quinta-feira, 15 de março de 2012

Obstinada obsessão

          Encontrei ali ao calçadão o Saldanha. 
          Como de praxe, foi logo dizendo: -"Trabalho muito!" E passou a enumerar as últimas mudanças na vida. 
          Casara e comprara uma nova casa em bairro distante. De fato, era  a imagem encarnada e esculpida do homem casado – engordara além da conta, com direito a um desses ventres rotundos e esféricos. As faces se cobriam de bochechas. Com efeito, o Saldanha não era o Saldanha – era uma rechonchuda bochecha encimando uma voluptuosa barriga.
          Não pude me conter. Disse-lhe: -"Engordaste, rapaz!" Ele justificou o desleixo: -"Trabalho demais!" Cheguei a pensar que nem dormia. 
          Quis minimizar: -"Cinco quilos!" Cinco quilos eram somente as bochechas. Cinco quilos a mais com aquelas bochechas e o ventre descomunal seria um eufemismo nutricional e culinário. 
          E queria deixar claro: -"Tenho trabalhado muito!"
          Ora, desde que fomos apresentados, desde a primeira vez em que conversamos após o aperto de mãos, ele sempre fez caso a deixar evidente sua dedicação ao trabalho. Dizia, numa dessas confissões laxativas e catárticas: -"Levanto às cinco e trabalho até a noite!"
          Eu, que sou um preguiçoso de marca maior, sentia, desde então e ao encontrá-lo,  uma espécie de humilhação nauseante. Ontem tinha tudo para não ser diferente. Todo esse tempo sem o ver me levara a esquecer esse vertiginoso sintoma. Se ele volta a circular por perto é sinal de que me seria mais sensato andar com os bolsos entupidos de metoclopramida, conhecido anti-hemético. 
          Para minha sorte não se permitiu ficar por mais que cinco minutos. Dentro em pouco veio encontrá-lo a filha, e partiram. E, vejam, em pouco menos de cinco minutos o homem garantiu por três vezes: -"Trabalho que nem um burro de carga!"
          Contudo, – curioso –, nada senti dessa vez. Sua apologia à labuta penitente em nada me impactou. Com efeito, saí a me rir daquela figura  e de sua duvidosa autenticidade. Alguém dirá que ele é enfático, e direi que não, que é, na verdade, repetitivo. Diria até que o repetitivo é tudo menos enfático. 
          O repetitivo é, antes de mais nada, um chato de galocha. Não sei se já ouviram aquelas "orações" de frase única em que um indivíduo a declama, inicialmente, para em seguida um coro de um sem-número de pessoas repetir. E isso inúmeras vezes, horas a fio. Se imaginarmos que haja um santo a ouvi-la no além, e se presumirmos que o santo é um elevado ser com ocupações sérias e inadiáveis, não se irritará o santo com aquela lengalenga interminável? Eu, um reles e entediado mortal, me irritaria a não mais poder. Seria uma tortura maior e mais cruel do que a de qualquer objeto medieval apropriado a esse fim. Além disso, a repetição obstinada de uma frase ou de um dizer por parte de alguém levanta a suspeita de que esse alguém não tem lá muita fé no que diz nem em quem ouve. Seria uma espécie de zombaria com o suposto ouvinte, posto que duvide de sua existência. 
          E o caso do Saldanha? Ele não acredita qu'eu nele acredite quando diz que muito trabalha? É precisamente isso o que penso : o amigo duvida de mim. E – pior! – duvida que alguém acredite, já que não é somente a mim que tortura. Ou isso ou ele duvida de si mesmo. Duvida que trabalhe tanto quanto alardeia. Talvez durma até o meio-dia e sonhe que já desde as cinco esteja acordado. Será que o homem está a tomar ácido?