segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Não me amem!


Após quarenta e oito anos de uma existência ativa e relutante, peço em alto e bom som: não me amem! E requeiro: respeitem-me, pois que estou a respeitar a todos.
            Haverá sempre os que não pensam, ou que pensam que pensam, mas que pensam a partir de equívocos e regras preestabelecidas e comprovadamente ineficientes em produzir bons resultados. Vitimei pessoas em amores possessivos. O resultado é que fui também vítima de tais amores. Criei um monstro, e por ele fui mordido. Ainda hoje vejo pessoas a aprisionar seus amores, a criar os monstros que as mordem. Uma pieguice sem tamanho!
            Também fui vítima dos amores essenciais, aqueles que os que nunca o tiveram reivindicam nos divãs dos psicoterapeutas e/ou nas ruas da marginalidade. O paradigma manda-me ser feliz por ter sido agraciado com tão nobre e “protetor” sentimento, mas ainda este me mordeu. Não fosse minha maturidade plenamente resolvida e assumida, eu estaria a chorar e a me afligir por culpas que não tenho.
            Não me amem, mas me respeitem, é tudo que peço. O amor dos homens não é pleno, e cobra tributo. Sempre amam esperando a paga, que pode ser o amor em troca, mas que pode também ser a matéria que pretende simbolizar o intangível. Quem ama quer ser amado, dizem. Por isso, não me amem. Não me sinto disposto ao comércio do amor, lamento dizer. De nada adiantaria se dissesse, em sinal de alerta, que não garanto o retorno. Não bastaria ser sincero. Ainda que o fosse, estaria endividado com quem diz me amar. Por isso, rejeito qualquer amor. Ou melhor, aceito o amor distante, o amor da quase nenhuma interação, da quase nenhuma convivência, do quase nenhum conhecimento. Esse é o único amor que me é possível. E por quê? Porque me respeita, ainda que tal respeito seja imposto pela volatilidade de meros e frugais encontros.
            Respeitem-me! Aceitem minha ilha de sensibilidade! Aceitem esse meu espaço vital! Ele é meu, a mais ninguém pertence! Não está a invadir terceiros.  Fartei-me das convivências que comentam de mim; julgam-me, observam-me, resolvem-me, criticam-me destrutivamente, não me olham nos olhos, e nunca me perguntam com a alma desarmada e repleta de genuíno interesse: -“Como estás?” Fartei-me da insensibilidade dos que se furtam à observação de minhas atitudes e comportamentos, e ainda nem em minhas palavras acreditam. Por que agem assim? Por que insistem em não ver, em não me ver? Em nada lhes posso ajudar. Sentir-se-iam privilegiados ante aqueles que só lhes me permito ver em minha mais cínica superficialidade.
            Respeitem minha escolha que a ninguém fere, que nada de alguém subtrai. Minha abstração quer demonstrar o respeito máximo que procuro ter pelo outro. Também me fartei de minhas semelhanças com todos esses que me cansam. De mim mesmo senti tédio: fui impelido à mudança. Quis mudar. Quis me revolucionar.
            Ainda assim, taxam-me. Litigam comigo no mínimo de tempo que gasto com eles. São os que me amam. Concluí, então, que o amor - este amor - e o respeito que me devem seguem caminhos opostos. Entre um e outro escolhi o respeito, pois que nele está a demonstração do verdadeiro amor e do desinteresse. A paga que de mim recebem, quando me amam com esse amor, não é a que demandam. Recebem de mim a distância segura e o amor desinteressado. Recebem de mim minha visão frívola da vida, ou, para não ser tão duro, minha visão desprovida das catarses e ilusões da vida. Recebem de mim – não percebem porque são estúpidos em sensibilidade! – legítimo apreço, consideração e, quando é o caso, gratidão e reconhecimento. Recebem de mim tudo o que posso fazer em seu auxílio.
Ainda assim, exigem minha punição pelo que consideram pouco que fiz. Seria como se nada tivesse feito. Lutam a que a culpa me roa as entranhas, de modo que eu definhe na prisão de minha autopunição. E, nesse momento, demonstram que não são tão insensíveis assim: sabem-me responsável o bastante para me tentar imputar a culpa. Ah! não fosse eu esse empedernido da vida!... Graças à minha ilha e ao meu espaço vital posso sobreviver. Que seria de mim sem mim mesmo? A quem recorreria antes do colapso?
Há aqueles que julgam que me considero auto-suficiente, e que por isso me dou a esses devaneios impróprios. Enganam-se. O que fazer com as mudanças que em mim ocorreram? O que fazer com as camadas de células mortas de meu ser que foram sacrificadas no altar de meus suplícios? Devo esquecê-las? Devo fingir que não existem? Não seria possível, obviamente. Nada estaria mais longe de mim do que eu mesmo. Como poderia me abandonar? Devo vitimizar-me como os que querem me impressionar com suas próprias tragédias hipertrofiadas e desnecessárias? Isso os faria felizes? Ah! ainda que pudesse, eu não o faria!
Não chega a ser melancólico o descobrir-se invulnerável às manipulações alheias. O pesar maior é surpreender em por quem tenho apreço a malícia da dissimulação a tentar me abater o espírito. Em tempo hábil desmascara-se o estratagema, e não há tempo para as decepções de praxe: de tudo é capaz o ser humano, quem quer que seja.
Por tudo isso, não me amem! Se esse amor vem para meu mal, prefiro que me respeitem. Antes o respeito ao amor. Antes o respeito à liberdade ao ciúme que corrói. Antes o amor próprio sublime e a auto-estima positiva à insegurança de quem se propõe fazer alguém feliz. Antes a força interior para contribuir com outros a que encontrem sua voz interior à definição brusca e tosca desse meu falso egoísmo.
Prefiro que me tirem da memória, que me esqueçam o telefone, que me imputem as piores qualidades de um ser humano. Prefiro ser canalha, um canalha mudo, que nada responde, que nada resmunga, que não pretende se defender. Já vai muito longe o dia em que tentei pela última vez a justificativa, a explicação, a ânsia de ser entendido. Não me entendam. Não me amem. Respeitem meu laconismo. Minhas muitas palavras, minha verborréia – que já alguém me apontou – guardei para estes que as merecem, discurso vazio e inconsistente, onde me escondo e onde pareço o imbecil que ri. Escarneço. Rio como uma hiena faminta.
Por isso insisto em que não me amem. Peço que de mim desistam. Não sou o futuro de quem quer que seja. Nada devem investir em mim. Se soubessem quem são e o que podem fazer, não estariam a me buscar, a me pressionar, a me induzir a mais uma tentativa de me manipular.
Tudo o que quero é paz. Sem o seu amor, mesmo que não me respeitem, terei minha paz em meu espaço vital, em minha ilha de sensibilidade, em meu silêncio pessoal, onde minha voz cala para que eu ouça o que de mais profundo tenho em mim.