segunda-feira, 5 de março de 2012

Inércia, amém!


            Eu ia escrever sobre minha inércia e desisti. Ato contínuo, voltei a pensar no assunto e reconsiderei a possibilidade de ainda escrever sobre ela. Será que consigo?
            Diz a física que inércia é a tendência de um corpo permanecer como está. Se bem me lembro, ela é o tema central da primeira lei de sir Isaac Newton. Diz lá o seguinte: na ausência de uma força um corpo em repouso permanecerá em repouso, e um corpo em movimento permanecerá em movimento indefinidamente e em velocidade constante. Corrijam-me lá os entendidos se me equivoco. Se não, aí está.
            Antes de ir adiante, não sei se já ouviram falar do parecer. O que é um “parecer”? A definição mais sucinta que encontrei diz que “é uma opinião sobre uma determinada situação que exija conhecimentos técnicos”. Presume-se daí que o parecer médico é uma “opinião” de um médico sobre determinada situação clínica de um paciente. Vi outro dia alguém querer saber a diferença entre um parecer médico e uma consulta médica. Quem respondeu disse o seguinte: “numa consulta médica o profissional avalia, diagnostica, examina e medica, se necessário, o paciente”. E continuou: “o parecer médico é dado quando o paciente precisa da avaliação de um profissional para um caso específico”. 
            Quando se fala em “profissional para um caso específico” evoca-se a idéia de “especialista”. Então, diríamos que o parecer médico é solicitado quando o médico não especialista solicita a avaliação de um especialista em determinada área. O médico não especialista pode ser um especialista em outra área que não aquela para a qual pede o parecer, ou pode ser um médico generalista/clínico geral. O generalista á aquele médico que concluiu o curso de medicina e não cursou nenhuma especialização/pós-graduação, ao passo que o clínico geral é aquele que tem Residência Médica em Clínica Médica ou Clínica Geral.
            Outro dia escrevi sobre “o clínico”. Dizia que ele é “o médico”, porquanto seus conhecimentos abarcam todos os ramos da medicina numa profundidade de Fossas Marianas. O clínico que é clínico dá o diagnóstico de qualquer especialidade e referencia o paciente apenas e tão-somente para o tratamento com o especialista. O clínico que é clínico funciona de padre, psicólogo, confidente, conselheiro, pastor, ouvinte, e tudo o mais que um ser humano resignado e sábio possa oferecer a seu igual. “O clínico” dá tanta atenção a seu paciente que gasta muito de seu tempo com ele, sendo-lhe literalmente impossível acumular pacientes na sala de espera.
            É bem conhecido o episódio envolvendo o grande médico desta terra, doutor George Magalhães, que se autodiagnosticou como portador de apendicite aguda. Ligou, então, para o cirurgião de sua confiança e disse-lhe: -“Fulano, me encontra no hospital daqui a meia hora que eu estou com apendicite aguda e você vai me operar!”
            Não tarda e levantar-se-ão de seus buracos - eu ia dizer trincheiras - os idiotas da objetividade, como diria Nelson Rodrigues, a argumentar que hoje não é mais possível ser médico assim, que o corre-corre do médico não lhe permite dedicar tanto tempo a seu paciente, que o modelo de nosso sistema de saúde corrompeu o exercício, que o médico é vítima do sistema, et cetera e tal. Bem se vê que não lhes seria mesmo possível usar as trincheiras - nelas estão soldados a lutar.
            De tanto falar não vou ao ponto. O que quero dizer é que se criou, e cada vez mais se hipertrofia, a cultura do “parecer” no meio médico, mormente em grandes hospitais públicos. Funciona assim. Como o médico não mais examina seu paciente, põe outro a examiná-lo utilizando-se do pedido de “parecer”. Ora, ser especialista em traumatologia não implica em abrir mão do exame da circulação do membro de paciente vítima de trauma sobre aquele membro. A recíproca é absolutamente verdadeira - o cirurgião vascular deve examinar ossos e articulações em pacientes vítimas de trauma sobre membros, bem como solicitar os respectivos exames radiológicos se julgar necessário. Caso encontre fratura e/ou problemas articulares lançará mão do parecer do traumatologista, que encaminhará a vítima ao tratamento adequado.  O que se faz hoje? Chama-se o traumatologista para examinar o paciente quanto à existência de problemas ósteo-articulares. Pergunto: o especialista desaprende o que aprendeu sobre as áreas nas quais não é especialista?
            Cada vez mais ganha terreno a anedota que define o que seja o especialista e o que seja o generalista: o especialista é aquele que sabe quase tudo de quase nada; o especialista é o que sabe nada de quase tudo. Observem que a anedota nem leva em conta a existência de “o clínico”. Pressupõe sua completa extinção. Daqui a 65 milhões de anos serão lembrados como hoje se faz com os dinossauros.
            E minha inércia? Não há perigo de esquecê-la. O sujeito que se incomoda, que não se conforma com o engano e o erro, que não se adapta aos maus modos ainda nunca ficará inerte. É um neurótico de carteirinha. Amém.