quinta-feira, 29 de setembro de 2011

A espera


Por dias me abateu uma esterilidade de temas. Ainda me abate. Não me arreda o pé. Como uma saudade que tive – e ainda tenho – a escassez persiste. A mim me parecia ser justamente este o momento de algo. Não há artista sem dor. A dor, o abandono, a rejeição e as saudades fertilizam nossos jardins da alma como adubo excelente e viçoso. Não é o que me está a ocorrer. Há dias que passo sozinho, sem trocar única palavra com semelhante. Obrigo-me a pensar, a refletir. Como um Crusoé da selva de pedra, gasto as horas vendo o sol passar do lado direito ao lado esquerdo de meus muros. Leio algo, ouço a música, me meto nas sombras do crepúsculo que anuncia o fim de mais um dia. Tanto a dizer, não sei como. Não acho as palavras; não encontro metáforas, metonímias, hipérboles ou quaisquer figuras que me ajudem.
            Aproxima-se a hora.
Minha vida me passa como uma película enodoada. As decisões, os erros, os enganos, as ilusões, as transições, as feridas, as perdas, tudo num instante.
Aproxima-se o momento.
Memórias do que foi bom persistem enquanto esqueço o que foi mau. Um esforço não seria o bastante para lembrá-los, nem seria sensato tentar fazê-lo. Para quê? Por quê?
Aproxima-se o instante que tanto espero.
Sinto um leve incômodo a me alvoroçar e não me agrado dele. Não tentarei explicá-lo a mim mesmo. Na hora certa a resposta virá, as razões virão. O tempo sempre deve ser utilizado a favor da resolução da dúvida ou do que ainda não se revelou plenamente. Por que exasperações gratuitas? Muitas vezes, sem nenhuma razão, nos invadem maus sentimentos ou pruridos mal definidos, cujos motivos nos fogem ao entendimento.
Espero. Ainda restam 3 horas. Até lá espero.
O que me incomoda se revela – as palavras que um dia falei. “És senhor do que cala e escravo do que fala”, diz o velho ditado. Eis o pecado. Falei. Não devia, mas o fiz, e o que está feito está feito. “Três coisas não voltam mais: a pedra lançada, a oportunidade perdida, a palavra emitida”, o outro ditado. De ditado em ditado vou me angustiando. Nada a fazer, nada a dizer; quanto menos dizer, melhor.
Se escrevo, pior. E estou cá a escrever, em que pese toda uma esterilidade inexplicável. Falo coisas sem nexo, traduzo idéias mastigadas e não digeridas, tudo uma minúscula parte de meu imenso e único universo. Quem entenderá? Ninguém, sem dúvida. Ou alguém, quem também está a esperar. Ou talvez também não entenda, a não ser quando digo da espera. Esperamos, ambos, a hora que ainda tarda.
O escrever não deve escravizar. Não se escreve para se tornar escravo, mas para se libertar das amarras da gravidade e dos aguilhões da alma. Escreve-se em tributo à liberdade. Palavra falada carrega consigo, muitas vezes, o tempero da intemperança, ao passo que palavra escrita, ainda que se possa apimentá-la, vem lastreada da certeza de seu alvo e de seu nascedouro.
Ainda espero.
Ia escrever dos que morrem para dar vida ou curar alguém; ia falar dos que adoecem de doenças evitáveis e preveníveis, e que não se previnem devido ao nosso desprezo pela vida alheia, ao nosso pouco caso com o outro. Ia dizer que não há o que comemorar quando os que morrem não deveriam morrer, e quando os que adoecem não deveriam adoecer. Não há o que comemorar em omissões tão criminosas. Não há o que comemorar na solução complexa quando a simples se mostra tão fragorosamente em sua pragmática e econômica simplicidade. Os números que se divulgam não deveriam ser motivos de regozijo, mas de vergonha. Chega a ser ridículo, mas não é – é criminoso mesmo.
Ia escrever, mas não consegui, a não ser por essas poucas e diáfanas linhas. E queria dizer o seguinte: tudo não passa de falácia, e nada mais. Alguém entenderá? Alguns. De fato não estou a escrever – é o mais puro devaneio à ponta dos dedos.
É chegada a hora.
Vou.