domingo, 1 de março de 2015

UMA SEGUNDA COM CARA DE SEGUNDA

          Como dizem os queridos amigos da Empiricus Research em suas matutinas newsletters de segunda-feira, esta segunda-feira teve cara... de segunda-feira! E por que estou aqui a repetir chavões de outros, correndo o risco de ser taxado de plagiador? Porque esta foi uma segunda-feira realmente inusitada. 
          Tudo começou quando encontrei o meu querido e amado amigo Ciro Ciarlini ali no hospital. O Ciro, para quem não o conhece, é um sujeito boníssimo e um excelente bisturi. Faz tanto o bem que elabora anedotas de seus próprios e múltiplos sucessos. Outro dia ele vem andando pela rua e dá de cara com um sujeito que, se aproximando, lhe diz, os braços abertos dos que almejam um abraço e um sorriso amplo e legítimo a lhe iluminar os olhos: 
          – Doutor Ciro! O senhor me salvou!
          Ele, retornando ao mundo real a partir de sua meditação de leitor voraz, retruca em sua voz macia e clara: 
          – Mas, quem é você, meu amigo?
          O homem responde: 
          – O senhor não se lembra? Operou-me de um balaço no peito e me salvou!...
          Ele, mordaz, responde: 
          –  Eu te operei e tu ainda estás vivo?? Tens muita sorte, meu amigo...! 
          O amigo Ciro Ciarlini diz, enfático, que não ajo corretamente. Em nossas deliciosas e enriquecedoras conversas, ele, de dedo em riste, me diz que devo, como funcionário público, ser esquerdista. Como já debatemos largamente o tema, hoje ele me saiu a querer comparar o Brasil e os Estados Unidos, dando à prosa um rumo mais caótico e mais controverso. Ao final, fi-lo aderir aos argumentos dos fatos. Após um falatório danado, deu-me abertura para explicar porque no Brasil é mais negócio ser funcionário público do que ser empresário, enquanto lá, nos Estados Unidos da América, é mais negócio ir para a iniciativa privada. 
          Vejam o intrigante, ainda na esfera dos fatos. Ciro mora no Brasil, diferentemente de seu filho Pedro, que mora nos Estados Unidos, onde faz Residência Médica. Aqui o amigo ocupa duas posições no Quadrante de Fluxo de Caixa de Robert Kiyosaki: – é empregado e é dono de negócio. (Também consta que andou comprando umas ações na bolsa de valores, mas parece que andou perdendo dinheiro e, vocês sabem, antes perder o juízo a perder dinheiro...) Como empregado, é funcionário público do Estado e do Município, sendo que já está a gozar a aposentadoria no primeiro, enquanto luta desesperadamente para se aposentar no segundo.  Como dono de negócio, possui um imóvel onde aluga salas para consultórios médicos – ele mesmo utiliza uma delas como seu consultório particular – e onde até funciona um pequeno centro cirúrgico. Emprega meia dúzia de funcionários ou pouco mais que isso.
          Como funcionário público, meu amigo quer o certinho todo fim de mês, as férias, a licença prêmio e a aposentadoria do governo. Afinal, dedicou anos de sua vida ao serviço público; não está disposto a "perder" tudo isso. Como dono de negócio, está sempre às voltas com a burocracia, com os fiscais do governo, com a justiça do trabalho paternalista, com os impostos escorchantes e obrigações a pagar diariamente. Além disso, há as despesas do negócio como a conta de energia, a conta de água, a manutenção de equipamentos, os serviços de limpeza, etc. 
          Em suma, concluímos que escolhemos ser funcionários públicos, no Brasil, por uma simples razão: – é bem mais fácil. Tem-se alguma dor de cabeça, mas incomparavelmente menor do que a do dono de negócio. Esse negócio de ser dono de negócio não é, definitivamente, coisa de Brasil. E até é. Para poucos. Alguns bons, aguerridos e recalcitrantes brasileiros metem as caras, metem os pés pelas mãos e montam negócios mesmo à luz das sombrias estatísticas que provam que a grande maioria dos negócios fracassa logo no seu primeiro ano de vida. As causas? Já as listei acima. Não é à toa que temos no Brasil um dos piores ambientes de negócios do mundo. E assim, após as conclusões tiradas à luz dos fatos e das evidências, despedimos-nos, Ciro e eu, e fomos cuidar da vida. 
          O inusitado da segunda-feira se caracterizou definitivamente à tarde. Os amigos do tempo dos cueiros e fraldas principiaram, na rede social, um caloroso e choroso debate na rede social – pasmem! – sobre o mesmo tema debatido pela manhã com o Ciro. Com dois deles fazendo parte do grupo de Donos de Negócio do Quadrante do Fluxo de Caixa do Kiyosaki, outro sendo Autônomo e um outro sendo Empregado na "iniciativa" privada, não podíamos esperar bons auspícios e boas perspectivas na conversa. Afinal, toda conversa vai bem se o tema tem bom prognóstico, ao passo que vai mal se o horizonte se mostra nebuloso. Com a procela a se desenhar em lapso não distante, as opiniões e queixas eram diversas e intensas. 
          Porém, a pelo menos uma conclusão chegamos: – no Brasil, em termos de negócio, só prospera quem está na informalidade, quem usa ilegalmente os espaços públicos para fazer funcionar seu negócio, quem falsifica e negocia produtos falsificados, quem não emite nota fiscal e não é penalizado, enfim, quem não é incomodado pelo governo. Em suma, prospera quem está à margem da legalidade e não é perturbado pela autoridade de plantão. Quem pensar que isso é coisa do submundo das cidades e da calada da noite, engana-se. Tudo isso funciona diuturnamente e vespertinamente nas ruas, avenidas, calçadas e balcões montados e cedidos pela própria autoridade municipal para este fim. São "pequenos" comerciantes, pobrezinhos, que, por serem "pobrezinhos", tudo podem fazer de ilegal e ainda estarão protegidos pelo governo, ainda que ferindo vários artigos da lei, numa demonstração de que o grande e maior criminoso neste país é este mesmo governo. Esse povo que tudo pode precisa alimentar os filhos, precisa sobreviver e, sob a égide desta nobre justificativa, pode infringir a lei. Assim, ficamos sabendo que, neste país, todos somos diferentes perante a lei e que otário é quem a cumpre.  
          Após a conclusão inevitável e inexorável, a conversa virtual teve o fim melancólico próprio das conversas que prognosticam o pior para os dias vindouros ou, ainda, das conversas que prognosticam a inexorabilidade da perpetuação de tudo o de pior que temos hoje. De fato, esta segunda-feira teve cara de segunda-feira e previsão de tempo ruim com tempestades contínuas e visibilidade de menos de um palmo à frente do nariz...

09/02/2015