quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Imposturas


Eu diria que vivemos, cada vez mais, tempos de imposturas. Não sei se o Nelson já o dizia ao seu tempo. Se o dizia, e se vivo fosse, constataria a verdade inapelável: - esse é, de fato, um tempo de imposturas.
            Há quase três anos escrevi sobre o plano “consulta zero” em meu outro blog “O Desocupado” (http://fecavalcanti.facilblog.com/Primeiro-blog-b1/O-plano-consulta-zero-b1-p103.htm). Resumirei o que lá digo. Àquela época lançava-se o plano “consulta ambulatorial”, cujos produtos eram a consulta médica e exames complementares simples. É provável que o plano tivesse limitações quanto ao número de consultas a que o freguês tivesse direito cada mês. Para ser franco não conheço detalhes desse fabuloso produto da assistência médica nem se o mesmo ainda está à venda, mas era basicamente isso. Quem o comprasse pagaria uma mensalidade no valor de trinta e cinco a quarenta reais.
            Imaginemos que o sujeito não tenha nenhuma doença crônica que exija sua ida ao médico numa base regular. Imaginemos que ele vá ao médico uma única vez ao ano para uma consulta “preventiva”. Se o indivíduo em questão for assim muito agraciado pela sorte, pode prescindir do referido plano e pagar uma consulta particular no valor de, digamos, duzentos reais, que é o valor que os médicos estão cobrando em nosso Estado. (Não esqueçamos – esse é o Estado do salário mínimo e de seus múltiplos menores, duas ou três vezes no máximo!) Os exames complementares mais simples são baratos – um hemograma completo particular custa cerca de quinze reais –, de modo que ele provavelmente possa, de fato, se dar ao luxo de nem pagar por qualquer plano, gastando em saúde menos por ano do que se pagasse por ele.
            Agora imaginemos, em outro extremo, o sujeito portador de doença crônica que necessite ir a médicos com regularidade durante o ano. Esse indivíduo se beneficiaria deveras do plano consulta ambulatorial, desde que não necessitasse de internações também regulares. Se o serviço público oferecesse leitos hospitalares tanto quanto oferece atualmente indignidades aos seus usuários, esse indivíduo poderia fazer uso desses leitos sempre que necessitasse. Essa pessoa estaria relativamente tranqüila quanto à sua assistência médica.
            Entre as duas hipotéticas situações acima estariam as pessoas que necessitam de tratamentos caros em nível ambulatorial e hospitalar, inclusive em Unidade de Terapia Intensiva e procedimentos cirúrgicos e invasivos. Nesses casos o plano consulta ambulatorial de nada serviria. Só restaria a essas pessoas o serviço público de saúde e suas enormes e permanentes deficiências.
            O que quero dizer é o seguinte. Os planos de saúde deveriam – não sei por que não o fazem, por que razão ainda não o fizeram – dispor de um produto que contemplasse tudo já no minuto seguinte à sua contratação. Eu disse tudo? todos os tratamentos, e procedimentos, e órteses, e próteses, tudo? Sim, isso mesmo – tudo, exceto uma coisa: a consulta médica. Toda e qualquer consulta que essa pessoa quisesse ou necessitasse fazer seria particular, ou ela que procurasse uma consulta no serviço público. Vejam que interessante. Certamente seriam planos ainda caros, não obstante a retirada da consulta médica de sua lista de produtos. É provável que esse plano fosse comprado pelos altos salários e pelos grandes negócios, que o descontariam integralmente, junto com a consulta particular, em seu imposto de renda.
            O que quero também dizer é que entre o plano ambulatorial já lançado e o plano consulta zero nunca nem sequer aventado – ou se o foi não me consta, e aqui admito uma abjeta e imprópria ignorância –, teríamos planos ao gosto de cada freguês. O sujeito compraria o que lhe desse na telha e não poderia ajuizar ações contra o vendedor do plano uma vez que tudo estaria claro e esclarecido desde o princípio. Dirá alguém que tal cláusula seria inconstitucional já que na Carta se dá como direito inalienável e inegável a saúde de todo bom brasileiro, e eu diria que aí está a primeira grande impostura de nosso tempo. Se assim fosse, quase todo gestor de saúde do país estaria preso, inclusive os ministros e secretários de saúde. Não é o que se vê. O que se vê é justamente o oposto, direitos constitucionais “pétreos” negados pelo próprio poder que o “assegura”. É ou não isso uma grande impostura?
            Vejam, por exemplo, a nossa Unimed Fortaleza. Uma amiga precisava de uma endocrinologista que atendesse pela Unimed Fortaleza. Ela paga mensalmente à Unimed Fortaleza cerca de duzentos reais. E o que lhe diziam as atendentes dos endocrinologistas credenciados da Unimed Fortaleza? Diziam que consulta pela Unimed Fortaleza só para daqui a três ou quatro meses, e que consulta particular já para o dia seguinte. E, como com os endocrinologistas, para todas as outras especialidades há médicos que permanecem credenciados à Unimed Fortaleza mas que não mais atendem pela Unimed Fortaleza. Valor da consulta particular: - duzentos reais, precisamente o valor que minha amiga paga por mês à Unimed Fortaleza, como já disse.
            Dirá alguém – sempre há alguém a retrucar algo, e é bom mesmo que haja – que a Unimed Fortaleza não possui credenciados mas, sim, cooperados, já que ela é uma cooperativa e não um "plano de saúde"; uma cooperativa que foi criada com o intuito principal e primordial de proteger o médico da exploração por parte das empresas de medicina de grupo. Então direi que eis aí outra grande impostura: - não importa qual a forma jurídica em que se enquadra a Unimed Fortaleza, a sétima maior empresa do Estado do Ceará, mas sim como seus médicos conveniados se sentem nessa “parceria”. Se se sentissem bem e protegidos da exploração das outras empresas de medicina de grupo, não estariam se negando, de forma velada e cínica, a atender seus pacientes. Ao que parece se tornou, ela própria, exploradora do trabalho de seus médicos cooperados. Estes, por sua vez, fomentam ainda mais tal impostura ao permanecerem credenciados quando a atitude coerente seria se desvincular ou fechar seus consultórios.
            A ironia de tudo isso é a seguinte. Agindo dessa forma, muitos médicos “cooperados” da Unimed Fortaleza estão criando e pondo em prática, de maneira informal e unilateral, o plano consulta zero. Os clientes da Unimed Fortaleza ainda não foram informados de que providenciaram alterações em seu plano de saúde. Deveriam ser! Falta, portanto, à Unimed Fortaleza e a seus médicos cooperados a hombridade de iniciar a debater em seus círculos mais íntimos e com seus cooperados o que está a ocorrer na prática, para depois trazê-lo à luz da verdade e da clareza. É lícito. É justo. Os clientes que nela acreditam agradecem, bem como os cooperados que queiram continuar acreditando que vale a pena estar a ela associados.