quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Bem debaixo de nossos narizes

          Outro dia falei das imposturas de nosso tempo (http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2012/08/imposturas.html).
          Eis que estou hoje a almoçar e ligo a TV. Via o jornal. A matéria dava conta de crimes cometidos por jovens menores de idade. Foi o seguinte. 
          Há cerca de um mês, não me lembra onde, mas aqui mesmo nesse Brasilzão, um garoto de dezesseis anos entrou numa locadora de vídeo empunhando uma arma de fogo na intenção de realizar um assalto. Segundos depois outro jovem, também menor, estava morto ferido por um tiro no peito. As câmeras de segurança filmaram toda a cena, que foi exibida e reprisada mais de uma vez, e mesmo o momento em que o assaltante deflagrou a bala que atingiu o peito do garoto, funcionário da casa. (Uma câmera de segurança não provê segurança nenhuma já que não impediu que o garoto fosse alvejado, nem vai contribuir em nada para uma punição exemplar do agressor, como logo se verá.) Eis o resumo do fato.

          Conseguiu-se uma autorização do juizado de menores para entrevistar o jovem assassino. E disse duas coisas que me encheram de horror. Verei se as lembro textualmente. Acho que não consigo lembrar as palavras exatas, mas a primeira foi mais ou menos assim:
          -"Eu queria uma moto. Pedi a moto a meu 'vô e ele não me deu; pedi a meu pai e ele não me deu; pedi à minha mãe e ela não me deu... Avisei a eles que ia dar um jeito de comprar a moto... Avisei!..."
          Não sei se percebem o tom de ameaça que está aí implícito. Ou, melhor, não está implícito – está deslavadamente explícito. Não sei se percebem também que aí fala um garoto de dezesseis anos que das duas uma: ou nunca foi contrariado, nunca lhe disseram "não"; ou nada respeita nem nada será capaz de lhe demover de realizar seus desejos mais tolos. Ou ambos. 
          A segunda estarrecedora fala do menor assassino foi quando lhe perguntou o repórter o que ele achava de estar preso e de poder pegar a pena máxima, três anos detido num desses alojamentos da famigerada FEBEM para se submeter a medidas "sócio-educativas". Respondeu friamente e secamente: -"Estou vivo. Melhor que estar morto ou aleijado..." (Menores criminosos não são presos no Brasilzão – ficam "apreendidos".) Está, nesse jovem, oculta sob o tão tênue véu de sua gelada voz, a personalidade do psicopata?
          (Pergunto a meus entediados leitores: quantas imposturas os senhores já lobrigaram nessa trágica história até o presente momento?)
          Há mais. E pior.
          Corta-se a cena em que se entrevista o garoto, cuja face fica permanentemente encoberta a fim de resguardar sua identidade para "protegê-lo" sabe-se lá de quê ou de quem, e eis que aparece um "educador", o senhor Mário Sérgio Cortella, a falar. Diz ele fundamentalmente o seguinte: diminuir a idade penal no Brasilzão não vai contribuir em nada para diminuir ou prevenir a criminalidade, haja visto os Estados Unidos da América, onde não existe a maioridade penal e onde está a maior população carcerária do mundo.
          Vejam que um discurso imponente pode conter uma infinidade de imposturas a serem reveladas. O que se há de revelar sob a fala autorizada de tão exímio "educador"? O que nela estaria a merecer questionamentos e esclarecimentos? Cabem algumas perguntas, basicamente duas. Primeira: não seria a elevada população carcerária estadunidense reflexo de suas rígidas leis e de seu sistema judiciário mais ágil e eficiente? ao invés de reflexo de uma criminalidade elevada ou "on the rise", como quis fazer parecer o ilustre "educador"? (Não pensem os queridos e pacientes leitores que minhas aspas vêm a propósito de revelar algumas das imposturas, por favor!)
          A segunda indagação, necessariamente elaborada a fim de preencher nossa ignorância em todos os pontos e conceitos no vasto mar de conhecimentos da ciência pedagógica, diz respeito ao seguinte:...
           Uma pausa. De fato a segunda pergunta não seria bem uma pergunta, mas uma ousada e topetuda lucubração. Sabe-se que esse é o país dos ladrões. Lembre-se o sambinha do Bezerra da Silva que já dizia não sei bem em que ano:
          "Se gritar pega ladrão, 
          Não fica um, meu irmão..."
          E mais ainda dizia, a fim de se dirimir alguma dúvida quanto ao estrato social onde se encontram os maiores: 
          "Aqui realmente está toda a nata
          Doutores, senhores, até magnata
          Com a bebedeira e a discussão
          Tirei a minha conclusão:
          Se gritar pega ladrão não fica um, meu irmão!"
          Cresce o tráfico de drogas, pessimamente combatido pelas autoridades; cresce o número de homicídios, já em índice de zonas de guerra; cresce, em suma, a violência. Em contrapartida cresce assustadoramente a incapacidade da justiça de fazer justiça; "cresce" uma polícia arcaica que caminha a se tornar paleozóica, usando método nenhum de investigação, a anos-luz de distância de uma polícia científica; leis repletas de brechas e badulaques que visam beneficiar os grandes criminosos; judiciário lentíssimo a bem do crime; múltiplas instâncias jurídicas que não se valorizam; enfim, o caos jurídico a facilitar a sobrevivência impune de tantos e tantos e tantos criminosos – ladrões, assassinos, traficantes, políticos corruptos, larápios do erário... Assim, conclui-se que onde grassa o crime necessariamente se deve ter uma elevada população carcerária mesmo, se a justiça funcionar. 
          O insigne "educador" parece não perceber que o Brasilzão tem a maior população carcerária potencial do planeta que, tornada real, sobrepujaria em muitas vezes, sem a menor dúvida!, a dos norte-americanos. Faltou ao nobre pedagogo enfatizar a incompetência e irresponsabilidade de sucessivos governos na gestão da Educação do povo brasileiro e que a existência de uma justiça atuante é a primeira grande lição que a criança e o jovem aprendem sem olvidar. Não é possível se educar sem justiça; ambos caminham lado a lado. Cresce a noção de que a justiça existe para corrigir, quando na verdade ela deveria estar aí para punir. A correção que evita o crime é a punição do jovem e da criança na escola e no lar. O "educador" limitou-se a dizer que estamos sofrendo as consequências de "nossa recente desatenção ao jovem". Ninguém se digna a bater no governo.  Como dizia o Nelson Rodrigues, "nada mais cínico, nada mais apócrifo do que a entrevista verdadeira". Por isso inventou a entrevista imaginária no terreno baldio, tendo por testemunha única e exclusivamente uma cabra vadia. A entrevista imaginária seria "a única maneira de arrancar do entrevistado as verdades que ele não diria ao padre, ao psicanalista, nem ao médium, depois de morto".
          Também faltou mais uma vez à imprensa, desta vez a do Sul do Brasilzão, transpirar um mínimo de indignação. Os âncoras enfatizaram o drama das famílias dos jovens envolvidos, da vítima e do assassino, e nenhum comentário se fez sobre a hediondez da tragédia maior: a do Brasilzão onde se desenrola diariamente todo esse caos, bem debaixo de nossos narizes. 
          

"A vara e a disciplina dão sabedoria, mas a criança entregue a si mesma vem a envergonhar a sua mãe" (Prov., 29:15)

"Corrige o teu filho, e te dará descanso, dará delícias à tua alma" (Prov.,29:17)