quinta-feira, 23 de agosto de 2012

O marido que (não) sabia demais

          Disse ontem a senhora Sally Thompson, uma das integrantes da comissão que analisa pedidos de liberdade condicional por parte de condenados nos Estados Unidos da América (http://diariodonordeste.globo.com/noticia.asp?codigo=344039&modulo=965):
           -"Apesar de seus esforços positivos durante o cumprimento da sentença, a libertação neste momento prejudicaria enormemente o respeito pela lei e caracterizaria como corriqueira a trágica perda de vida causada por seu crime hediondo, despropositado, violento, frio e calculado".


          Ela se referia ao pedido de liberdade condicional feito por Mark Chapman, assassino confesso de John Lennon. Foi seu sétimo pedido; todos indeferidos. Ele está preso desde 1981 e foi condenado a prisão perpétua com possibilidade bienal de liberdade condicional após 20 anos de pena. 
          Vejam o que pensa a sociedade estadunidense sobre a lei, pensamento materializado no discurso da senhora Thompson. Por "esforços positivos" entenda-se o criminoso estar se esforçando no cárcere para demonstrar que estaria apto a voltar ao convívio produtivo na sociedade. Estaria "recuperado" de seu ato tresloucado; estaria "reabilitado". Mas qual! Demonstrar que a punição é exemplar é o maior objeto da lei, a fim de que seja temida e assim respeitada, importa e interessa muitíssimo mais à sociedade e aos que trabalham duro e honestamente. O senhor Chapman não faz mais do que sua obrigação em bem se portar enquanto preso está. Tirou a vida de um ser humano. Deve pagar por isso.
          Bem se vê que das duas uma: ou nossos juristas são gênios com a chave da solução sobre como penalizar o criminoso, ou são uns imbecis cheios de teorias fantasiosas e repletas de beleza retórica, mas de nenhum resultado prático. Se as penitenciárias norte-americanas estão cheias é porque lá a lei pune e trancafia o bandido. Aqui estão cheias as celas das delegacias e penitenciárias por uma outra razão: o governo trata os detentos como alimária nojenta e os deixa apodrecer em espaços exíguos e desumanos. Por isso estão a serviço do governo uma penca de juristas a vender a idéia nefasta de que cadeia não resolve o crime. Não resolve mesmo. Mas é ela que livra a sociedade de bem da ameaça de bandidos e facínoras conhecidos e incriminados em inquéritos científicos e tecnicamente quase perfeitos. Afinal, não queremos gastar com penitenciárias e cadeias. Como abaixo da linha do Equador a vida não tem lá essa importância toda, o governo deixa os bandidos matarem e ele mesmo se encarrega de tratá-los como ratos. O falso discurso dos juristas é só uma outra manobra de nosso eterno faz-de-conta. 
          Pois o Supremo Tribunal Federal –não, não! em maiúsculas não! – o supremo tribunal federal mandou soltar o senhor Regivaldo Pereira Galvão, o "Taradão" – atentem para a alcunha do elemento –, um dos assassinos da missionária Dorothy Stang ocorrido em 2005 (http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=1173301). Vê-se que as "instâncias" jurídicas brasileiras servem para absolutamente nada. Ou, melhor, servem a beneficiar os criminosos. O senhor Chapman matou em 8 de dezembro de 1980 e foi condenado em 1981. Está preso desde que foi capturado, antes de ser condenado.
          Mas deixemos nossas mazelas jurídicas e falemos de nossas mazelas políticas. Os leitores hão de estar acompanhando, embasbacados como eu, a história da mulher do vereador que estava inscrita no Bolsa Família. Com uma renda familiar de mais de 9 mil reais, ela se inscreveu como pobre para receber o benefício e fez 8 saques de – pasmem! – 32 reais. Lesou e enganou o povo brasileiro em 256 reais. O marido jura de pés juntos – de nada sabia. (Quem foi mesmo que teve a genial idéia de usar deste estratagema para livrar a pele? Desde então ele tem sido requisitadíssimo!) Há, além desta, outras denúncias contra o edil e sua família.
          Em seguida a empresa da vereadora Toinha Rocha, autora das denúncias, foi alvo de um atentado a bala na madrugada de hoje (http://tablet.opovo.com.br/app/opovo/destaque/index/2012/08/23/3958041/fachada-da-autoescola-de-vereador-do-psol-amanhece-cravejada-a-bala.shtml), horas depois de o incauto edil descer do plenário da câmara municipal a fim de realizar sua defesa em prantos, em invocações hereges ao santo nome do Criador e repleta de acusações e admoestações públicas à sua gananciosa mulher. 
          O detalhe é que os vereadores Leonelzinho Alencar, marido da miserável do Bolsa Família, e Toinha Rocha brigam por votos de Messejana, um bairro dessa pobre Fortaleza. A coisa toda se assemelha a uma disputa por um curral eleitoral, com direito a lances e recursos de toda sorte a fim de angariar votos para a eleição que se avizinha e de destruir o oponente ameaçador. Eu disse que a coisa "se assemelha" porque posso estar equivocado. Que a senhora Alencar recebeu ilegalmente recursos destinados aos miseráveis da nação não parece haver dúvida, pois sua inscrição consta no programa do governo federal. Não havendo como negar, o que se faz? Nega-se e se repreende publicamente a mulher, ora bolas! Mais: dá-se a ela o apoio incondicional de marido fiel, cúmplice, digo, companheiro e solidário na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, na mentira e na verdade. (Desisti de "cúmplice" porque concedo ao marido o benefício da dúvida no referido episódio.) Como diria Nelson Rodrigues (Recife, 23.08.1912 - Rio, 21.12.1980), o marido não deve ser o último a saber – o marido não deve saber nunca! (Bem lembrado a propósito de seu centenário comemorado hoje!) O diabo é que, se o marido não sabia, outros sabiam e daí para seu conhecimento é um pulo.
          O que apõe uma nota de terror ao já terror da ganância por tão pouco, revelada na atitude da senhora Adriana Alencar, mulher do vereador Alencar, são os tiros na fachada da empresa da oponente. Quem poderia ser o autor intelectual do fatídico ato? A bem da verdade qualquer um. Correligionários do Alencar, com ou sem o seu conhecimento e anuência? A própria vereadora, usando de estratégia arrojada e ousada para incriminar o rival? Eleitores de um ou outro lado agindo à revelia? Não importa. A violência se achega à nossa campanha, como se estivéssemos em, sei lá, 1910. 
          Mas o que mais nos embasbaca é a cristalização da alma do brasileiro comum na atitude da senhora Adriana Alencar. Essa extrapola toda e qualquer tentativa de análise simples, intempestiva e temperamental. Com a palavra o Darcy Ribeiro.