segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Garotão cinqüentão


"Jovens, envelheçam!" (Nelson Rodrigues)

           Disse-me nessa madrugada o Moura, indignado com o comentário da filha: -"Eles pensam que somos velhos!" Referia- se aos mais jovens. E continuou: -"Pensam que, porque o corpo decai, decai também a mente, os pensamentos, os desejos, as idéias...!" Segurava o copo com a esquerda e gesticulava com a direita. "Não sabem nada!", arrematou.
          E, de fato, o Moura se vestia com uma T-shirt  azul, uma calça jeans desbotada e sapatos esportivos azulados com cadarços brancos. Do alto de seus cinqüenta e poucos anos, a cabeleira inteiramente branca, dir-se-ia que o homem sofria do complexo de Peter Pan. Ao que pude entender, a filha, que o encontrara antes de ele sair de casa para a balada onde estávamos, criticara a indumentária de seu jovem e maduro pai. Teria dito ela: -"Que coisa imprópria para a tua idade, meu pai!" Ele recebeu aquilo como uma falta de sensibilidade da jovem e verde filha. 
          Ora, jovem e maduro é o meu amigo Moura; e jovem e verde é sua inábil filha. E cubro de razão o amigo. Como não? Nós, os cinqüentões, estamos no interregnum da juventude biológica. Porém... e daí? Nós, que estamos ainda tão presos aos nossos bons e saudosos tempos, sentimos no cerne de nosso ser a pulsação indelével e irremediável de nossa eterna juventude mental. Sentimo-la tão viva que o que vemos ao espelho é apenas um pálido reflexo daquilo que somos de fato. 
          Nunca nos abandonaram os pensamentos que também acometem os atuais jovens biológicos, com várias e notáveis diferenças a contar a nosso favor. Eles pensam sobre o futuro, nós pensamos sobre o presente, e temos um passado a lembrar. Tivemos um rico e bem vivido passado, que nos faz orgulhosos de hoje sermos quem somos, orgulhosos de termos nos tornado o que nos tornamos. Nosso passado nos proveu a saúde mental, emocional, afetiva e até física que temos hoje. Fomos forjados em famílias sadias, com os problemas normais de famílias normais. Fomos educados em escola que nos imprimiu na alma princípios indeléveis. Crescemos com o amor de nossos pais a nos envolver na segurança e paz de um verdadeiro lar. Muitos não se podem jactar de tal riqueza. 
          Nosso passado é nosso tesouro. Para muitos o passado é o inferno. Nosso passado, onde estão todas as nossas experiências e ensinamentos básicos, é a fonte de sabedoria onde sempre bebemos ao nos defrontar com novas e desafiadoras situações da vida. Nossa bagagem de quantidade de vida não nos faz menos jovens. Ao contrário, é justamente essa boa bagagem que nos faz mais jovens: somos cada vez mais sadios em todos os aspectos que dependem de nossas escolhas e decisões. A juventude biológica até pode, em parte, depender de uma decisão nossa, ao adotarmos ou não um estilo de vida mais ou menos saudável, mas não podemos ser responsabilizados pelos méritos e deméritos de nossos genes. Daí porque não há muito o que se vangloriar na beleza estética – nela não há merecimento de seu possuidor. 
          Para nós, cinqüentões, o que conta é o presente. Vivemos intensamente o presente porque nele nosso futuro chegou. Estamos vivendo aquilo que no passado chamávamos de futuro. E descobrimos nele, sem excitação e com muita tranqüilidade, que o que vale e o que conta na vida é justamente a bonança e a calmaria da sabedoria, a descoberta da simplicidade e dos plácidos relacionamentos como o grande momento dessa aventura fantástica. Não queremos mais nos mostrar, não mais ambicionamos, não mais nos angustiamos, não mais nos apressamos, não mais atropelamos, não mais nos iludimos nem mais iludimos a fim de obter as vantagens que sabemos hoje não se sustentarem. Queremos o fácil e o simples, porque no futuro, que para nós está mais próximo, teremos o encontro final de nós com nós mesmos. Nele não queremos nos arrepender do que fizemos e, menos ainda, não queremos nos arrepender do que não fizemos. Queremos a paz final da missão cumprida. 
          A jovem filha de meu amigo é jovem e, como tal, nada sabe, como ele mesmo concluiu. De que pode ela falar? Sobre que assunto ela entende? Qual marca a vida lhe imprimiu? Que aprendeu de prático? Que aconselhamento pode prover? Que decisão pode tomar sem os riscos que a verdura da vida impõe? O futuro do jovem biológico seria melhor se entendesse o que seus experientes pais tentam lhes mostrar; se percebesse que seus pais não são velhos, mas sábios; se se humilhasse à sua ignorância e à autoridade de sua vivência; se compreendesse, enfim, que a vida é laboratório de curta aplicação – uma péssima experiência ao início pode lhe comprometer seriamente até o final. As decisões dos primeiros anos são aquelas que vão impactá-la para sempre, justamente ao tempo em que estão disponíveis as palavras de sabedoria dos pais, que teimam em negligenciar.
          Que importa como nos vestimos? Se o Moura, um cinqüentão de marca maior, se veste como um garotão de vinte e cinco é porque está podendo, ainda que a cabeleira branca lhe denuncie os anos de estrada. Sofremos todos do complexo de Peter Pan. E não temos nenhuma necessidade de psicoterapia. Estamos resolvidos. Somos quase uma enciclopédia. Estamos apenas maduros, quase podres, no dizer de meu amigo Casoba.