sábado, 22 de março de 2014

Vou xingar o Fábio Motta

               Ontem encontrei, nos corredores do hospital, o meu querido amigo Erivan "Feio À" Bessa, do tempo dos bancos universitários. (Seu nome é Erivan Bessa, mas impossível é esquecer-lhe as "virtudes" estéticas.) Ora, o meu amigo é autor do apelido que constará de meu epitáfio: - "Fernando da Gata".
               Não sei se os amigos conhecem o contexto em que surgiu o "Fernando da Gata" e, por isso mesmo, farei um résumé. Foi o seguinte.
               Corria o ano de 1982. Xuxa Meneghel era a rainha dos baixinhos e dos altinhos, uma mulher linda e desejada, o exemplar mais fiel do padrão de beleza feminina. O Bessa, loiro, branco, de olhos verdes e, contrariando a noção preconceituosa de que todo loiro branco de verdes olhos é bonito, é, com efeito, mais feio do que o Zé Bonitinho. Eu, matutando uma forma de afugentar o tédio por conta de uma aula de Patologia ministrada por um professor competente e honesto – dava sempre as duas horas ininterruptas de aula –, olhei em volta e, invocando o meu amigo, chamei-o em voz alta: -"Xuxa"! Toda a turma veio abaixo numa pilhéria incontrolável. Até o professor saiu a gargalhar-se. 
               Ele, bicho-do-mato das bandas do interior, desses que metem facilmente uma faca no bucho de desafetos e gozadores, passou alguns dias amuado e ensimesmado, talvez pensando em como me armar uma emboscada definitiva e fatal. Ocorre que o crime de morte por pouca coisa era, àquela época, punível exemplarmente e diferentemente de hoje. Para piorar a história, fugia da polícia, após escapada espetacular de uma penitenciária no Sul, o criminoso cearense alcunhado de "Fernando da Gata". Ladrão, assassino confesso, estuprador, Fernando da Gata corria solto pelas Minas Gerais, a polícia em seu encalço. Os jornais locais, talvez ávidos pela até então bem sucedida fuga de nosso conterrâneo mais famoso daquele tempo, estampavam quase que diariamente manchetes que davam conta da perseguição a criminoso tão simpático. 
               O Bessa, em sua lucubração de frustrado, facilmente achou sua vingança contra minha presepada. Na sala, depois de uma semana, a mesma Patologia maçante, um sábado ensolarado e aerado, lá pelas onze e meia – a aula terminava ao meio-dia –, ele ergueu-se e, apontando o dedão para mim, fuzilou sem chance de defesa: -"Fernando da Gata"! A zorra foi geral, pior que ao anúncio do "Xuxa". O resultado foi que o apelido apegou-se a mim como marca de boi de fazenda... 
               Pois ontem, ao vê-lo no corredor, chamei-o a dois dedos de prosa. Perguntou-me sobre a motocicleta. Motociclista recente, desfez-se de sua máquina após um susto que, segundo ele, o fez repensar o veículo. De fato, continua motociclista, uma dessas lambretinhas econômicas e úteis. O susto teria ocorrido ao pilotar uma motocicleta maior. Resolveu que sua experiência sobre duas rodas deveria primeiramente crescer no uso da lembreta para, em seguida, voltar a pilotar estrutura mais robusta. Dali a pouco nos despedimos, não sem antes recordarmos o tempo do "Xuxa" e do "Fernando da Gata". 
               Desço e encontro o Rogério Cruz Saraiva, cirurgião pediátrico de primeira estirpe. Colega dos tempos da Residência em Cirurgia Geral, Saraiva exibe um nariz que o credenciaria a atuar no teatro de Edmond Rostand representando, no papel principal, a universalmente conhecida Cyrano de Bergerac. Tão vistoso é o nariz do Saraiva que, já nos tempos da Residência Médica nosso ilustríssimo chefe, Dr. João Evangelista Bezerra Filho, atalhou tão logo o viu: -"Nunca poderia jogar futebol na posição de centro-avante"... Eu, não alcançando a mordacidade do pensamento do chefe, quis saber: -"Por quê, Dr. João"? E ele respondeu piscando ferozmente os olhos enquanto os mantinha quase fechados, num sinal inequívoco da galhofa que diria a seguir: -"Porque estaria sempre em off-side"!... Pela bilionésima vez relatei a história ao próprio Rogério como se, ao relembrá-la mais uma vez, voltássemos o tempo à nossa verdura dos anos para cheirar-lhe o agradável odor.
               Por falar em verdura dos anos, eis que amanhã faz aniversário o meu amado amigo Fábio de Oliveira Motta. O encontro com o Bessa e o Saraiva me levou a revisitar causos cômicos de nossas vidas. A aproximação da data de comemoração do natalício do Fábio Motta, ao contrário, me leva a confessar: - estou a sentir uma ponta de apreensão. Os leitores, cada vez mais raros, quererão saber a razão e direi que é o próprio Motta o responsável por despertar este sentimento em seus amigos mais chegados. A razão é que, nos últimos dois anos, Fábio Motta aderiu ao mais novo esporte de alguns aniversariantes de meia idade, qual seja, esconder-se no dia de seu natalício. A ninguém quer ver, nem receber, nem atender... Isola-se, sabe-se lá onde, desliga o telefone portátil e estamos conversados. 
          Ano passado perdi um enorme tempo tentando estabelecer um fraterno e alegre contato com o amigo, a fim de dizer-lhe do meu bem-querer e da minha admiração. Em vão. Conhecidos desde os tempos em que vestíamos cueiros, queria lhe dizer que sua presença em minha vida a fez mais prazenteira e suportável; que sua companhia sempre foi para mim motivo de anelo e alegria, mesmo e principalmente nos momentos mais difíceis; que nossas vidas vêm caminhando lado a lado desde aqueles inolvidáveis tempos e que isso sempre foi uma fonte de conforto e tranqüilidade para mim; que sem ele, enfim, teria sido mais difícil, bem mais difícil... Assim, amanhã estou querendo dizer ao amigo que os parabéns de então não serão para ele, mas para nós, seus amados e amantes amigos, que tiveram e ainda têm o prazer de desfrutar de sua tão especial presença...
               Entretanto, é o seguinte, e que não se tome isso como uma cominação. Se ele não me atender por conta dessa frescura de sumir, justificando-se com depressões e choraminguices; se somente ao dia seguinte conseguir dizer-lhe tudo o que quero e pretendo, já com o entalo próprio dos que têm urgência; se impuser-nos, a seus diletos amigos, nova e insistente desfeita, vou acabar por transmitir-lhe o que vai de bom em meu coração. Mas, ao final, farei o que só aos verdadeiros amigos é permitido quando indevidamente contrariados: - vou mandá-lo à puta que o pariu!