sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O dia da vaca

          Foi no tempo em que servia o exército. Tinha lá seus vinte e oito e era o médico oficial de dia. O soldado enfermeiro foi ao quarto chamá-lo. Alguém esperava ao telefone, numa ligação interurbana. Ergueu-se num salto, vestiu a camisa e seguiu para a Emergência. 
          Era uma mulher, uma voz macia. Queria saber de alguém, um oficial médico recém-transferido, vindo de Belém do Pará. Foi taxativo: - conhecia todos os oficiais médicos na guarnição e podia jurar que o fulano não estava entre eles.
          Pareceu-lhe a voz de uma moça, uma jovem. Apostava: - havia de ser uma beldade. De fato, nem imaginava como seria aquela mulher que ligara procurando um determinado militar supostamente recém-chegado à cidade. Tinha pressa de encerrar a conversa. O cansaço o abatia.
          Ela, porém, era persuasiva, um circunlóquio danado. Fazia perguntas. Já nem parecia querer saber do tal homem. A voz era bonita, penetrante, sensual. Agora já queria saber de seu interlocutor. Perguntava de sua profissão, de seu trabalho no hospital, e até de sua vida pessoal. Ele, pelo sim pelo não, omitiu seu deplorável estado civil: - era casado. O comportamento recalcitrante tornara-se um hábito. 
          Tentou alertá-la: - a ligação lhe sairia cara. Já estavam a prosear há quase uma hora. Ela o tranqüilizou: - dinheiro não era problema. Meia hora depois despediram-se com a garantia de que voltariam a falar no dia seguinte.
Ele tinha aquela dificuldade de dormir em plantões. Ficou, então, a lucubrar sobre a jovem que acabara de conhecer ao telefone. Falara pouco de si, o que acabou por açular-lhe a imaginação. Por sua vez, deliciava-se em conjeturar. Imaginava como seria a boca de onde saía aquela voz, a linda voz. Dir-se-ia ser a voz uma janela aberta para o infinito…
  Ao dia seguinte, na enfermaria, vieram chamar-lhe para atender uma ligação. Era ela. Como ao dia anterior, a conversa se arrastou. Começava a  achar que a moça era sócia da companhia telefônica.
          Com efeito, e para não faltar com a verdade, passaram a falar diariamente. De tanto confabularem, ele acabou abrindo-lhe o coração e admitindo: - o casamento não ia bem. A jovem não pareceu se importar com esse novo dado e, de fato, tornaram-se íntimos, cúmplices. 
          As confabulações e chamadas diárias acabaram expondo os fatos. Houve, então, uma unanimidade: - ele estava apaixonado. E arriscavam: - ela também estaria. Cá entre nós: - ele estava, de fato, apaixonadíssimo. Caído de quatro. Lambia o chão de tão enlevado. A coisa já durava meses. Fazia planos para um congresso fictício a fim de conhecê-la pessoalmente. A mulher era uma fera e ele não podia dar moleza. Se ela o flagrasse pulando a cerca seria seu fim. O congresso de mentirinha já se desenhava em sua imaginação. Tudo o que precisava era de um “estímulo” a mais. 
Certo dia, a pequena contou-lhe a novidade: - resolvera enviar-lhe fotos. Já deviam estar chegando, disse. Ficasse tranqüilo, as enviara para o hospital. Não queria causar-lhe problemas.
Dali a poucos dias o estafeta vem entregar a correspondência do setor. Nervoso, o tenente esmiuçava o pacote. De lá sacou um gordo envelope endereçado a ele. A letra bem desenhada só podia ser a de uma linda mulher. Abriu-o frenético. A fotografia não deixava dúvidas: - era belíssima. Como uma vênus. Saiu pelos corredores e salas; queria que todos a vissem. Os que antes lhe caçoavam admitiam: - é uma maravilha! E emendavam: -“Tens de ir ter com ela o mais rápido possível!” Era o estímulo que faltava.
O diabo é que, dias depois, brigaram. Discutiram ferozmente sobre qualquer coisa e desmancharam o namoro. Ela lhe bateu o telefone na cara, aos prantos. Ele permaneceu amuado alguns dias. Encontrou conforto no ombro de uma amiga, que lhe aconselhou mandar flores. A beldade não resistiu: - quando recebeu o presente, uma corbeille de flores vermelhas, bateu-lhe o telefone cheia de dengos e declarações de amor eterno. Foi uma reconciliação estrondosa, sem dúvida. Restava a cartada final: - a ida ao seu encontro. 
 Para falar a verdade, a paixão era menor que o medo. Hesitava. Procrastinava o “congresso”. Temia comprar a passagem e se ver impossibilitado de voltar atrás. As coxas roliças, a cintura esguia e o belo rosto da deusa nada eram ante o pavor. Esperava. Esperaria. Deixar-se-ia ficar até... sabe-se lá. 
            De tanto esperar, certo dia chamam-lhe ao telefone. Era a beldade. Instigou: -"Te dou um doce se adivinhares onde estou"... O mancebo quase tem um troço. Ela estava num quarto de hotel da cidade, esperando que ele viesse encontrá-la tão logo acabasse o expediente. Bom demais pra ser verdade!, pensou ele. "E sem gastar um tostão"! Era a avareza a se manifestar, um traço familiar incoercível. 
          Faltavam quinze minutos para o final do expediente. As mãos suavam, as canelas tremiam, o coração subia à boca. Precisava se controlar. Ia dirigir o carro. Não seria prudente tanta excitação ao volante. Mas... que diabos! Estava feliz que nem um moleque ao ganhar a primeira bola de futebol. 
       Meia hora depois adentrava a recepção do hotel. “O apartamento tal é ali, assim, assim...”, ensinou o recepcionista. Ele enveredou por um labirinto de corredores. O edifício fora construído de modo a que as portas dos apartamentos se escondessem em recuos, longe do passadiço. 
          Defronte ao número 110, bateu. Sem demora abriu-se a porta. Diante dele estava uma mulher. Polidamente disse: -"A senhora poderia chamar a fulana"? A mulher respondeu: -"Sou eu"..., e atirou-se em seus braços. Por um ato reflexo ele a conteve, não sem algum esforço. Queria, insistentemente, abraçá-lo e, talvez, beijá-lo. Poucos segundos se passaram nessa "luta". Súbito, ela parecia resignar-se e desistir de abraçá-lo. Ele, então, pôde vê-la melhor.
          Era uma mulher dolorosamente feia. Bem mais velha, era desleixada no vestir e exalava um odor de perfume barato. Devia ter seu metro e cinqüenta. Ele, em sua farda militar melindrosamente alva e elegante, empurrou-a para o lado e adentrou o quarto, temendo ser visto naquela situação. Era tanta a sua decepção que veio sentar-se ao chão. 
          Meneava a cabeça e perguntava de si para si: -"Como fui cair nessa furada"?... Ela agora lhe pedia perdão. Obviamente ela não era a linda jovem das fotografias. Quem é?, quis saber. Uma sobrinha, uma linda e apetitosa sobrinha... Ele já nem sentia a presença da mulher. Pensava em voz alta, e dizia: -"É uma mentirosa... uma mentirosa... Como pude acreditar?...", e meneava a cabeça, desolado. Ela, por sua vez, puxava-lhe pela mão e insistia em que ele se erguesse para beijá-lo. Argumentava que ele deveria amá-la pelo que ela era e não por sua aparência.
          De um salto e num supetão ele ergueu-se e a repeliu. Num único movimento chegou à porta e deslizou para a saída do hotel como um relâmpago, deixando a mulher a falar sozinha.
No hospital, ao dia seguinte, não se conteve: - relatou a todos o fatídico episódio em seus mais sórdidos detalhes, enquanto demonstrava sua imensa contrariedade. O resultado é que dali a poucos dias ele mesmo se ria da arapuca onde se enfiara. E dizia: -"Não se pode ser touro todo dia. Ontem eu fui a vaca".

Fernando Cavalcanti, 05.08.2009