domingo, 6 de novembro de 2011

Emily Brontë no Facebook

Emily Jane Brontë era, segundo consta, tímida e solitária e, por isso, reclusa. Aguda, era capaz de descrever muito do íntimo das pessoas sem com elas se relacionar. Tentou lecionar, não conseguiu – sua timidez a impedia. Morreu de tuberculose aos trinta anos, tendo escrito uma única obra em prosa. Escondia as poesias que escrevia. O diabo é que ela viveu no século XIX, quando ainda não havia computadores nem internet.
Imaginemos agora a senhorita Brontë vivendo aos dias de hoje. Em primeiro lugar, não teria morrido de tuberculose. A menos que vivesse num país miserável, ela teria uma chance próxima a 100% de ter sobrevivido. Em segundo lugar, faria psicoterapia e teria sua inadaptabilidade sob controle ou, no mínimo, aprenderia a lidar com ela, seja lá o que isso queira dizer. Em terceiro lugar, estaria em pelo menos um site de relacionamento ou rede social.
Em que a rede social ajudaria esta pobre, solitária e sensível senhorita? A medicina e a psicoterapia teriam dado a sua contribuição. A rede social teria algo a lhe oferecer? Uma coisa é certa. Os fatores que se combinaram para levá-la a escrever seu único romance, cuja tensa atmosfera nos faz conjeturar sobre as tempestades que assolavam aquela criatura, não o teriam feito, e hoje não estaríamos a ler “Wuthering Hights” (O Morro dos Ventos Uivantes). Mas, e as redes sociais na vida de Emily Brontë?
Imaginem aí os senhores e as senhoras o seguinte – a senhorita Brontë no Facebook. Escreveria lá, em seu perfil, que teria seis irmãos, deles um único homem que, por sinal, seria alcoólatra. Mas esse último dado ela omitiria, que a ninguém interessa as mazelas de sua família. Nem confessaria os maus tratos de sua austera tia, que com a família veio morar após a morte de sua mãe. Escreveria diariamente recadinhos curtos para suas queridas irmãs, Charlotte e Anne, ambas escritoras e poetisas,  e perguntar-lhes-ia sobre os novos poemas que teriam escrito. Trocariam publicamente, nesse Facebook hipotético e surreal, carinhos e elogios desmedidos, cuja desproporção causaria reservas a uma criancinha pequena. E diariamente exporia as saudades que ainda sentia da velha e boa Thaby, a mais doce secretária do lar que já existiu.
Enfim, é bastante provável que a jovem Emily Brontë gastasse boa parte das horas de seu dia espantando e exorcizando sua imbatível e ininterrupta solidão nesse onírico Facebook. Para ela, ainda que suas sessões de psicoterapia estivessem ajudando bastante com sabe-se lá o quê, sua presença diuturna na rede social a ajudaria mais ainda. Lá ela poderia impressionar, falar, ser quem era e quem não era, poderia se reinventar, se promover, amar, odiar, informar, se informar, enfim, sair de si mesma e da prisão de si mesma. Poderia, na rede social, ter uma vida diferente daquela que vivia. Ou, melhor, da que não vivia. De fato, lá viveria, como muitos dirão.
A conclusão óbvia seria a de que a rede social tem lá a sua importância como palco de algumas vidas e, quem sabe, seria um coadjuvante de peso no tratamento de muitas e várias inadaptabilidades da vida moderna. O que seria dessas almas feridas se não pudessem viver n’algum lugar onde pudessem ser e não ser, fazer e não fazer, amar e não amar? Por outro lado a tal rede estará sufocando e reprimindo uma penca de talentos. A arte é a catarse do sofrimento. Cessado este, cessa aquela.
Quem seria Emily Brontë ao tempo deste Facebook?