sábado, 25 de agosto de 2012

Ardiloso faz-de-conta


          Foi o Assis Chateubriand quem disse: " Se quiser ter opinião, compre um jornal".  Ele queria dizer, na verdade, que para influenciar a mente das pessoas o sujeito teria de necessariamente ser proprietário de um jornal. Para ele, opiniões restritas a círculos de amigos ou a pequenos grupos sociais nada significavam nem em nada interfeririam no modo de pensar das pessoas, ao passo que de posse de um veículo poderoso como a redação de um periódico o sujeito poderia fazer e acontecer.
          Nada mais belo que a livre imprensa, assim como nada mais belo que a livre empresa. Por que também não dizer "nada mais belo que o livre governo!" ou "nada mais belo que a independência, a liberdade mútua, dos poderes da república!"? Se todos são livres, quem os controla? Resposta: eles controlam-se entre si; fiscalizam-se entre si. Caberia, a essas alturas do argumento, a seguinte questão: o que se poderia fazer para liberar cada um desses elementos do controle exercido pelo outro? Resposta: cada um se calaria ante o que faz o outro. Em outras palavras, cada um se venderia ao outro. Instalar-se-ia, então, a sociedade do faz-de-conta. 
          Não vejo porquê esses senhores defendem o controle externo da imprensa, por exemplo. É um temor desnecessário e infundado, o seu. Tudo está concatenado para se fazer muito barulho por nada. Já tudo está arranjado. Ninguém precisa se acabrunhar nem se preocupar. Todos estão a cuidar de todos. Por exemplo, os empresários se pelavam de medo das "esquerdas". E o que aconteceu foi que descobriram o inimaginável: - com as "esquerdas" no poder eles perceberam que poderiam ganhar ainda mais dinheiro. As "esquerdas", ao que tudo indica mais venais e corruptas do que seus arqui-rivais da "direita", promoveram um crescente no ciclo de negociatas do poder. 
          Que fizeram os empresários? Nada. Ou, melhor, participaram cada vez mais na política das "esquerdas", financiaram-nas cada vez mais, e receberam em troca mais e mais negócios rentáveis. Pouco importa a eles o que haja na educação, na saúde, na segurança pública. Eles continuarão vivendo em seu "país" particular, no Brasil paralelo que as "esquerdas" odeiam, mas que, ironicamente, através de suas próprias mãos ajudam a manter e até a medrar com mais pujança ainda. Continuam tendo suas escolas, hospitais e segurança particular. Dane-se o Brasil real! Não dão a mínima. 
          Paremos. A crônica está uma confusão só. Comecei falando no Chateubriand porque ia falar da imprensa. Alguém com o mínimo de bom senso que se dignar a ler o editorial da edição de hoje do jornal O Povo acabará por se indignar (http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2012/08/25/noticiasjornalopiniao,2906609/sistema-de-cotas-justica-social-e-reforco-a-democratizacao.shtml). Em suma, o editorialista defende, como muitos outros insensatos, o sistema de cotas para as universidades. Diz ele que "administrações passadas" foram as responsáveis pelo recrudescimento do fosso social brasileiro por terem sucateado a rede pública de ensino e dado ênfase ao ensino privado. E completa sua argumentação desculpando o governo: "Contudo, a reconstrução da rede pública, como um todo, exige dispêndios financeiros vultosos e um intervalo de tempo cuja duração desemboca em prejuízos irreparáveis a milhares de alunos que só podem contar com o ensino gratuito. Assim, até que as instituições públicas de ensino alcancem o nível de qualidade exigido vai se apelar para o recurso de cotas sociais", etc. etc. etc. 
          Atente-se que o sistema de cotas nada mais é do que pôr nos bancos das universidades federais pessoas sem mérito e que alunos melhores ficarão de fora. Esses serão obrigados a ir para as universidades e faculdades particulares. Quem vai ganhar muito dinheiro com isso? As instituições financeiras que vão financiar muitos desses jovens.
          Observe-se que o tempo e os custos para se recuperar a rede pública são as justificativas, segundo o editorialista, para se lançar mão desse sistema que assassina o mérito. Há urgência. Os prejuízos serão irreparáveis. Se o exame admissional e/ou curricular não mais será o critério utilizado para levar o estudante à universidade pública, que qualidade terá o estudante dessa? Conseguirá esse estudante acompanhar e concluir seu curso? E, em concluindo, que qualidade terá esse profissional? Estará ele apto a concorrer ao mercado de trabalho? Ele o absorverá? Enfim, o sistema de cotas fará a justiça que pretende? mitigará o "prejuízo irreparável"?
          O sistema educacional brasileiro, além de ruim, virou laboratório. O tempo evidenciará os resultados desse inusitado e aparentemente irresponsável experimento. Quanto tempo durará ele? até que o resultado dos vultosos recursos financeiros surta o efeito esperado? Há um projeto sério em andamento que vise recuperar de fato e sem enganação a escola pública brasileira? ou é tudo apenas mais um enorme e ardiloso faz-de-conta?

Um comentário:

  1. Confesso que não tenho ainda opinião formada sobre a conveniência do sistema de cotas. Por um lado, concordo que tal medida é de constitucionalidade duvidosa. Por outro, pesquisas e avaliações realizadas aqui no Brasil e no exterior mostram que o desempenho dos alunos cotistas tem sido igual ou superior aos dos não-cotistas.

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