quinta-feira, 8 de março de 2012

Jó, Nabucodonosor e Salomão num homem só

          O homem escreve seu destino por linhas tortas; por vezes tão tortas que começa a pensar que talvez fosse melhor nunca chegar ao tal destino. O dito popular é até ingênuo, a julgar pelos atos e atitudes do homem. Certos comportamentos são tão irresponsáveis, ou tão esdrúxulos, que não há como não se prever o desfecho de certas histórias. 
          Tenta-se acertar, mas ao lado da razão está a emoção e, ao lado de ambas, os mais primitivos instintos. Como subjugá-los?, eis a dúvida acachapante. Mostrou o Dan Ariely por A+B que o homem é tudo menos racional. E, se o homem é, na maior parte de seus dias, um jegue  que sacode o rabo a afugentar de si moscas e mosquitos, não se pode esperar dele destino que preste. Então, conclui-se pela impossibilidade da subjugação daqueles instintos.
          O sujeito gostava de funcionárias do lar. Não vai aqui juízo de valor ou preconceito. Pode-se até gostar de funcionárias do lar, mas eis o grave problema quando se é casado e se tem o hábito de assediá-las ao sacro ambiente do reduto familiar. Era o caso do sujeito. E reincidia. Eram os instintos a lhe fustigar.
          Ao mesmo tempo desconfiava da mulher. Contratou profissional da bisbilhotice para bisbilhotá-la. Pôs escuta telefônica, detetive, o diabo a quatro a vigiá-la. (Sabe-se que o que trai julga que todos traem, e mais ainda seu cônjuge. Projeta-se a si mesmo no outro.) Como era de se esperar, nada encontrou. O sonhado flagrante delito seguia sendo apenas um delírio de marido safado e prevaricador. Foi ouvir a fita cassete e nada encontrou que desabonasse a companheira. E deixou a tal fita lá não sei onde, numa gaveta qualquer do birô. 
          Foi depois de o quê?... talvez um ano ou pouco mais. A mulher, preocupada com a bagunça em casa, queria uma faxina. Pôs tudo abaixo. Foi quando se deparou com aquela estranha fita na gaveta da escrivaninha. Antes de lançá-la ao lixo convinha ouvir-lhe o conteúdo. Não queria jogar fora algo importante. O que ouviu a levou aos prantos e à primeira desilusão: o sujeito namorava, e nem cuidava em ser discreto. Deixou tudo impresso na armadilha que ele próprio armara para desmascarar a mulher, aquela história de o feitiço virar contra o feiticeiro.
          Sem estrutura para suportar a decepção, tomou veneno de barata. Foi parar no hospital. O hálito de Baygon enchia seu choro sofrido e maldizente de si mesma. Foi uma cena patética, que se iniciou dentro de casa, e cujos sons escalaram os muros a incomodar os vizinhos. A vizinha veio em seu socorro tão logo se deu conta de uma possível tragédia na casa ao lado. Felizmente saiu do hospital sem maiores complicações, mas levava um coração dilacerado e ferido de morte.
          Gostava de funcionárias do lar. Suspeita-se que a da fita fosse uma delas, demitida meses antes. Dali em diante, após o cassete traidor, jurara conduta ilibada e fidelidade eterna. A razão assim o queria. Mas o homem é um jegue a ruminar o mato que mastiga e a espantar insetos voadores com a cauda que mais parece um chicote. Os instintos ali estavam, permaneciam, somente aguardando a desmantelar todas as lógicas e sensatezes. 
          Fosse um bicho que pensa resistiria aos impulsos e maus pendores. Tomaria a decisão que a lucidez manda e orienta, a viver em paz e na paz. Mas qual! Não pensa. E, com efeito, bicho não pensa. As inclinações primitivas pesam em demasia para se lhes resistir. Há, por outro lado, toda uma moralidade e uma ética a seguir  e manter. Outra ética não é ética; outra moral não é moral. Inexistem as outras, por assim dizer. Serão coisas de outro tempo ou de outro lugar. Ética e moral só mudam com o tempo e com o lugar. Não se as trocam da noite para o dia, nem indo ali a Sobral. Serão grandes distâncias e ainda maiores tempos a permitir outras. Aqui e agora são estas. E daí?, se o absoluto manda às favas a moral e a ética? O absoluto é o laissez faire,  laissez alle, laissez passer. Ajamos na conta do absoluto!
          Ele estava nos aposentos da funcionária do lar quando a mulher os surpreendeu. Foi caso de demissão sumária. Há quase três anos se engalfinham em seu inferno particular, que promete chegar ao fim nos próximos seis dias. Um juiz de direito o condenou a deixar o lar conjugal pagando a pensão e as custas do processo. Contraíra dívidas astronômicas para embelezar a casa e satisfazer a família. Sai sem dinheiro, sem lugar para morar, e sem os filhos. Lembra Nabucodonosor em sua loucura, Jó em suas desgraças, e Salomão em sua concupiscência. Sai desgraçado, mas ainda de caso com a funcionária demitida em roupas íntimas.