quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

TINHA QUE SER UM MÚSICO...

Há coisas que se vê todo dia e a elas não se dá a devida importância. E mais que importância, muitas delas estão ali a servir de ensinamento, de lição, como se a vida abrisse seu livro e nos convidasse a lê-lo gratuitamente sem pagarmos a ela o elevadíssimo preço da experiência. Por exemplo, o meu querido amigo Péricles Campelo, líder da banda Locomotiva. 
          Há alguns anos, com o firme propósito de criar um blog onde deitasse minhas entrevistas com as virtuoses das cordas desta cidade, recebi-o em minha casa para um bate-papo. Conversamos durante cerca de duas horas, pouco mais, pouco menos. Eis que, lá pelas tantas, o Péricles me sai com a seguinte pérola: "Felicidade, pra mim, é você acordar todo dia e pensar 'Pôxa, hoje eu vou fazer o que eu gosto'"! No dia seguinte escrevi um texto onde expus toda a minha inveja – inveja branca, diga-se – do amigo (http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2012/02/sobre-pocilgas-e-aviltamento-pessoal.html). 
          Vejam, pois, que já lá se vão mais de quatro anos deste encontro e só agora me ocorre a completude da frase do Péricles. E mais do que a inteireza dela, o que ela realmente significa do ponto de vista prático vai além, muito além de uma simples quimera. Explico.
          O Péricles é músico, toca violão, guitarra e baixo. E como está o Péricles sempre que o vejo, sempre que o encontro? Está com um sorriso que vai de orelha a orelha. E outras estrelas desta terra, que fazem o mesmo que ele, estão sempre com um sorriso que vai de orelha a orelha: o Mimi Rocha, o Rafael Andrade, o Lú de Souza... Vejam, por exemplo, e pra não dizerem por aí que esqueço o pessoal da velha guarda, o Nonato Luís. Já viram alguma virtuose das cordas mais simpático e sorridente do que ele? Duvido! Há um que quer empatar com o Nonato em sua simpatia contagiante: o meu querido amigo e professor Wanderley Freitas. Há, claro, alguns mais comedidos, como o Fabinho da banda Moby Dick, o Tarcísio Sardinha e o Moacir Bedê. Mesmo em seu comedimento, quase uma timidez por causa de sua virtuose humilhante, exalam sobre nós sua empatia que, quero crer, deve-se ao fato de acordarem dia sim e outro também para fazer o que gostam: – música, a arte que amam.
          Assim, só agora a frase do Péricles aliada à lembrança do sorriso desses caras me fez compreender o real significado da mensagem que ele me passou. Relendo meu texto, diria que o que lá eu disse, no que se refere à minha "inveja", deve ser superlativado e elevado à décima potência. A virtuose artística há de elevar o artista a prazeres indizíveis e inexprimíveis a reles mortais. Nós, os reles mortais, também amamos a música. (O sujeito que não a ama há de sofrer de grave distúrbio da personalidade e da afetividade.) Enleados, experimentamos o que esse pessoal produz de mais sublime, e com que amor! e com que alegria! e com que felicidade! Eles são assim, sorridentes, porque gastam seu tempo a emocionar, a encantar... de modo que a música é capaz, tem esse poder de unir e de trazer paz. (Lembra-me o dia em que meu já falecido amigo Marcos Sampaio me contou, ele que era estudioso das coisas de Deus, que a música surgiu nos Céus, onde habita o Altíssimo e Seu séquito.)
          Dirá alguém que o que faço há de ser, também, pela nobreza do ato, algo digno de causar as sensações mais inefáveis e indescritíveis em qualquer ser humano que o faça e direi que, sim, é verdade. Ocorre, porém, que a medicina, como arte, tem sido vilipendiada a tal ponto que o conceito que se tem tido de seus praticantes é o pior possível. E não é pra menos. Senão vejamos.
          Outro dia o Dr. Frank Veith, professor de cirurgia da Universidade de Nova York e da Cleveland Clinic, em comentário sobre o futuro da Cirurgia Vascular no Medscape, enfatizou os desafios negativos ou obstáculos que o médico norte-americano tem encontrado na prática diária (http://www.medscape.com/viewarticle/867710): "Um desses desafios é um sistema de saúde imperfeito onde sofremos todo tipo de regulação e proibições e onde o cuidado de nossos pacientes está mais nas mãos dos administradores hospitalares e companhias de seguro de saúde do que nas mãos dos médicos." Não fosse apenas isso, ressaltou um problema mais sério ainda – uma crise ética sem precedentes, todos os envolvidos mais preocupados com seus dólares que com os doentes, incluídos aí médicos sem escrúpulos que "fazem procedimentos desnecessários ou atuam em campos fora de sua especialidade" apenas para lucrar, submetendo pacientes a riscos e tratamentos invasivos e caros que não estão indicados. Tudo isso nos Estados Unidos da América, onde a lei é rígida e a medicina é de ponta. É lícito pensar o cenário ser pior onde o caos viceja e pulsa? Sabe-se lá... 
          Dirá alguém que tudo está à mercê da corrupção e que tudo é passivo de se corromper. Pura verdade. Tudo isso causa em nós que buscamos uma prática humilde, exercida dentro dos mais elevados princípios científicos e humanísticos, uma tristeza enorme. Ainda que individualmente cada um de nós possa se julgar recompensado em cenário particular por se conduzir dentro da correção e do amor ao ser humano que sofre, como classe o impacto de tais evidências é desolador. O crime é ainda maior quando cometido por quem se espera o mais elevado grau de lisura e comprometimento. 
          Pois foi justamente Tom, o Jobim, quem resumiu tudinho num único verso cantado e decantado mundo afora:
"Os olhos já não podem ver
Coisas que só o coração pode entender
Fundamental é mesmo amor
É impossível ser feliz sozinho".
         Tinha que ser um músico...