sexta-feira, 31 de maio de 2013

O governo quer que você morra


                          É muito interessante a relação que nossa nobreza-burguesia tem com o sistema de saúde pública do país. Também muito interessa a relação deste com os homens do Poder, os mesmos que o gerem e estabelecem suas diretrizes e financiamento.
                          Estou a ventilar o assunto a propósito do acidente de helicóptero onde o empresário foi gravemente ferido e acabou perdendo a perna direita, e que permite que deslindemos a lucubrar sobre essas coisas. A propósito do “a propósito”, que tal se nos debruçássemos sobre as notícias que correram os portais jornalísticos e através da imprensa em geral tão logo ocorreu o acidente? Iniciemos por aqui.
                          Hoje em dia, se o sujeito se postar nu à esquina com uma melancia amarrada às costas, será uma questão de segundos até que o mundo inteiro tome conhecimento do fato. As redes sociais são, aos dias de hoje, um canal escoador de informação, da mais “peba” – e que costumo denominar de “informação peito de homem” – à mais necessária. A imprensa escrita mantém na rede mundial de computadores seus portais, onde as notícias são anunciadas em cima da hora, no momento do fato, às vezes antes de ele ocorrer. Foi o que aconteceu ontem quando do acidente com o empresário.
                         Anunciou-se que o homem tivera a perna amputada no momento do trauma e que o membro seria reimplantado no Instituto Dr. José Frota (IJF). Vejam que o reimplante de um membro que sofre amputação traumática é uma questão técnica e uma questão de recursos humanos, isto é, há que se saber se está disponível o pessoal qualificado e se as condições “biológicas” do membro permitem essa tentativa. Assim, a imprensa não deveria divulgar o reimplante se ainda não havia certeza de que isso seria possível. O anúncio precipitado é consonante à impressão que se tem da imprensa, a de que ela jamais perde a oportunidade de “sensacionalizar” qualquer matéria com potencial para tal.
                       Após essa notícia, que já nos empresta a noção do drama da vítima e de seus familiares, seguiram-se outras menos espalhafatosas. Uma delas dava conta da transferência do paciente para hospital “particular” e aí se inicia a exposição da outra faceta dessa história: o rico empresário que recebeu os primeiros socorros em hospital público e que preferiu, depois, ser transferido para tratamento definitivo em outra unidade de saúde fora da rede pública.
                      Fontes seguras me garantiram: - além do paciente e sua enorme comitiva, foi “encaminhada” ao outro hospital uma bandeja contendo material cirúrgico adequado para a realização de amputação. A pergunta inevitável é: o hospital da rede privada não possui o referido material em seu armamento cirúrgico? Ou a bandeja acompanhou o paciente na ambulância para uso nalguma eventualidade? Se essa foi a razão, não teria sido mais lógico operar o paciente no hospital público que o recebeu?
                     A mais óbvia pergunta é: por que o homem não foi operado no IJF? Novamente fonte confiável me assegurou: havia uma dezena de médicos, convocados pela família, na sala da Emergência do IJF onde ele foi socorrido. E, mais, um deles funcionou de coordenador do atendimento, ainda que fosse um sem as devidas qualificações em atendimento a pacientes politraumatizados. Apesar disso, medidas foram tomadas – como, por exemplo, a instalação de concentrado de hemácias – sem a correta indicação e sem que esse coordenador a tivesse indicado. Conclusão, não se sabe até agora quem, qual daqueles médicos aliciados pela família do paciente, foi o responsável por tal conduta. Então, o cenário que se viu foi o de uma invasão de médicos não pertencentes ao quadro do hospital a atender um paciente nobre-burguês. Das duas uma: ou os médicos da casa não são competentes para atender nobres-burgueses, ou não são competentes para atender ninguém, quaisquer que sejam os valores de sua conta bancária e independente do patrimônio do freguês. (Será que estão a cogitar trazer os médicos cubanos para também atender nas unidades de Emergência terciárias das grandes capitais?) 
                     Por fim, a imprensa anunciou ainda ontem em seus portais a frustrada reimplantação  da perna do paciente e a confirmação da perda de seu membro, uma tragédia pessoal sem tamanho em homem jovem e no vigor de sua vida produtiva. (Para todos os outros pacientes do IJF que são vítimas de perda de membros superiores e inferiores em decorrência da violência grassante contra a qual nada se faz, o futuro é incerto ou quase certo. Afinal, são pobres, às vezes miseráveis. Sua saída é o governo. E tudo aquilo de que depende o cidadão sob os cuidados deste ente impessoal e monstruoso que é o governo no Brasil é da pior qualidade. Então, é miséria gerando miséria.)
                    Para aclarar sobre o que faz a imprensa local, noticiou-se hoje no jornal  O Povo que o empresário vítima do acidente de ontem saiu entubado do IJF para o Hospital São Mateus. Fonte fidedigna que trabalhou no atendimento inicial do paciente garante: - em nenhum momento ele foi entubado. Em que pese o mau prognóstico para a viabilidade de seu membro inferior direito, o estado geral do paciente não demandou, em momento algum, a intubação. Em suma, a imprensa informa pouco e mal. (Eu, que não sou besta, em casa já duvidava de quase tudo o que era publicado nos portais. Hoje veio a comprovação dos disparates divulgados.) 
                    Conclusão: - por isso não faltam aqueles que juram que essa história de violência descontrolada em Fortaleza não passa de mais uma manobra midiática. A imprensa deixa muitíssimo a desejar em quase tudo que informa, exceção feita a uns poucos jornalistas sérios. Quanto à sua orgia com o Poder, nem falemos. A imprensa do Ceará é uma prostituta velha e decadente.
                    Já a nobreza-burguesia bem poderia começar a pensar em doar recursos para os hospitais públicos locais. Afinal, quando ela precisa, são eles quem lhe prestam o primeiro atendimento. (Lembrar o acidente de carro ocorrido em 1994 em que foi vítima o já falecido Edson Queiroz Filho, quando o mesmo foi socorrido para o Hospital Geral de Fortaleza, e o acidente em setembro de 2006 com o helicóptero que transportava o então prefeito de Quixadá, Ilário Marques, socorrido no IJF.) É possível que o nobre-burguês alegue que suas empresas já pagam muito em impostos que deveriam ser destinados a esse fim. 
                    Mas, como é sabido até dos bebês que ainda estão por nascer, os governos no Brasil querem mesmo é que você morra ao adentrar um hospital público em busca de socorro. Com a ajuda desses recursos, esses senhores e senhoras poderiam começar a pensar em não se deixar transferir para hospitais particulares quando dos acidentes de que são vítimas em suas máquinas maravilhosas...