quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Gênios de araque


 "Porque onde não há lei também não há transgressão." (Rom: 4, 15)


           Outro dia uma amiga foi vítima na e da rede social por parte de desconhecido. Passadas poucas horas de meu texto sobre o caso, ela me confessou: -"Sei quem é o canalha!" E saiu a me dar a ficha do "canalha". Resumamos para não cansarmos o pobre e vitimado leitor – ela conhece o homem de cabo a rabo. Digamos que ambos chegaram a conviver na intimidade. Diria até que coabitaram. 
           Antes, uma pausa. Eu disse que minha amiga foi vítima "da" rede social. Não sei se perceberam. Conclusão: a rede social vitima. Você pode ser a próxima. Qualquer um pode ser a próxima vítima. Basta estar lá. Estar vivo na rede social é como estar vivo na vida real. Para lá morrer basta lá vivo estar. Vejam que esse "estar vivo" não se refere à biologia do ser, mas à sua vida virtual.  
          Outro dia fui testemunha de um "assassinato" na rede social. Uma pobre senhorita fez o que eu considerei uma admoestação em determinado grupo da rede. O que se seguiu foi um massacre virtual, liderado por uma outra senhorita, ou senhora, de elevada estirpe cultural. (Aos que me perguntarem como tanto sei do currículo da "assassina", direi que tudo se sabe na rede social.) A propósito, abundam os "figurões culturais" na rede social. Eles propagam tudo, desde a inexistência da família até a inexistência da norma culta na língua portuguesa, tudo parte da deliberada disseminação da idéia de que não há o mal, não há o erro. Cansei-me de labutar sobre e contra tal idéia.
           Então, a conclusão a que se chega é a de que há assassinatos virtuais com a vantagem, para o assassino, de não se providenciarem inquéritos, perícias, exame cadavérico, nada. Até porque este tipo de assassinato é público, e o assassino não se intimida por tão elevado número de testemunhas. Como não há inquérito, não há depoimentos, nem delegados, nem escrivães. As infelizes testemunhas só se prestam a sofrer com a vítima. A vítima ainda respira, mas estará morta por dentro. Tanto é que a vítima da "excelsa cultura" morreu vociferando contra sua algoz, o que considerei um muito bem-feito.
          Voltemos ao drama de minha amada amiga. 
          Não se perpetraria tal crime não fosse a rede social. Até há pouco era necessário ter dinheiro para difamar. Era necessário ter dinheiro para ter opinião. Dizia o Assis Chateubriand: "se quiser ter opinião, compre um jornal." Não um exemplar de jornal, mas uma redação com maquinaria e tudo. Os  inimigos do senhor Chateubriand eram sistematicamente trucidados nas páginas de seus jornais. 
          Hoje não. Hoje há a rede social. Hoje, os idiotas, que antes se sabiam idiotas e se recolhiam à sua insignificância, descobriram sua superioridade numérica e passaram a tudo tomar, tudo invadir. Estão a aspergir suas idéias e veneno como em anúncio de jornal barato. Eis, então, que o idiota – e criminoso! – desafeto de minha amiga passou a difamá-la na rede social. Orientada por bons advogados, ela está a imputar-lhe todos artigos do Código para responsabilizá-lo  por crime. Até lá, segue o idiota em sua sanha difamadora.
          Serve também este causo a confirmar a tese de que os assassinos são sempre os mais íntimos de suas vítimas, aquele que a "amou" um dia, exceção única talvez para o assassinato com platéia e tudo, onde a "exuberante cultura" derramou o "sangue" de sua apenas conhecida virtual. Por ela jamais nutriu sentimento algum, exceto o provável desdém, dos que se julgam gênios, por seres humanos normais. Afinal, o "gênio" é sempre alguém que ouse desafiar todo um cabedal, toda uma evidência, toda uma estrutura, mesmo que seu desafio seja visivelmente estúpido e matize de preto e branco aquilo cujas cores eram justamente seu viço e beleza.