quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A morte e 1 ano a menos

Faleceu Claudinha Viot.
     Assusta-nos quando a inexorabilidade do fim da vida se nos mostra tão precocemente e tão implacavelmente. De fato, não me assusto. Apodera-se de mim ou, melhor, deixo-me, entrego-me a essa sensação de que minha vida está suspensa a alguns centímetros do chão, como se isso indicasse a leveza e imponderabilidade de tudo.
E me permito a isso por um capricho que só os de coração empedernido podem se dar. É como se ali, a alguns centímetros do chão, se desvalessem todas as leis que regem o sofrimento humano. Não há ali dor – só uma perplexidade muda; não há ali choro – só uma leve confusão de ideias; não há ali medo – só a constatação de tudo e a dúvida do nada.
Nada direi de Cláudia. Minto. Direi apenas que foi das mais doces criaturas que tive o prazer e a alegria de conhecer. Nada mais direi. Minto novamente. Direi também que sua doçura foi de sempre, de desde que a conheci, e até de antes, e até depois. Nada houve nela ou que para ela fizessem que a levassem a perder sua constante e terna doçura. E note-se que há doçuras que enjoam, que entojam, que entediam. Não era essa a dela. Sua doçura foi a moldura e a tela de sua vida. E até seu corpo sem vida transpirava – só os vivos transpiram – aquela sua inconfundível ternura.
Não resisti à tentação de acariciar a moradia de sua alma, seu corpo agora sem vida. Não fosse o véu rendado que o cobria e ter-lhe-ia feito um cafuné. Deslizei a mão sobre sua fronte, como fazemos em nossos filhos quando estão para dormir, e toquei-lhe a mão esfregando-lhe com as unhas, como fazemos com os amigos que amamos em seus momentos difíceis.
Confessei antes a visita que lhe tentei fazer no hospital. Não sei se seu prognóstico ou a certeza de constatar sua distanásia me acovardaram no momento – saí de defronte ao CTI e dali para fora do hospital como um raio. Não quis vê-la ali. Repudiei aquela visão. Vê-la sem vida na paz dos que dormem me deixou na lembrança sua eterna doçura, sua face sempre plácida, seu ar sempre franco. Terei sido egoísta? Não sei.
Lembrei-me da sensação de perpetuidade que nos assalta numa azul e iluminada manhã de sol; de como nesses instantes nos deixamos iludir pela beleza da natureza; de como permitimos que esta ilusão perpetue nossos sonhos; de como nossos sonhos são fúteis...; de como não mudamos o modo como vivemos porque a ilusão da clara e luminosa manhã banha também aqueles sonhos. E quando os realizamos não dispomos à mão do corpo sem vida de alguém que amamos para nos lembrar que o sonho, mesmo e principalmente o realizado, é apenas mais uma volátil quimera.
Depois dos funerais, o aniversário do amigo, outro amigo. À hora dos parabéns puxou-me a um canto, após os “muitos anos de vida”, e segredou-me: -“É menos um ano, meu chapa...”
No alto, um céu repleto de estrelas, ofuscadas pelas luzes da metrópole, desafiava nossa compreensão de tão dúbias manifestações do pulsar da vida e nos humilhava em nossa pequenez e questiúnculas. Em silêncio entornei a dose do uísque do qual me servira há pouco.