sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Paleozóica obtusidade

ESCREVEU-ME o Motta para me lembrar a frase de Bernard Shaw que diz que “é perigoso ser sincero, a menos que seja também estúpido”. Não sei por que cargas d’água ele me veio com essa, e já começo a suspeitar que tenha o Motta cometido o pecado de desobedecer ao que manda a frase. Terá, talvez, sofrido as conseqüências de ter sido estúpido. A verdade não é uma faca de dois gumes – ela tem um só, mas é afiadíssimo.
            O diabo é que me espicaçava o espírito uma idéia semelhante, a saber, a de ser sincero sobre determinado assunto. O tema me tem sido recidivante, ou me tem sido oferecido com demasiada freqüência para que o despreze.
Somos amiúde escravizados por idéias ou por pessoas. De fato, são sempre as pessoas a nos pretender escravizar. Idéias não nascem das rochas ou do asfalto quente – elas nascem nas mentes de pessoas. São geradas com uma infinidade de propósitos, e mesmo espontaneamente. Com muita freqüência já nascem para escravizar. As pessoas têm inteligência e a inteligência não é nada santa.
Há também os sistemas e os paradigmas escravizantes. Eles têm uma aparência inocentíssima, mas suas correntes e algemas não se desamarram facilmente. Uma vez em suas garras o sujeito estará embrulhado com lacres e tudo. O pior é que muito de tudo isso é perfeitamente evitável, e mesmo os sistemas que escravizam funcionariam melhor se se utilizassem de pessoas livres.
Não sei se já ouviram falar do senhor Ricardo Semler. Ele é chefe-executivo e sócio majoritário da empresa SEMCO S/A, “empresa brasileira conhecida por sua implementação radical dos conceitos de democracia industrial e reengenharia corporativa”. Além disso, ressalte-se que “sob sua gestão os rendimentos da empresa cresceram de quatro milhões de dólares em 1982 para 212 milhões de dólares em 2003”. O senhor Semler libertou sua empresa para crescer por ter libertado seus colaboradores. Em suma, o senhor Semler mostrou o que se pode realizar quando as pessoas são livres no trabalho.
Outro dia falei do ponto do IJF. Uma engenhoca eletrônica é lá utilizada para registrar a hora de entrada e saída dos funcionários do hospital, dentre eles os médicos diaristas. O que fazem os médicos diaristas daquele hospital? Depende da clínica a que     pertencem, mas, no geral, promovem a complementação do tratamento definitivo dos pacientes atendidos na emergência, vítimas da violência descabida em nosso meio ou de acidentes. Em algumas clínicas os pacientes recebem tratamento definitivo, provido pelos médicos diaristas, de doenças crônicas, mas a missão maior do hospital é o atendimento de urgência e emergência.
    Antes de seguir adiante, relembro – estou para ser sincero e, portanto, estúpido. A certa idade não é elegante o ser, uma vez que a sabedoria manda o contrário. Contudo, deixar de ser sincero a esta mesma idade fere o espírito de destemor que se achega nessa fase da vida. Assim, há aqui um aparente dilema inconciliável. Há aqui ideias mutuamente exclusivas.
O que quero dizer é que cobrar do médico não plantonista horas rígidas de permanência no hospital no intento de fazê-lo cumprir uma “carga horária” é tão colegial quanto – aqui sim! – estúpido. Médico não é mecânico de linha de montagem nem vendedor de loja de varejo. Médico não produz, uma vez que o doente não é um item. Nem mesmo saúde produz o médico. Saúde se produz com educação em massa e de boa qualidade. O que faz o médico, afinal? Resposta: cuida. O que se pode cobrar do médico, então? Resposta: que cuide.
Há lá, no IJF, médicos cuja folha de ponto é um primor, mas de ninguém cuidam. São a esses que se está pagando tributo ao se aceitar a “carga horária” como a medida de trabalho do médico. Estúpido sou eu em minha sinceridade ou os gestores em sua paleozóica obtusidade?