sexta-feira, 7 de março de 2014

Uma questão de princípios

            IRRETOCÁVEL é o pior adjetivo que se pode usar para qualificar o texto de 27/02/2014 do jornalista Fábio Campos no jornal O Povo. Intitulado “A Era da Tolerância” (http://www.opovo.com.br/app/colunas/fabiocampos/2014/02/27/noticiasfabiocampos,3213139/a-era-da-tolerancia.shtml), o referido texto, em rápidas e incisivas pinceladas, descreve o caótico estado em que se encontra a capital do estado do Ceará. De um lado o cidadão comum que desobedece às leis e regras mais elementares da boa convivência urbana, do outro o poder público inoperante, leniente e incompetente em sua função elementar de fazer valer e cumprir aquelas. O resultado inevitável é o caos absoluto.
           Implícita está, no artigo de Fábio Campos, a razão para tal estado de coisas. De fato, a razão não está tão implícita assim. Diz ele que o poder público justifica sua inação, por exemplo, e no que tange à questão da ocupação dos espaços públicos por negócios particulares, porque “não vai tirar o ‘ganha pão’ dos ‘pais de família’ que exploram o comércio na via pública”. Essa concepção traduz bem nossa entranha falso-esquerdista e/ou a inclinação de nossos políticos em não tomar medidas consideradas impopulares, ainda que exigidas por lei. Essa propensão de todo político, qualquer que seja o partido ao qual é afiliado, obedece à risca seu perene projeto de eterna permanência no poder ou, em outras palavras, sua reeleição. Assim, suprime-se o projeto da cidade a bem do projeto pessoal. (Outro dia, o diretor clínico do Hospital Geral de Fortaleza, lá posto a serviço não do povo mas dos políticos que ora dominam o Estado, disse, em reunião com servidores daquele hospital em alto e bom som, e após a interpelação por parte de um deles que questionava a legitimidade de não servidores em postos de chefia: -"Estamos no Brasil; e no Brasil tudo é possível"... Quem quiser entender que entenda. Quem não quiser, paciência. Ao ouvir o relato da reunião por parte de uma amiga, fui obrigado a dizer: -"Triste e melancólica verdade... No Brasil tudo é possível".)
               O artigo do Fábio Campos diz mais que tudo. Diz o que a esmagadora maioria de nossos venais jornalistas não diz. A esmagadora maioria de nossos jornalistas ou faz apologia a nosso estúpido esquerdismo ou faz apologia à mais cristalina superficialidade de nossa "high society". Mas, chega do querido e admirável Campos. 
          Ou talvez não, não chega. O que me impressiona é a presença de um jornalista de sua estirpe em mídia tão populista quanto aquela na qual escreve. Pergunto-me por que ele lá está, e sou tentado a raciocinar segundo o mais conhecido personagem de Sir Arthur Connan Doyle, Sherlock Holmes:  - se uma hipótese parece absurda mas tudo explica, ela deve ser a verdade. Trocando em miúdos, o Fábio Campos lá está a bem das vendas ao dizer o óbvio. Ele e o senhor Plínio Bortolotti fazem a chamada "dupla de área" desse time APARENTEMENTE controvertido, por exemplo. A outra hipótese, na qual prefiro acreditar e batendo de frente no ensinamento de Holmes, é que ambos sejam completamente independentes e seus editores meros "copy desk". Isto provado, teríamos a grande e inusitada chance de ver, no pobre jornalismo local, o embate entre a lucidez e o obscurantismo; entre o óbvio e o brumoso; entre a inteligência pura e o maldoso interesse...
          Mas, não entremos a ensaiar algo semelhante a um rasteiro maniqueísmo. A bem da verdade, todos precisamos nos posicionar. Quem não está de um lado, está do outro. Parece-me isso de uma retumbante clareza. E disso não há que se envergonhar ou se encher de falsos pudores. Eu, que escrevo o que me dá na telha como os senhores podem ver acima, ponho a cara a tapa e às ácidas críticas. Diz o adágio que quem diz o que quer, ouve o que não quer. Pois posso garantir: - estou de ouvidos prontos para ouvir o que outrora não gostaria. Hoje não mais me importo e ouço as maiores asneiras da paróquia sem a mínima alteração em minha frequência cardíaca. Por exemplo...
          Meus parcos leitores e muitos amigos sabem de minhas severas reservas às redes sociais. Elas são a forma mais moderna e cristalina de desumanização, embora haja quem julgue justamente o oposto. Pois sucedeu-me hoje o seguinte.
          Faço parte de um grupo da rede social que reúne ex-alunos maristas. Estudei a minha vida inteira no Colégio Cearense Sagrado Coração, da congregação marista fundada pelo presbítero da Sociedade de Maria Marcellin Champagnat. Era, por assim dizer, minha segunda casa e, mais que uma segunda casa, meu segundo lar. Ao postar um texto em meu blog, publico seu link na rede social, precisamente nos grupos dos quais participo, entre eles o referido grupo.
          Eis que hoje, ao abrir minha página na rede, percebo que uma para mim desconhecida senhora está a me lançar questionamentos insistentes e, devo dizer, a reclamar com veemência do conteúdo de meus textos na página dos ex-alunos maristas. Segundo ela, eles eram "politicalha" e eu um político em busca de votos. Eu estaria desviando o propósito do grupo, qual seja, o de falar somente sobre assuntos relacionados ao colégio marista. Tudo isso porque ela lera os mais recentes textos publicados que, para sua tristeza e exaspero, versavam sobre temas políticos.
          Ora, sou político apenas no sentido aristotélico do termo. Nem a partido político sou filiado. Acho, a propósito, todos os nossos partidos políticos destituídos de representatividade e essência. Seus interesses são escusos já na hora de sua fundação. Nunca me passou nem de perto pela cabeça – sou um sujeito de juízo e de princípios – engrossar fileira nessas entidades de fachada. 
          A coisa não ficou por aí. Ela me acusou levianamente de escrever textos tendenciosos e insistia em querer saber se eu tinha mesmo coragem de falar mal do governador do estado do Ceará e do prefeito de Fortaleza, ambos filiados ao mesmo partido. Não me dei o trabalho de respondê-la. O que escrevi, escrevi. Está lá. Basta ler. A resposta à sua insistente pergunta está clara feito água potável, em meus textos. 
          Agora vejam os senhores leitores. Meus textos são, sim, tendenciosos. Tendo pelo Criador, pelo ser  humano, pela liberdade, pela justiça, pelo bem, pelo bom, e pelo mérito. Como ser imparcial numa vida de perenes e incessantes escolhas? O que esta desconhecida senhora esperava de mim? Ademais, vejam bem, o Colégio Marista Cearense hoje pertence a um passado de glórias, tendo existência somente em nossas ternas lembranças e em nossos corações despedaçados. Por que temas pertinentes à dura e difícil realidade brasileira aos dia de hoje destoariam do propósito de um grupo de ex-alunos na rede social? Nós, que fomos educados nos pilares princípios, precisamos debater e expor o que ocorre hoje em nosso pobre país. Porém, não foi essa a visão desta desconhecida senhora. Há que se respeitar. 
          Diante de tamanha celeuma, escolhi retirar todos os textos recentemente publicados naquela página a fim de não ferir opiniões contrárias nem inflamar egos sensíveis. E mais. A referida senhora acusou-me de me recusar a receber críticas diretamente no blog, posto que eu selecionasse somente os comentários favoráveis, segundo ela. Que fiz? Liberei o blog para receber comentários sem minha prévia avaliação. E assim julgo que acalmo ânimo tão exaltado. 
          Faço, entretanto, uma ressalva e repito: - o que está escrito no blog lá permanece sem a alteração de uma só vírgula. Os textos seguem, como este, sendo publicados em outros grupos e em minha própria página. A liberdade de expressão merece ser respeitada e, no que compete a mim, farei a minha parte, alterando posturas e condutas quando necessário, mas nunca os princípios. Estes permanecerão imutáveis. Como deve ser.