terça-feira, 8 de novembro de 2011

Peidorreiro


Sei que não acreditarão – ligou-me hoje o Amorim. Muitos de vocês não o conhecem posto que me leiam há pouquíssimo tempo. Se quiserem conhecê-lo, poderão ver suas inúmeras histórias e peripécias em meu blog “O Desocupado” (fecavalcanti.facilblog.com).
Há vários meses o amigo não aparece. Julguei que as estradas da vida estavam a levá-lo para longe de mim como sói acontecer nessa fase. Todos estão muito ocupados com as bobagens e superficialidades de sempre. Hoje, por exemplo, fazia eu uma refeição matinal com todas as janelas e portas abertas. Entravam o sol e os ventos por todos os lados, dando, ao início da manhã, aquela sensação de nossa perpetuidade individual. Porém, entravam também os sons de britadeiras, de perfuradoras, de máquinas a trabalhar em construções próximas, anunciando a obstinação dos homens em eternizar o efêmero em seus sonhos menores. Lutamos por muito pouco, quase nada. Assim, ao momento dessas reflexões contraditórias, bateu-me o telefone o amigo.
Estava apreensivíssimo. Trazia-me um problema que, de tão inusitado, de tão original, deixou-me deveras preocupado. Confesso: jamais havia passado por minhas idéias semelhante possibilidade de contrariedades, como verão a seguir.
O que ocorreu foi precisamente o seguinte. Amorim, um solteirão convicto descoberto ao final de três casamentos, sentira-se, antecedendo a cada um deles, como o Tomas do Milan Kundera. Como o personagem do escritor tcheco, a cada uma das mulheres que Amorim conheceu, antes de levar cada uma de suas “Terezas” ao altar – notem que “levar ao altar” aqui não passa de uma figura de linguagem – se perguntava, numa cava angústia: -“Mas seria amor?” E seguia alimentando-se da dúvida kunderiana: -“Seria melhor ficar com ‘Tereza’ ou continuar sozinho?” E mais. Assumia-se cada vez mais um Tomas reencarnado a refletir: “não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação”.  
Deu no que deu, e achava-se Amorim tendo vivido todas as possibilidades com as três mulheres com quem contraiu matrimônio. Para completar o quadro de tantas e tantas semelhanças com o personagem, em sua solteirice encheu-se Amorim de amantes. Aquele diferia de Amorim em único aspecto: casara-se somente uma vez. No mais, seriam idênticos. Dir-se-ia que o amigo via no romance a enciclopédia para sua vida amorosa. Até a regra que Tomas ensinava aos amigos ele seguia à risca: “É preciso observar a regra de três. Pode-se ver a mesma mulher em intervalos bem próximos, mas nunca mais de três vezes. Ou então vê-la durante longos anos, mas com a condição de deixar passar pelo menos três semanas entre cada encontro”. Eis aí o pano de fundo sobre o qual veio se depositar o inusitado.
Amorim envelhecera e, sabem lá os proctologistas, às vezes alterações digestivas ou mudanças de estilo de vida, da alimentação, ou seja lá do que for, levam ao aparecimento de molestos sintomas, de menor importância no prognóstico, mas bastante tormentosos ao dia a dia – Amorim adquirira uma flatulência de grau, digamos, importante. E me dizia aflito: -“Sabes que as esposas toleram essas coisas, mas não as mulheres com quem ainda não temos intimidade...” Fui obrigado a concordar e a me solidarizar com o amigo. Sobre o pano de fundo da insustentável leveza dos relacionamentos de meu amigo pairava a insustentável leveza de seus gases intestinais a terrificá-lo a cada momento em que desfrutava da companhia de uma nova namorada.
Que fiz eu? Que poderia fazer? Sugeri duas, ou melhor, três abordagens: que doravante em hipótese nenhuma ingerisse qualquer alimento ou bebida gaseificada por pelo menos três horas antes de estar com a pequena; que descobrisse de imediato qual, dos alimentos que ingeria, aquele responsável por sua situação desconcertante; que ficasse íntimo das pequenas o mais rápido possível. Das três não lhe agradou a última que, segundo ele, quebrava a regra central de sua vida “sentimental”. Restou-me, então, a prescrição do Luftal como abordagem de urgência, já que um novo encontro se desenhava para breve.
Vejam vocês que o amigo me procurou apesar de sabedor de meu fracasso como proctologista, confissão que fiz com prazer já há algum tempo (http://fecavalcanti.facilblog.com/Primeiro-blog-b1/Proctologista-fracassado-b1-p4.htm). Como escrevi lá, odeia-se, desde sempre e para sempre, o proctologista. Talvez para o amigo seja melhor odiar a quem já se ama. Melhor isso do que exposições desnecessárias a um desconhecido cutucador das partes pudendas.