terça-feira, 6 de setembro de 2011

Bem feito!

Em casa, entre os pais, adquiriu um sestro extremamente perdulário – quebrar garrafas térmicas. Começou assim.
            A mãe, certo dia, chamou-a para o desjejum. À mesa, café preto na garrafa térmica e pão. Reclamou com a mãe que detestava desjejum só com café e pão, e lançou a garrafa com café ao chão. Num muxoxo, virou-se e foi-se meter no quarto.
            E assim, desde aquele dia, quebrou não se sabe quantas garrafas térmicas com café. Podia ser pela manhã ou à tarde no lanche, se a mãe servisse café e pão, lá se ia outra garrafa ao chão acompanhada dos também costumeiros esgares. A mãe, coitada, pecava por esquecer tão recalcitrante ódio. Quase toda semana era obrigada a comprar nova garrafa para substituir as que a filha, uma mulher de seus quase trinta, quebrava.
            Passado algum tempo, arranjou um namorado. Sujeito bem apessoado, educado, modos estudados e equilibrados. Já iam íntimos quando, ao acordar em casa do distinto após longa noite de amor, ele a chama para o desjejum. Vinha da sala e acabara de pôr a mesa. Avisou: -“Vem, querida, tomar café!”
            Aproximando-se da mesa, ela pergunta: -“O que temos aqui para comer?” Ele, em sua mansidão de animal doméstico: -“Pão e café!” Ela se enche de ódio em sua fisionomia assassina, toma a garrafa pela aba e quando vai jogá-la ao chão ele a segura pela mão e, num gesto rápido, toma-lhe a garrafa: -“Epa! Aqui você não quebra nada, não!” E passou a surrá-la com a própria garrafa. Bateu-lhe com o objeto em todo o corpo e, ao fim, expulsou-a de casa gritando, possesso, enquanto batia-lhe a porta na cara: -“E não volte mais aqui, sua louca!”
            Chegou à casa a cara e o corpo equimosados. A mãe queria saber o que seria aquilo e ela, choramingando, contou do ocorrido. A velha senhora, ao final, virando-lhe as costas após um esgar de nojo: -“Bem feito!”