segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

QUEM NÃO É FEIO BONITO TAMBÉM NÃO É

EIS que encontro ali, nos corredores do Hospital Geral de Fortaleza, o meu querido amigo Chico Cartier. 
                Um momento. Percebo a tempo que não convém chamar o amigo pelo apelido, ainda que esse apelido em nada o comprometa, em nada o desqualifique, em nada o diminua. Pelo contrário. Ele foi assim apelidado porque se envaideceu deveras depois da compra de um relógio de pulso da marca famosa – passava o tempo a levantar o braço para ver as horas. 
                Vá lá. Chico Cartier é corredor assíduo na Beira-Mar. É daqueles cuja atividade física tornou-se sua mais benigna obsessão. Assim, ao vê-lo fui logo querendo saber: –“E o Cooper?” Ele, sorrindo, respondeu: –“Sempre. Tenho medo de morrer...” Ou seja, o homem corre porque teme a morte. Presume que a atividade física extenuante lhe traga a longevidade pretendida. 
                O leitor, que é essencialmente um órfão de fisionomias e sempre deseja, mesmo que esteja a ler o autor descritivo, deseja ardentemente que fosse possível uma fotografia do personagem, imagina-lo-á da forma mais vaga possível. Por isso a descrição, ainda que detalhada e minuciosamente esmiuçada, nunca se equiparará à imagem. Diz lá a ciência da neurolinguística que a maioria de nós é visual. Convenhamos – o leitor há de ser perdoado. 
                Assim, digamos que o meu amigo Chico Cartier guarda uma semelhança brutal com o Keith Richards. Sim, é uma semelhança que impressiona, com uma diferença – o Keith Richards é feio, ao passo que o Chico não é. Não me queiram que saia a explicar esse aparente paradoxo. Direi apenas que a distância entre a beleza e a fealdade há de ser um minúsculo e quase imperceptível detalhe que, atuando no conjunto, tudo muda. Vejam que não estou a afirmar que é bonito o Chico. Se a distância entre esses dois extremos é mínima, que dirá entre um deles e um estado intermediário. Em suma, o guitarrista é feio, ao passo que o Chico não é. E estamos conversados.
                Devo dizer que não é desde sempre essa semelhança. Ela como que foi se acentuando com o passar dos anos. Chego a pensar que tenha sido, em parte, a acentuação das linhas de expressão do amigo, ou o fato de ele ter deixado a cabeleira pouco densa crescer. O fato incontestável é a tal semelhança. Outro fato incontestável é a feiura do Keith Richards. Fiquemos assim para não complicar conceitos e definições. 
                Mas... e o medo do amigo? Ora, antes de mais nada digamos que o medo de morrer é perfeitamente normal. O vivente quer permanecer, como se já viesse à existência carregando consigo uma vontade inelutável, um desejo congênito de eternidade. Seria isso uma programação do Criador? essa vontade de vida eterna? Schopenhauer atribuiu ao instinto, como a fome. Quiçá... Não vê talvez o meu amigo que há estudos recentes que demonstram que há atividades físicas que, se praticadas em sua idade, resultam em efeito oposto, isto é, envelhecimento acelerado e morte precoce. O diabo é que a verdade científica de hoje é a mentira loquaz de amanhã. 
               E assim me despedi do Chico, pensando cá com meus botões se ele já não parece mais velho por conta de suas desidratantes e intermináveis carreiras, ou se tudo isso não seria a evolução do inexorável levada às nossas superficiais e tolas análises ante ao colossal conhecimento que nos falta. 
               E o suicida? O que dizer do suicida? Bem... Já afirmei certa vez: – o pior suicida é o que não morre. Os bem sucedidos são outros quinhentos.