terça-feira, 7 de agosto de 2012

Alhos e bugalhos

          Não pude deixar de rir até não mais poder ao ler a coluna de ontem do jornalista Lustosa da Costa no jornal Diário do Nordeste. Com efeito, sua coluna é uma piada, às vezes um primor de humor negro. Hoje o homem resolveu escrever sobre infidelidade e convivência
         Começa ele dizendo a seguinte pérola, que até então era do desconhecimento de todos: "nem todo marido enganado mata mulher e amante; ou expulsa a mulher de casa." E passa a relatar a interessante história de certo corno conhecido por solteirão convicto, até conhecer a musa que o levaria ao altar e, na seqüência, às bem postas e frondosas guampas. Ainda que trancada em casa a sete chaves após o enlace, o único filho que lhe deu, confessou-o antes de ser expulsa do lar, não era seu. Quis matá-lá, no que foi impedido por vizinhos. Reteve consigo, entretanto, o fruto do pecado, por amor e apego ao pequerrucho. 
          Prova, então, nosso exímio escritor que há, de fato, homens que expulsam de casa a mulher infiel, mas guardam consigo o filho da infidelidade. Em outras palavras, amam o fruto mas odeiam a árvore. (Não vejo outra forma de entender o caso.) 
          Ao final da coluna ele conta de um amigo que, próximo ao fim da vida, confessou-lhe que os cinco filhos que tivera com a mulher haviam sido gerados com a "colaboração de 'terceiros'". Difícil para o leitor discernir se a colaboração teria sido de "terceiros" ou de "quintos", ou de "quartos", ou de "segundos", ou de um único. E eis aí todo o conteúdo do que tinha a dizer ontem esse insigne articulista da imprensa local.
          Ia esquecendo o principal. Para embasar sua tese, exposta logo ao início, o colunista faz uma referência a "Dom Casmurro" de Machado de Assis. Diz ele: "em Dom Casmurro, de Machado de Assis, o personagem Escobar largou Capitu e o filho, quando soube que ele não era o pai". Ora, comete um erro crasso o ilustre escritor. O marido de Capitu do romance "Dom Casmurro" e que suspeita não ser o pai de seu filho Ezequiel é Bentinho e não Escobar; este é, nada mais nada menos, que o suspeito de lhe traçar a mulher, dúvida que lhe consome as entranhas até o final e que para muitos estudiosos da obra não se dissipa até hoje. 
          Deixando de lado o Machado e seu atormentado Bentinho, confundido por nosso ilustre escritor como o próprio amante e comedor da mulher alheia quando na verdade era a vítima indefesa, estou até agora me perguntando a que veio o nosso Lustosa da Costa. Não lhe vi nenhum propósito no texto. Sua tese não é tese, é fato sobejamente conhecido e até trivial; nem seu personagem é o verdadeiro, já que confundiu alhos com bugalhos e acabou prestando um desserviço à literatura brasileira. Será que trouxe tudo isso à baila enlevado por tão lamentável fato ocorrido acho que ontem, quando um professor de música matou a mulher a tiros e facadas? Não saberia eu dizer. 
          Devo alertar ao expoente escriba que em sua primeira história da coluna de hoje o marido só não matou a mulher porque os vizinhos o impediram, de modo que lhe sobrou o amigo de sua segunda história , que presumo já morto, que não se incomodou em criar os cinco filhos de sua mulher gerados em não flagrados adultérios, e o Bentinho do Machado, grotescamente confundido com Escobar, o amigo eternamente suspeito em caso jamais esclarecido. 
          O diabo é que o nosso Lustosa, quando não está a escrever essas farináceas letras, nos afronta a inteligência e o livre pensamento com suas eloqüentes máximas que revelam seu amor incondicional ao famigerado ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, seus asseclas, seus comparsas e suas crias. Temos aí quase um retrato do jornalismo local. 
          Mas o principal eu ainda não disse: onde estava, em nome da virgem Maria, a cabeça dos revisores desse Diário que não surpreenderam a grotesca topada de seu nobre colaborador? No mundo da lua, quiçá, como a do próprio, em devaneios indizíveis e delirantes...