sábado, 4 de agosto de 2012

Não vai dar tempo! Não vai dar tempo!

          Dizia-me o meu amigo Mauro Oliveira, o homem do "Kamarada": "Não vai dar tempo! Não vai dar tempo!" E completava: -"Um homem só é verdadeiramente inteligente e feliz se buscar obsessivamente uma boa qualidade de vida!" Saíamos da piscina do clube, após os 2 mil metros. Era o quê? terça ou quarta-feira, acho. Era cedo, algo em torno de oito da manhã. O disco solar aspergia uma linda luz branco-amarelada ao céu azul turquesa límpido e fresco. O ar estava leve e uma suave e fria brisa nos tocava suavemente o corpo e balouçava as copas das árvores e arbustos dos jardins do clube e da rua. 
          Mauro exorcizava o fast-living, o corre-corre, o modo "moderno" de se viver; queria o bem viver, o desfrutar daquele sol, daquela água, daquele vento, daquele céu; do mar que se espalhava ali, à nossa frente, infinito no horizonte onde se encontravam, na curva da Terra. Ainda que zunissem os carros da metrópole em sua inexplicável pressa, Mauro deleitava-se em fazer proselitismo à lentidão no viver. Que corressem, bolas! Não sabiam o que estavam perdendo!...
          E insistia: -"Não vai dar tempo! Não vai dar tempo!" E por que não daria tempo, se Mauro não estava disposto ao ritmo? ah, esse meu Mauro! Um traquinas de marca maior! Um gozador! Um falso vilão e mordaz vivedor! E sorria o seu sorriso mais amplo onde luzia e refulgia sua privilegiada inteligência. Daria tempo para tudo; e, se não desse, paciência! Que é o tempo na instância das pressões que são aplicadas a nós por paradigmas dos ditos "tempos modernos"? O tempo é tudo e, volto a dizer, o tempo é tudo! Dizem que tempo é dinheiro. Ora, se para o presente momento o tempo é tudo e se tempo é dinheiro, então o dinheiro é tudo.
          Descemos, Mauro e eu, ao mar, ali, à frente do clube. Queria que eu conhecesse como é nadar no mar. Entre os dois quebra-mares iam setecentos e cinqüenta metros; um piscinão de águas mornas e serenas, sem correntezas, sem ondas, sem recifes. E Mauro queria nadar próximo à beira, próximo à margem. Sugeri entrarmos mais ao largo, nos extremos dos quebra-mares, onde supunha águas ainda mais calmas. Meu amigo foi enfático, lembrando-me os perigos do mar: -"O mar é o mar!" E repetia, me olhando nos olhos com aquele seu maroto olhar: -"O mar é o mar, meu chapa!" 
          Saímos para banho em água doce, a retirar a areia dos pés, beber água de côco, limpar o equipamento e se refestelar da paisagem. E Mauro: -"Trabalho só às 10! Não vai dar tempo! Não vai dar tempo!" E assim nos despedimos, ansiando o dia seguinte.