quarta-feira, 7 de agosto de 2013

A solidão à vista


               Dizem por aqui, no Ceará, que se o sujeito anda tendo azar é porque andou pisando em rastro de corno. (Nunca entendi o porquê dessa aversão ou temor de o sujeito vir a ser corno, mas o mito do "nordestino cabra macho" pode explicar essa atrofia mental.) Pois o meu azar foi receber, justo à noite de sábado, a ligação do Amorim. Pelo que ouvi, deduzi: - tomara todas e mais algumas. Não é a primeira vez que o homem me bate o telefone justo na hora mais imprópria e àquele estado lamentável. (É um pau d'água incorrigível.)
              Que queria ele?, perguntar-me-ão os mais afoitos e curiosos. Queria que eu parasse de "bater" no governo. Imputei ao amigo uma ignorância sem tamanho. Acha ele, em sã consciência, que o que escrevo é lido por alguém? É ingênuo o meu amigo. A verdade é a seguinte: meu blog, o lugar onde escrevo minhas inquietações e onde exponho minhas idiossincrasias, é humilde, não tem pretensões maiores, nenhuma pretensão. E pedia: -"Dá um crédito pros caras, bicho!..." A explicação era a mais cristalina possível: - ele, bêbedo, pensava estar dialogando com o Fábio Campos, do jornal O Povo. O Campos, esse sim, repercute. Um dos jornalistas mais corajosos do estado. 
               Confesso: - eu estava tomando uma cerveja à hora da ligação. A conversa, a princípio, me pareceu ter alguma lógica, mas depois se tornou maçante. Que fiz? Desliguei-lhe na cara. E ele ficou a me ligar outras trinta vezes. Não atendi a nenhuma. Por esse ridículo episódio os amigos podem ver o que sucede ao pobre indivíduo que quer somente e unicamente o sossego. E o que sucede ao que quer somente e unicamente o emprego.
                O amigo não se conformava com o que eu escrevi sobre o assassinato dentro do hospital. Vejam os pouquíssimos leitores em que nos tornamos. O paciente que recebe alta ser morto à saída do hospital ou ao meio fio é de uma diferença que transcende qualquer coisa que não consigo atinar. (Eu ia dizer indiferença, mas dá no mesmo.) Talvez eu seja um imbecil nato, irremediável, incurável, admito. Amorim insistia: - o homem fora morto a tiros fora das dependências do IJF. (O IJF é um inferno frio, um inferno a zero grau, se é que me entendem.) Eu negava, dizia que não, e o homem insistia: - o assassinato aconteceu no meio da rua! Assassinato no meio da rua pode, no hospital ainda não. (É uma questão de tempo.)
               Paciência. Por aí se vê como agem os governos quando envoltos em maus lençóis. E, fazendo um cruel trocadilho, quando o governo está em maus lençóis, qual o tipo de pano que cobre o reles mortal? O fato incontestável é que nem mais ligamos que se mate. Queremos livrar a nossa cara, ou a de quem servimos. E ponto final. Tornamos-nos uns canalhas. Somos seres torpes e vis. Ainda agora não me arrependo de ter-lhe batido o telefone às fuças. 
               Esqueci de contar que, no mesmo sábado, mais cedo, bate outro telefone. Era o Guimarães. Estava possesso. Tem umas terras de herança no Maranhão. (É afilhado do Sarney.) Descobriram gás natural em seu subsolo. As terras que valiam cinco milhões passaram, segundo ele, a valer milhão e meio, porque essas riquezas são da União. Botou uma tropa de advogados e o padrinho pra encampar a batalha. Não houve jeito. O governo não arreda pé. Para isso construiu uma legislação imbatível e indubitável. É uma questão julgada antes de transitar. Das duas uma: - ou o Guimarães está tramando uma ou é um tolo. Depois dele veio de lá o Amorim e sua conversa de bebo. 
                Contei, tempos atrás, sobre o amigo que me "acusou" de não ter sido "testado". A quem não se lembra ou não leu o que escrevi, resumirei rapidamente. À época, eu "batia" nos canalhas que de tudo faziam para permanecer à frente da administração da Unimed Fortaleza. Ele, o amigo, era um deles. Pois os acusei, sem aspas, de usarem de canalhices para se manter onde estavam. O amigo então disse: -"Você fala tudo isso porque ainda não foi testado..." Ora, o amigo estava sendo claríssimo! Ninguém, até então, tentara me corromper. 
               O que ele não sabia é que haviam tentado, sim, me corromper. Não sabia que eu dissera "Não!" a meu corruptor. E disse-lhe mais. Disse-lhe: -"Meu caro, não posso ter o rabo preso. Se o tiver, com que autoridade vou denunciar canalhas como vocês?" 
               Assim, aviso ao meu querido Amorim: - minha riqueza é minha pobreza. Corrijo, porque não sou pobre. Minha riqueza é minha justeza. Sem perfeição, procuro ser justo, ou melhor, procuro estar dentro do justo. 
               Posso bater. E continuarei batendo.