quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Na velocidade e no lugar certo para morrer

          Outro dia encontrei minha querida amiga Jesoni Gruska no edifício garagem do Hospital Geral. Estava eu tirando as luvas. Ela percebeu que era equipamento de motociclista. Perguntou: -"Não tem medo de andar numa motocicleta?" Respondi "de bate-pronto": -"Me pelo de medo, amiga!" E completei: -"Mas a coragem é maior que ele."
          Poderia ter estendido um rosário de argumentos, reflexões, idéias, noções, conceitos, mas calei. Quando se faz assim, tem-se a nítida impressão de que se está a tentar "catequizar" alguém em sua própria e individual concepção sobre algo. Não me disponho a tal. Até porque é extremamente difícil, se não impossível, tentar convencer alguém que a motocicleta é um veículo que pode, sim, ser seguro. 
          Contudo, ainda não a deixei ir sem antes lhe dizer que é bom o medo, que é bom ter medo. E lhe disse mais, quase filosófico: -"Tenha medo do homem que não tem medo!" E ela partiu a se rir de mais uma de minhas idiossincrasias. 
          Pensemos bem: o que faz o medo? Das duas, uma: ou paralisa, ou leva à reflexão. Na primeira hipótese o medo é mau porquanto limita o ousar; ousar é usar da coragem, é atrever-se a algo, é se permitir ultrapassar o limite do lugar-comum. Se hoje voamos, por exemplo, é porque os corajosos ousaram, venceram o medo que não os paralisou. É mau, portanto, o medo que paralisa quando a experiência pode ser recompensadora. 
           Na segunda, o medo leva ao aprendizado, porquanto a reflexão é um "pensamento sério ou meditação profunda a respeito de determinado assunto ou problema". Se estamos a pesquisar sobre determinado assunto, o estudamos a fundo a fim de aprender o máximo sobre ele. Daí ser comum se ter medo do que se não conhece. 
          Assim, o homem que não tem medo ousa se aventurar em terreno desconhecido pondo em risco a si mesmo e a outros. Tal espécie de homem comete o erro capital, e às vezes mortal, de pensar que já tudo sabe, que nada lhe restou a ser aprendido, atitude cediça entre os mais jovens. Se já tudo sabe sobre tudo, não vê o que há para ainda aprender. Age, então, baseado em preconceitos pessoais. Diz o Robert Kiyosaki sobre investir: "Não é o investimento que é de risco, mas o investidor, se não sabe o que está fazendo". O mesmo se pode dizer quanto a correr riscos em outros cenários. 
          O conhecimento que se adquire numa atividade ou "ação" de risco serve a minimizar ao máximo esse risco. Assim, no caso específico de se pilotar motocicletas, como não há anteparos ou proteção nenhuma para o corpo do piloto, deve ele pilotar com cautela elevada à decima potência. Então, a pergunta que se faz é: como elevar a cautela a tais níveis? Ou: há ainda algo que não sei e que possa ser feito para elevar a segurança? Resposta: sim, há muitas medidas a serem adotadas. Porá em prática e tornará elas um hábito o motociclista que tem medo. 
          Vejam que o motociclista pensar em segurança apenas eventualmente é uma perigosa armadilha a ser destacada. Segurança aqui obedece à lei do tudo ou nada. Ou, ainda, pensar em segurança em 100% do tempo em que se está pilotando é a regra de ouro. Diria mais – o verdadeiro e consciente motociclista começa a pensar em segurança antes mesmo de subir à máquina. Por isso não se deve condescender com mínimas estripulias que sejam como, por exemplo, andar na contra-mão ainda que por dez metros, ou ir até a esquina sem o capacete, ou ainda pilotar após um gole na cerveja. 
          Andar em alta velocidade é a "manobra" mais mortal a que o motociclista, que nessa instância chamo de "motoqueiro", se expõe. As razões para isso são tão óbvias que me absterei de comentário adicional. Abrir a guarda para tais maus hábitos é negociar com a sorte e, nessa seara, a sorte não é uma variável desejável nem confiável. O indivíduo que está em alta velocidade numa motocicleta está procurando provar que a sorte é o encontro do preparo com a oportunidade – está na velocidade e no lugar certo para morrer.