segunda-feira, 17 de março de 2014

Quase tudo sobre quase nada

               Outro dia falei de reuniões. Que disse eu sobre elas? Disse, por exemplo, que as detesto. Disse também que elas nunca resolvem aquilo a que se propõem, tudo em função do mais recente e lapidar princípio da gestão brasileira, o princípio do faz-de-conta. 
               Hoje tive o desprazer de estar numa reunião. A certa altura, eu disse: -"Minhas colocações baseiam-se em princípios, senhores"... Qual era o contexto? Referi-me, em primeiro lugar, aos princípios da boa prática e, em seguida, defendia o que chamo de "princípio da independência técnica". São princípios da boa prática ouvir e examinar o paciente com calma e delicadeza. A pressa é, definitivamente, a maior causa de erros e omissões. E o que diachos seria esse "princípio da independência técnica"? Simples: - quanto mais "cirurgicamente" capacitado estiver o cirurgião a resolver problemas diversos numa Emergência Cirúrgica, menos necessitará da ajuda de um especialista. (No Direito, os princípios são mais importantes do que as leis.)
               Agora pergunto: - é bom o princípio da independência técnica? E, antes que me respondam, vou mais longe. Quero também saber: - é bom o princípio do faz-de-conta? (Só agora percebo que não expliquei o que seria ele. Mas é muito simples. Quando se tem um problema que se sabe difícil de resolver ou não se quer resolver, o gestor público faz de conta que está empenhado em resolver ou, ainda pior, faz de conta que o resolveu. Não sei se me faço entender.) Assim, repito a pergunta: - é bom o princípio do faz-de-conta?
               Tem-se duas respostas para esta indagação. Sim, ele é bom, muito bom, pra lá de bom, quando usado eleitoreiramente para uma massa de gente ignara; e não, ele não é bom, porquanto perpetua e até aprofunda a gravidade do problema que se pretendia resolver. Então, conclui-se que há maus princípios. O do faz-de-conta é um deles. 
               E o da independência técnica? Bem, mais uma vez temos duas respostas. A primeira é que ele não é bom. Na verdade ele é mau, muito mau porque... porque... porque... Não consigo achar uma única e mísera razão pela qual possamos julgar que seja mau o princípio da independência técnica, a não ser para o preguiçoso, para o que não quer fazer, para o que prefere que outros façam aquilo que sua função exige e para a qual foi treinado em algum momento de sua formação. Para esses, o princípio da independência técnica é um transtorno, uma dor de cabeça, um pesadelo...
               (Digo isso e já nem sei se quem exige é a função ou o gestor. Bem, o gestor nada exige... a quem deveria exigir. Exige de quem já faz, de quem trabalha, de quem cumpre seu papel. E por que razão age assim, cobrando de quem faz e não cobrando de quem deveria fazer? A razão é muito simples: - quem não faz, jamais fará, ao passo que quem faz possivelmente fará.) 
               E, afinal, é bom o princípio da independência técnica? Resposta: - num momento de parcos recursos humanos e elevada demanda ele seria simplesmente a solução. Como seria a solução?, perguntará o mais cretino dos viventes. É tudo, mais uma vez, muito simples. Senão, vejamos.
               O que é o especialista? Segundo uma anedótica definição, especialista é o sujeito que sabe quase tudo sobre quase nada. Se o sujeito sabe um montão de coisas sobre uma unha – presumindo que uma unha seja uma coisa infinitamente tendente ao nada –, presume-se que seu conhecimento não é muito útil quando, além de unhas, dedos, pés, pernas e braços fizerem parte do problema. Isso é tanto mais verdade quando o maior problema da unha for sua quebra por forças externas. É muito provável que uma força externa, ao quebrar uma unha, quebre também ossos e partes moles do dedo ao qual pertence essa desafortunada unha. Se ao lidar com o problema da unha formos obrigados a necessitar do especialista em ossos e do especialista em partes moles, já teremos três especialistas envolvidos. Todos sabem: - o serviço público de saúde brasileiro é uma lástima, para não dizer um crime. Não há especialista que chegue. 
               Se, ao contrário, o sujeito entender de unha, ossos e partes moles danificadas, a coisa já muda de figura. Ele, sozinho, será capaz de resolver tudinho utilizando-se de seus conhecimentos em unhas, ossos e partes moles danificadas. Vejam que ele nem necessita conhecer doenças outras das unhas nem dos ossos para lhes reparar o dano inicial. Em outras palavras, ele, ao invés de tratar de unhas danificadas somente, será capaz de tratar dedos inteiros. 
               A reunião acabou e o gestor só a muito custo entendeu todo esse blablablá sobre independência técnica, unhas e dedos machucados. Idiota sou eu que não sei usar analogias mais apropriadas.