoderara. Seu último fôlego assemelhou-se ao do náufrago que, cansado de lutar contra as águas e preso ao derradeiro tronco de madeira remanescente de seu barco despedaçado, resolveu largá-lo e encarar seu instante final. Seu recalcitrar é explicável: – não queria ir. Queria ficar mais um pouco, mais alguns anos, e ver seus dois rebentos, o último nascido há cerca de quinze dias apenas, vicejarem. Em sua lápide constará que veio ao mundo em 19 de março de 1961 e dele partiu em 20 de março de 2015. Tão obstinado pela vida, viveu menos de um dia a mais de seus 54 anos, o que demonstra sua teimosia em viver. A vida lhe dizia não, e ele lhe dizia sim...
          Mas, o que somos nós quando a vida se vai de nós? Temos em nós a vontade de vida, mas ela, a vida, não tem a mesma vontade de nós. O que se vai fazer?... Ela nos abandona e cá ficamos, um corpo inerte e vulnerável à decomposição. Resultamos tão degradados que somos inumados, escondidos à visão dos que ficam, para que não assistam ao nosso desmonte. (Ontem o Mesquita me dizia de um amigo seu, rico e avaro até o semieixo, que morreu tentando economizar umas poucas patacas. Concluímos que por não querer deixar ir-se um pouco de seu dinheiro, foi ele quem se foi. Assim, o dinheiro o perdeu e permaneceu aí para alguém que dele faça melhor uso.)
          Paulo, com sua partida precoce, deixa-nos aqui com suas lembranças. Permanece vivo em nós, já que suas “artes” preenchem nosso relicário. (Diz o Rubem Alves que a arte não suporta o efêmero. A arte é a luta contra a morte.) Ontem o visitávamos com a plena consciência da gravidade de sua doença, ele com a inarredável esperança daqueles a quem nada mais resta senão ela, a esperança. Hoje, a morte. Enfim, o fim... Seu corpo volta ao pó de onde veio, enquanto a vida que o animava retorna para Deus.
          Por tudo isso e cheio dessas reflexões é que voltei à carga com o meu amigo Fábio Motta. O que aconteceu foi o seguinte. Admoestei-o com firmeza. Disse-lhe que não admitia que ele, vivo e saudável, se negasse a festejar a vida, enquanto Paulo a perseguiu até não mais suportar. Seria uma afronta ao amigo morto. Finalmente, ele acabou marcando um encontro entre nós, pressionado pelos amigos e particularmente por mim a comemorar seus 53 ocorridos na última segunda-feira, 23.
    Não demorou muito e eis que o amigo parecia querer escapar às responsabilidades. Reservadamente comunicou ao Mesquita, seu mais antigo e dileto pariceiro em assuntos surfísticos e nas saliências namorísticas da adolescência, que não seria possível comemorar na terça como combinado porque hoje, quarta-feira, iria “entrar um swell”. O Mesquita, como bom pontualista que é, não contou pipoca – divulgou em nossa rede social privada a nova data de comemoração de seu aniversário. E o fez como faz todo bom surfista; deu detalhes – vai “entrar um swell”. Mais literal do que isso, impossível.
         Os outros, nós, laicíssimos em termos de surf e do jargão que usam seus praticantes, ficamos aqui embasbacados e boquiabertos. Eu, que não gosto de entrar mudo e sair calado em debates cujo tema me seja desconhecido e analisando meus conhecimentos da língua britânica, presumi que um swell acontece quando a maré se avoluma. O tal swell que interessava o Fábio Motta iria “entrar” às 5 da manhã de hoje, cedo o bastante para obrigar o sujeito a ir dormir cedo caso quisesse ter o prazer de surfar as ondas gigantes que se geram nesse avolumado mar. Comecei, assim, a entender a procrastinação pedida por meu amigo. Por isso, e para contribuir para o entendimento, por parte de todos, da situação, anunciei na rede o seguinte: – “Caros amigos, a comemoração do aniversário de nosso Fábio Motta não mais será hoje à noite. Motivo: amanhã cedo vai entrar um swell no respeitoso orifício de nosso amigo”.
         O problema é que na próxima quinta-feira, o novo dia marcado para o regabofe, será o dia em que celebrar-se-á a missa de sétimo dia pela morte do Paulo. Ainda que nem todos sejam dados às missas de sétimo dia – sou um deles –, outros manifestaram seu desejo de comparecer à igreja para rezar pelo amigo, razão pela qual descartou-se a quinta e marcou-se a sexta como a data agora inadiável.
         Tudo certo, tudo perfeito. Era o que parecia. O diabo é que o Sérgio Moura, em casa a tentar mitigar o incômodo prurido que carcomia suas partes pudendas atacadas por uma crise obfirmada e molestante de hemorroidas, descobriu, na rede social pública, uma fotografia comprometedora de nosso Motta. Nela o homem aparece ao lado de uma mocinha muito simpática que, pela aparência, deve ainda ser menor de idade ou, como insistem os ignorantes da língua madre, ainda “de menor”. Indagado sobre a procedência da jovem o nosso Motta, todo sorridente dos sorrisos que denunciam as saliências casanovistas do varão vigoroso, confessou: –“É minha nova estagiária”...
          Não houve jeito. Acabamos combinando ontem à noite mesmo, a véspera do swell, para molhar a palavra e intimar o Fábio Motta a prestar esclarecimentos sobre sua nova estagiária e suas reais intenções em relação a ela. Sim, porque não queremos que o homem troque os pés pelas mãos e acabe processado ou preso por corrupção de menor. Em se tratando de Fábio Motta, é bom lembrar, tudo é possível. O homem dá um trabalho danado...!



(Atentem os leitores que, nesta crônica, há certa incongruência temporal quanto aos fatos. É simples. Comecei a escrevê-la no sábado e só a concluí hoje.)