segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Aqui não se vota em cretino!

          Uma amiga, que vai votar num desses sujeitos candidatos a prefeito desta decadente cidade, pretendeu publicar essa intenção em minha página da rede social. Em outras palavras, estaria estampada lá a propaganda do elemento, caso eu autorizasse. Ela, que deve estar a me ler agora, não deve nem pode se aborrecer com esta manifestação de desautorização. Cá entre nós – temos péssimos candidatos, péssimas opções. Minha única inclinação repousa no senhor Heitor Férrer, um político aparentemente combativo e corajoso.
           Não obstante, é do conhecimento de todas as pessoas esclarecidas nessa matéria que um homem, ou uma mulher, nada faz sozinho. E digo mais – é mais importante o voto que se dá no legislativo do que o que se dá no executivo. Isso, é óbvio, em país onde os poderes se mostram verdadeiramente independentes, o que não é o nosso caso. Aqui, infelizmente, não há uma nítida linha a dividir partidos de partidos e poderes de poderes. Somos o país da personalidade, votamos na personalidade, queremos a personalidade. Não há bandeiras. Nossos políticos não carregam bandeiras, não defendem idéias ou, melhor, defendem as idéias que melhor lhes rendam votos para, após eleitos, esquecê-las. E o povo, em submissa solidariedade, lhes acompanha no esquecimento. Os poderes se mancomunam para extorquir e oprimir os cidadãos e quando, aparentemente – apenas aparentemente –, se mostram divergentes, é justamente aí que estão mais aconchavados contra os indefesos brasileiros. 
          Este é o país das obras. Todos querem obras. E os governos obram. Mesmos que elas gastem o quádruplo ou mais do que foi inicialmente orçamentado, queremos as obras; mesmo que a robalheira e o desvio de dinheiro – razão de os políticos amarem mais as obras do que o cidadão comum – sejam deslavadamente conhecidos e apurados sem que ninguém durma uma mísera noite no xadrez, queremos as obras; mesmo que elas nunca sejam concluídas sem que nada aconteça de ruim aos conhecidos larápios, queremos as obras; mesmo que uma vez concluídas elas se mostrem incompetentes para atingir o fim a que se destinaram, as queremos sempre. As obras são o sintoma de que o político é atuante, e as chamadas "emendas" aos orçamentos sua mais vibrante realização. 
          Fiz todo esse introdutório para relatar o que me ocorreu outro dia no táxi. Carlão, o motorista, já meu conhecido de outras corridas e outros carnavais, perguntou-me se eu conhecia a vereadora Magaly Marques. Ela é novamente candidata à vereança. Carlão ia nela votar. Motivo: foi ela quem o ajudou no internamento e operação de sua mãe em certo hospital conveniado do SUS. (Magaly Marques é médica.) Explicou: -"Vou lhe retribuir o favor!"
          Vejam que interessante. O homem vai votar por favor. Ora, se está fazendo à vereadora candidata à reeleição um favor, é porque é uma coisa muito boa ser vereador. Se é muito bom verear, deve-se ter lá as vantagens. Se tem-se lá vantagens, deve valer a pena gastar os tubos de dinheiro, como gastam os infinitos senhores candidatos, para tentar se eleger e reeleger. (Outro dia vi que, na Suécia, o equivalente ao nosso vereador ou deputado não dispõe de mordomias nem vantagens materiais, exceto um salário comum. Ao contrário, aos olhos do jeito brasileiro de se fazer as coisas, é um mau negócio ser deputado ou vereador por lá. O sujeito está lá para servir, e só servir, a comunidade.) 
          Outra coisa interessantíssima. Quando Carlão dá à candidata um voto "por favor" e em retribuição ao que ela lhe prestou individualmente e primeiramente, está pensando somente em si e nos seus, e em nada na coletividade. Retribuído o favor, a vereadora não mais mantém nenhum laço ou vínculo com o dono daquele voto e estará livre para fazer o que bem entender, e Carlão que vá reclamar com o bispo. (Antigamente, não faz muito tempo, o bispo tinha poder.) O mesmo raciocínio se aplica a "categorias" de trabalhadores que votam em candidatos que aparentemente não irão contrariar seus interesses, como uma amiga e sua categoria que votaram  em candidato(a) a presidente porque temiam que o outro lhes vetasse as mordomias ou o aumento salarial se eleito fosse.
          Fica também estampada na realidade, e longe das lucubrações dos boatos e mitos, a incompetência de nosso sistema público de saúde. Se ele de fato funcionasse não teríamos políticos colhendo dividendos eleitorais por sua contumaz falência. Este é o país do favor. Só se consegue no serviço público o serviço de que se precisa de forma rápida e eficaz através de favor. Uma mão lava a outra, e assim vamos fazendo e recebendo favores. Sem os favores o Brasil teria um colapso; quiçá nem as eleições fossem viáveis. O povo não saberia em quem votar; precisa do favor de alguém para decidir.
          O que essas pessoas não entendem é que reclamar da maneira de se fazer política no país não mudará jamais se elas próprias não modificarem a maneira de elas mesmas pensarem a política e de fazerem política. (Ou votar não é fazer política?) Ainda que o candidato venha a manter de pé se eleito os acordos previamente acertados com determinada classe, não preocupa a essa classe o que esse candidato fará com a educação, a segurança e a justiça? (É esse o único critério usado por muitos para escolher um candidato.) De nada lhes adiantará melhores salários se não puderem sair à rua para um passeio porque os criminosos estão de tocaia prontos a atacá-los e a seus filhos, ou se esse candidato nada fizer para interromper o grassar da ignorância na imensidão da nação. Tal comportamento expõe outro aspecto de nossa maneira de fazer política – o individualismo.
           Vejam que há ainda acontecimentos anedóticos a ocorrer nas relações entre políticos e eleitores nessa decadente cidade. Foi nessa história Amorim o protagonista do povo, e o político um vereador do famigerado PT, cujo nome me abstenho de declinar em atenção ao querido amigo. 
          Eram amigos dantes mesmo de o vereador se tornar vereador. Eram amigos de faculdade, onde se conheceram. O vereador, moço bem parecido, bem falante, presente e ausente nas comunidades pobres, currais aqui e ali. (Um grande fazendeiro o invejaria.) O amigo por ele nutria uma admiração e deferência quase deíficas. Amorim, também na flor dos trinta e poucos, arregimentara a família – agregados, cunhados, pai, mãe, irmãos, irmãs, namorada – a votar no jovem e eloqüente edil. Amigos fiéis...
         ...até o pacto. O camarista se divorciara e Amorim andava já há um bom tempo, como se diz no bom cearensês, solto na buraqueira após o final do último namoro. Fizeram, então, o pacto: –nenhum deles se envolveria com qualquer uma das ex do outro. E assim passou a viger a regra que expunha de cada um sobre o outro um conceito nada confiável em se tratando de fidelidade.
       Não sei se é sabido, mas Amorim, também rapaz bem apessoado – um Ronnie Von do segundo milênio –, vai ao samba ali no Centro Cultural como quem vai ao caixa eletrônico da esquina. (Quisesse alguém matá-lo bastava lá ir procurá-lo.) Não se sabe se por acaso ou não, eis que certa noite deu de cara com a ex-mulher do valente camarista. Amigos por tabela, a jovem senhoraça se arreganha para cima do testosteronizado mancebo, que nem tempo teve de raciocinar. Abufelou-se sobre ele como quem está faz dias na ira, e estava desenhado o cenário.
        Amorim pode ser tudo, menos mentiroso ou omisso, inda mais em se tratando de pactos com amigos figadais. Bateu o telefone para o comparsa vereador e relatou – antes que sua ex o fizesse –o que para o outro foi a maior punhalada de sua vida. (Ex adora sair com os amigos do ex! É o chifre que não é chifre já sendo chifre lá atrás, se se levar em conta que as guampas estão bem postas ainda e já à imaginação e desejo.) A amizade balançou, balançou, balançou... Balançou tanto que o político nem se importou em contabilizar fora de sua urna os tantos votos a que devia ao ex-amigo fiel. A família de Amorim, desde o cachorro até a secretária do lar, já decretou: – aqui não se vota em cretino!