sexta-feira, 7 de março de 2014

Luto

​           A morte do Colégio Cearense Sagrado Coração representa a derrota do ensino holístico formador de cidadãos ante o ensino compartimentalizado e moldador de seres cibernéticos e desprovidos de moral, religião e arte. 
          Muito se especula sobre as causas da evasão de alunos do Marista Cearense, que hoje teria apenas cerca de 10% do número de alunos que tinha nos anos '70. Confesso que não me aventuro a entrar nesta discussão pelo simples fato de que ela já está desprovida de sentido: - o defunto já é velado e decretada foi a sua morte para o dia 31 de dezembro do corrente. Já se vão 28 anos de formatura de minha turma, e de lá para cá muitas coisas aconteceram. Contudo, fico imaginando qual a importância disso tudo. A constatação inegável é a do completo e total desprovimento de tradição e valores de nossa sociedade. Como aconteceu com a morte da Praia de Iracema nesta decadente cidade, a morte do Colégio Cearense é culpa de todos nós, desde nossos pais até nossa comunidade "educativa", passando por nós, seus saudosos alunos. Todos somos culpados.
          ​Se não perceberam ainda, convoco-vos a uma reflexão, um mea culpa: - não cultivamos e regamos no dia-a-dia de nossas vidas nossas verdadeiras tradições e instituições seculares. E sabem por quê? Porque não temos princípios. Em que pese o fato inconteste da queda do prestígio católico em nossa sociedade, estudar em instituição que ensina princípios leva seus alunos a, no mínimo, questionarem com inteligência e liberdade de pensamento os princípios em si ensinados e as conseqüências do desvio de seu caminho. Não importa a religião, elas ensinam princípios morais e virtudes de valor inestimável. Nenhuma religião ensina a matar, roubar, transigir, desrespeitar, desonrar, maltratar. Então, mesmo e até os católicos, para aqueles que lhes têm restrições, ensinam que existem os princípios. William J. Bennet os listou, referindo-se às virtudes: disciplina, compaixão, responsabilidade, amizade, trabalho, coragem, perseverança, honestidade, lealdade e fé. Stephen R. Convey também os enumerou: integridade, humildade, fidelidade, persistência, coragem, justiça, paciência, diligência, modéstia, e - a regra de ouro - fazer aos outros o que desejamos que nos façam. As escolas de hoje estão falando sobre isso com seus alunos? Os professores estão falando com seus discípulos sobre os princípios? Estamos punindo as crianças quando elas os ferem? Os pais estão cumprindo seu papel de educadores? A Justiça constituída no Poder Judiciário está fazendo justiça? Para todas essas perguntas a resposta é, talvez, um doloroso não. Educar crianças prevê punir. Só o medo da punição que gera vergonha é capaz de coibir o comportamento inadequado. Só a imposição e o estabelecimento dos limites aliados ao ensino e exemplo dos princípios constroem o caráter de um ser humano. A verdade é que o país soçobra num mar de desvãos e loucuras, perversão e insensatez. Como podem os pais dizer aos filhos que não é certo tirar o que é dos outros quando impera a impunidade para os que o fazem?
          ​Sejamos honestos: somos um poço de paixões e desvarios. O coração do homem abriga a energia destrutiva de todas as bombas atômicas do mundo. Na formação de seu caráter são criadas as pilhas que regulam a massa de nêutrons que bombardeiam os núcleos dos átomos de seu desvario. Sem elas... Bum! E apareceram os "educadores modernos" e o "estatuto da criança e do adolescente" em substituição às escolas maristas. Os bandidos e facínoras se abancaram no poder. Encheram de mentira, soberba, desonra e crueldade as instituições e as cortes. Fizeram prevalecer o ódio, a derrama, a condescendência, a tolerância com o crime e os vícios. Fizeram a todos acreditar que o poder e o dinheiro são fins em si mesmo. Pela gana do dinheiro vendem-se nossas filhas em nossas ruas para estrangeiros que nos desprezam e nos zombam. Pelo gana do poder prosperaram as escolas que vendem a idéia do sucesso fora da família e dos princípios morais. E mantêm-se os incautos e insensatos no assistencialismo de um Estado débil, inútil e ditador. E ninguém – repito: ninguém! – sabe para onde estamos indo. Somos uma súcia de porcos gordos e fedorentos no rumo do cutelo. Abdicamos de pensar e escolhemos a embriaguez eterna da supressão dos princípios. Não temos idéia do que nos tornamos.
​          Afirmo peremptoriamente que não sou católico. Mas sou Marista. De Maria, a mãe de Jesus. E já nem sei se creio, mas sou de Maria, mãe de Jesus. O que quer que faça, aonde quer que vá, carrego imprimido na alma o "M" do logotipo cuja força não estava no demonstrativo do resultado, mas na fornalha que molda homens. A sociedade local, nós, nossos pais, deixamos escapar ao longo de todos esses anos o repositório de nossas esperanças de um país melhor. O que nos resta a não ser reconhecer nossa insensatez, mais uma? O que nos resta a não ser as elucubrações dos porquês, cujas respostas já sabemos no íntimo? Resta-nos a vergonha; a frustração; a sensação de impotência e derrota. Rogo apenas - que nojo de mim! - que não se implodam os edifícios, as fachadas, a capela com a luz vermelha acesa 24 horas anunciando a presença de Deus; que não se reformem os auditórios e salas com suas madeiras de lei; que não se apaguem os traços e cheiros do Irmão Urbano, do Irmão Ovídio, do Irmão Luís, do Irmão Valentim, do Abrahão, tocador do acordeom e da vitrola do recreio; dos professores queridos, Eliane, Eglacine, Cassundé, Nair, Maria de Lourdes, Romélia (que me ensinou a ler), Iêda, Lúcio, Lucas, Flamarion, Nemésio, Fausto, Wilton, Leonardo, Dioguinho, Onélio Porto, Genésio, Walter, Alzir Brilhante, Waldir Sombra, Itamar, e tantos outros; que não soterrem as fontes de água mineral com gás nos bebedouros; que não se triturem os azulejos e pastilhas das paredes azuis e cor-de-rosa; que não se arranquem os postes com as bolas penduradas nas cordas; e que nós ainda guardemos os boletins e agendas com as repreensões do dia. Já muitos de nós se foram. Já muito de nós tiraram. A vida é especialista em nos fazer órfãos. Todos os dias morremos e morre o que amamos. Mas não precisamos contribuir para isso. Não morram os edifícios. Já o burburinho das crianças no recreio silencia. E os pátios estão desertos.
          ​Não posso evitar a lágrima que me desce a face...

Fernando Cavalcanti, 22.09.2007