sábado, 24 de agosto de 2013

Uma faxina para ser feliz


               Tive hoje, há pouco, a certeza: - o amigo Padilha é um homem felicíssimo. E, sendo ele feliz, também o sou. Afinal, os amigos servem-nos à cumplicidade, dentre outras finalidades.  Notem que a felicidade é, aos dias de hoje, algo palpável, tangível, exigível e exibível. Até a ciência do Direito lhe dá importância porquanto aprecia e leva em conta um novo e recente princípio, o princípio da felicidade. Se o sujeito quiser furar todo o corpo com pregos e parafusos a fim de satisfazer um ardente desejo de se encher de penduricalhos e enfeites, por exemplo, o Direito há de apoiá-lo lançando mão do referido princípio. Que o sujeito seja feliz com seus pregos e parafusos. Ninguém tem nada a ver com isso.
               Pois o Padilha, agora percebo, é, talvez, dos homens mais felizes do mundo. Quem diz é o estudo sueco que concluiu que "os homens que limpam a casa são mais felizes" (http://www.ccreativeimage.com/estudo-revela-que-os-homens-que-limpam-a-casa-sao-mais-felizes/). Os que não dividem os afazeres domésticos com a mulher são mais propensos a distúrbios psicológicos e palpitações, diz lá o estudo. Como o Padilha faz todo o serviço de casa – lava a louça, passa, varre, faz faxina, espana, etc. –, sua felicidade deve estar beirando o zênite. Para nós que apenas pomos o lixo lá fora para a coleta, a felicidade do Padilha se apresenta como uma marca desmoralizadora e humilhante.
               Mais intrigante ainda foi a correspondência eletrônica que me enviou o amado amigo Fábio de Oliveira Motta. O homem começou dizendo o seguinte: -"Todos sabem que meu trabalho é trabalhoso" etc. etc. etc. Nada seria capaz de descrever a surpresa que tive ao ler essa fabulosa e incomum declaração. Um trabalho trabalhoso há de ser deveras trabalhoso, de fato. Dei-lhe o desconto. Ele certamente quis dizer que seu trabalho é extenuante e cansativo. 
               Disse mais. Disse que sua labuta é "interminável, quase incessante". Terminava de ler o primeiro parágrafo e me lembrava do Saldanha, o homem obcecado por seu trabalho (http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2012/03/obstinada-obsessao.html). Toda a conversa do homem, do Saldanha, é temperada pela constatação inolvidável: -"Trabalho muito". Diz isso sem nenhum entonação na voz, como se estivesse falando de si para si. Após essa lembrança fui assaltado por uma piedade dolorosa. O sujeito que trabalha incessantemente há de ser, de fato, um pobre diabo. 
                Foi a partir daí que o meu querido Motta passou a se embolorar. Queixou-se de mim, afirmando que eu sumira, desaparecera, estava sempre indisponível. Ora, a contradição é tão evidente que dispensaria qualquer comentário. Se o homem acaba de dizer que seu trabalhoso trabalho é interminável e incessante, estará também dizendo, de outra forma, que para mais nada tem tempo! E se para mais nada tem tempo, como posso ser o sumido? O desaparecido é ele mesmo, ora bolas! Assim, o caro Fábio de Oliveira Motta deixou seu próprio discurso cair no vazio dos que se queixam sem razão, ou com a razão de serem eles mesmos a causa de suas próprias desgraças e desventuras. É bom lembrar que o amado Fábio de Oliveira Motta foi vítima de um sumiço autoimposto ao dia 23 de março próximo passado, dia de comemoração de seus 52 anos. Sim, o homem simplesmente sumiu do mapa. E não somente do mapa. Sumiu do mapa, da rede telefônica e da rede mundial de computadores. Não houve quem o encontrasse. Nesta esquálida Fortaleza onde vivem mais de dois milhões e meio de resignados, eu aí incluído, qualquer sumiço de um ser humano pode significar a tragédia mais possível de cada um de nós. Onde esteve o Motta? Até hoje ninguém sabe, mas, com a graça de todos os santos, a hecatombe não recaiu sobre o amigo. Está vivinho da silva (http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2013/03/maduros-quase-podres.html). 
               Pois há pouco resolvi bater o telefone para o Mesquita. Ele me garantiu: - os cinqüentões somos todos vítimas da "depressão". (Acho que ele se referia a uma tal de "crise da meia-idade". Pergunto: - existe isso?) O Fábio Motta estaria a ser vítima da "depressão" e teria sido a "depressão" a responsável e a causa do sumiço do amigo ao dia de comemoração de seu natalício. Disse o Mesquita que eu, por exemplo, sou um dos poucos que não foram vitimados por essa mazela, o que seria uma coisa assaz incomum. E puxou a sardinha pro seu lado. Ele e outros tantos estarão, neste exato momento e em seus lares, saboreando e lambendo sua cava depressão de cinqüentões. 
               Dito tudo isso, a conclusão mais contundente é a seguinte. O Padilha, que nunca sofreu de depressões aos cinqüenta e muito menos agora às portas dos sessenta, é que é feliz. Varre a casa, lava os pratos, espana as janelas e as paredes e faz todo o serviço de casa com um zelo terno e contagiante. Nunca usou nem suco de maracujá como ansiolítico, quanto mais qualquer comprimido para dormir. Está livre dessas contingências da idade. Relatei-lhe o episódio do Motta e sabem o que ele disse? Mandou-lhe um recadinho. Disse: -"Faz uma faxina em casa, Fábio Motta! Percebes? Vais ser feliz hoje e sempre"!