domingo, 18 de setembro de 2011

Na perdição do sem saber


Não sei se já perceberam, mas vivemos à era da psicoterapia, à era do psicólogo. E não só isso. Vivemos à época da abundância do profissional da psicoterapia. São tantos e tantos que até se aboliu a necessidade do canudo para o exercício de tão nobre labuta. Vejam, por exemplo, o que acontece ao Amorim.
Teve uma desavença séria com a mulher e a largou. Os amigos, uma China deles, o avisaram: -“Não é mulher pra ti!” E puseram-se a opinar e resolver-lhe a vida amorosa. As amigas, mais opiniosas ainda, fuzilaram: -“Mereces coisa melhor!” Outros, conhecidos, pessoas da periferia de sua vida, sem nada saberem da história do casal, do drama dos filhos, se saíram com essa: -“Nada tem a ver contigo!”
Certa vez, pouco depois da tragédia familiar, todos os psicólogos do Amorim se encontraram no bar da esquina e meteram-se a debater o drama do amigo e conhecido. Foi um verdadeiro seminário de psicologia. O drama do Amorim era um case. E assim concluíram que Amorim fizera a maior besteira de sua vida ao contrair matrimônio com aquela que veio a se tornar a mãe de seus filhos. Pisaram-lhe a família e sua dor. Nada ou pouco consideraram.
Dali a poucos dias Amorim, sem saber o que dizer, o que fazer, quis saber: -“E como deveria ser a mulher que servisse pra mim?” Ninguém sabia a resposta. O amigo concluiu que os amigos, a nova leva de psicólogos, sabiam de tudo, mas não sabiam de nada.
            Comigo foi ainda pior. A mim me deram o diagnóstico fatal: estava perdido. Disseram-me: -“Estás perdido.” Disseram-me: -“Não sabes o que queres!” Tão perdido fiquei com o nefando diagnóstico de que estou perdido que saí a esmiuçá-lo.
            Se estiver perdido, onde me perdi? Em que momento me perdi? Quando não mais me dei conta de mim mesmo? Que terei feito durante o tempo em que estive por aí, a esmo, perambulando por minha própria vida sem a noção de que ainda vivia? A quem feri? Terei-me autoinfligido dores?
            Chacoalharam-me a ver se despertava daquela alienação não percebida. E o que aconteceu foi que continuei perdido. Não me achei após a violenta e veemente chacoalhada. Parado estava, parado permaneci. Como o herói kafkiano, segui desconhecedor de meus processos. A mim me parecia que a normalidade era minha companheira. Mas, não. Estava perdido. E me perguntava, sem desespero algum: como me acho? Ninguém pôde me dizer. Ninguém sabia.
            E, como estava perdido, também não sabia o que queria. Nada mais natural em semelhante situação. Um perdido não sabe o que quer. Do contrário não estaria perdido. Alguma pessoa poderia ter querido por mim, me emprestado sua vontade, e ter dito, como quando levamos uma criança ao restaurante, o que supunha eu iria querer. Nem isso fizeram. Não me restou um amigo para me socorrer quando me fugiu a razão, o juízo, a lucidez. Só apareceram os psicólogos com seu nefando diagnóstico: -“Estás perdido!”
Há algum tempo, após o segundo divórcio – estaria eu já então perdido? –, me perguntaram: -“Que queres da vida?” Perdido ou não, respondi: -“Viver.” Não sei se me perdi antes ou depois da pergunta letal. Se novamente me perguntassem, hoje, o que quero da vida, responderia com a cara mais lisa do mundo: -“Viver.” Embora perdido, teria a resposta, a mesma, na ponta da língua, clara, lúcida, indubitável. Assim, é provável que a pergunta de aparência sábia pareça agora ainda mais estúpida do que à primeira vez que me foi formulada. Não se faz tal pergunta a quem está perdido, a quem não sabe nem mesmo quando está com fome.
É fato – hoje em dia desconheço quando me vem a fome. Vem-me a fome e não sei. Corro o risco de morrer de inanição, de um kwashiorkor tardio que afetasse um homem obsoleto. Tenho sobrevivido por conta de amigos que, no dia-a-dia, me lembram a hora das principais refeições ou me chamam inadvertidamente para um lanche fora de hora, um cafezinho, um suco. E não sei o que quero comer, segundo meus inúmeros e honoráveis psicólogos.
Uma coisa é certa: - quando melhorar me avisarão. Quando souber o que quero, eles me dirão. De fato eles me dirão quando devo saber o que quero. Enquanto isso não acontece, sigo a viver minha vida de extraviado. E peço aos amigos, muitos deles meus psicólogos, que quando me acharem por aí me tragam para casa. Nem de meu endereço me lembro.