domingo, 9 de março de 2014

Ruminem, senhores, ruminem!...

          Sou um ruminante. Pareço uma vaca no pasto. Os porquês me incitam a essa ruminação. Não há, ao contrário do que alguns possam pensar, nada de emocional em minha ruminação. A ruminação, sensu lato, faz parte, pura e simplesmente, do processo digestório. A minha não; a minha ruminação é uma figura de linguagem, posto que é no campo das idéias e do pensamento que rumino. Por isso disse antes que ela nada tem de emocional.
         Por exemplo, no texto de ontem relatei a questiúncula de que fui involuntária vítima. Vejam que somente a respiração já é, ela própria, ato que vulnerabiliza o pobre ser. Ela, sozinha, pode suscitar não sei quais incômodos em semelhantes próximos e redundar em litígios onerosos e muitas vezes desnecessários. Tudo ocorreu na rede social, como os queridos e raros leitores hão de ter visto. Não entrarei a repetir os detalhes(http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2014/03/uma-questao-de-principios.html).
          Incomodei certa senhora, com meus textos, ao ponto do exaspero. Sua insistência era justamente o tamanho de seu incômodo. Diria mais. Diria que ela se mostrava indignada. A certa altura ela escreveu que minha fotografia vista repetidas vezes na página dos ex-alunos maristas chegava a incomodar. Para ela, eu seria um político em busca de votos. E tudo porque fiz duras críticas ao governador do estado.
          Ora, duas conclusões são possíveis: - primeiro, sou um sujeito feio, muito feio, pra lá de feio; segundo, ela é parente do governador. Não a "acusarei" do que ela me acusou, de ser um político de oposição. Vejam que, mesmo que eu fosse um atuante político de partido, nada disso seria ilegal ou imoral. Ser político não é imoral, em tese. Contudo, no Brasil, como os políticos são frequentemente flagrados em atos ilícitos e/ou imorais, o sujeito ao xingar o outro pode muito bem dizer: -"Seu... Seu... Seu político"!
          Ela dizia achar inapropriado o conteúdo dos textos naquela página. Talvez tivesse razão. Mas traiu-se ao enveredar para o confronto de idéias sobre o conteúdo em si. Ao final, ficou claro que era justamente o conteúdo político que a incomodava. Eu dizia coisas com as quais ela não concordava. Como desculpa, veio com a lengalenga da impropriedade.
          Discordar é normal e lícito. Mas, no Brasil, poucos sabem discordar e ainda menos gente sabe voltar pra casa com uma discordância na pasta. Tenho uma penca de amigos e conhecidos que discordam de mim e nem por isso vamos às vias de fato. Talvez o problema seja exatamente esse: - são amigos e conhecidos.
          Não conheço esta senhora e ela, por sua vez, não me conhece. Já que não nos conhecemos, a melhor maneira de discordar de um desconhecido, no "ambiente" da rede social, é escrever textos discordando de textos dos quais discordamos. (Essa esmagadora obviedade só poderia resultar numa frase como esta.) A coisa fica no plano das idéias e ninguém se verá ofendido. Afinal, critiquei o poder público com argumentos e fatos evidenciáveis, bem como usando de lucubrações pertinentes dentro do raciocínio lógico e silogístico. Não foram críticas levianas, por gratuita antipatia. (Dirá alguém que nem todos têm habilidade para escrever aquilo que melhor dizem com palavras faladas.) Morro de ver e ler coisas com as quais discordo na famigerada e inconveniente rede social e nem por isso saio feito um louco a querer apresentar meu contraditório. Cada um pensa o que quiser e faz o que quiser nos limites da moral e da lei. É preciso saber vez o monstro da insensatez e da estupidez e não se amedrontar. Ele não morde nem fere aos que são sensatos, como parece bem óbvio.
          Confesso: - escrevi "em off" para a referida senhora desculpando-me por qualquer inconveniente causado. Disse-lhe que não era bom que irmãos maristas se pegassem por pouquíssima coisa. Ainda aguardo uma conciliadora resposta, mas não perco o sono. Em que pese a ruminação que, por sinal, foi a inspiração para o presente texto, sua "atividade" não interferiu com a excreção liberal de minhas endorfinas. Para falar a verdade, embora faça parte de um processo digestório, ruminações funcionam sobretudo como catarse mental. Sendo assim, ruminem, senhores, ruminem!...