segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Meninos-chefes jamais serão chefes


               NÃO sei que forças me impelem a certos sentimentos que carrego comigo desde que usava cueiros. Por exemplo, as reuniões. Não me lembra a primeira reunião a que fui chamado a comparecer, mas sei que, ao seu final, tive a mais pétrea certeza: - reuniões para nada servem. O que senti ao final da reunião, e que o tempo se encarregou de sedimentar a cada uma que me vi obrigado a comparecer, foi o tédio próprio de quem sai de uma reunião. Seguindo-se ao tédio, o desprezo.
               Sim, toda reunião merece um colossal desprezo, principalmente se ela se realizar no âmbito do serviço público brasileiro. A principal razão de meu desprezo a esses encontros é a sua incapacidade e incompetência para resolver o problema a que se propõe solucionar. Além disso, a reunião é, freqüentemente, o palco da apresentação do idiota. É na reunião que o idiota faz o que mais gosta: exercer o seu direito de ser cretino. Justamente por isso toda reunião merece nosso mais enfático desprezo. 
              Resolvi, por tanto interesse que tenho na extinção das reuniões, estudá-las com mais afinco. Para isso participei de uma boa quantidade delas, notadamente as do serviço público. Hoje em dia, com a presença de câmeras em ambientes onde se reúnem os mais renomados trogloditas desta república, fácil é chegar às conclusões que passo a apresentar.
               Há, basicamente, dois tipos de reunião: a reunião dos escalões superiores e a reunião dos "paus mandados". A reunião dos escalões superiores, por sua vez, se divide em vários tipos, mas dois deles se destacam quanto ao seu potencial de resolutividade: a de elevado poder resolutivo e a de baixo ou nenhum poder de resolutividade. É digno de nota que não haja uma reunião de capacidade intermediária de resolução. Reuniões que resolvem "mais ou menos" nada resolvem, eis a verdade. 
               As reuniões de alta competência resolutiva são aquelas que não existem no Brasil ou, melhor, existem sim, mas o que elas resolvem quase nunca é de ou no interesse do povo. (Estamos fazendo uma análise das reuniões no âmbito do serviço público, é bom lembrar.) As reuniões dos altos escalões, que dominam nossos gabinetes e auditórios, são aquelas que nada resolvem. As mais comuns delas podem ser assistidas na TV Senado e na TV Câmara, respectivamente, as sessões do Senado da República e as da Câmara dos Deputados. Podemos incluir nesse rol as reuniões das Assembléias Legislativas estaduais e das Câmaras de Vereadores dos municípios. Esse tipo serve ao "faz-de-conta" de nosso dia-a-dia. Nessas casas também ocorrem as reuniões de alta resolutividade que atendem aos interesse de nossos políticos, mas essas são bem mais comuns em seus gabinetes, trancados eles a sete chaves. Nelas eles tramam as emendas e costuram as negociatas que os fazem mais ricos e mantêm o país no mais solene e sonífero atraso, fazendo parecer que estamos a um passo do desenvolvimento de que tanto se fala.
              As reuniões dos "paus mandados" são aquelas em que um ou mais "paus mandados" de alta patente convocam os funcionários para lhes comunicar as resoluções esdrúxulas e/ou descabidas e/ou incoerentes que as reuniões dos escalões superiores decidiram e que, quase sempre, não mudam em nada o que já está ruim, contribuindo, de fato, para o piorar ainda mais. Com efeito, essas reuniões são típicas formas do exercício do poder opressor embasado numa legalidade cruel, posto que capaz de alcançar o justo, mas inócua para com o injusto, freqüentemente o próprio Estado. Ele a usa quando lhe favorece ou quando de seu interesse, mas a "esquece" quando lhe é conveniente. Eis aí em poucas linhas a aparência de nossas reuniões e de nossas assembléias. 
              Outro dia eu falava do chefe. (Reunião pressupõe o chefe, notadamente naquelas envolvendo os já referidos "paus mandados".) E de tanto falar em chefe acabei magoando dois queridos amigos. Disseram-me: -"Foste injusto..." O que talvez não tenham entendido é que já sou um bicho velho e ressabiado, passado na casca do alho. Pois digo aos amigos: - já vi tanto chefe que reconheço um a quilômetros de distância. E neles não vejo "o chefe".  Neles vejo os meninos que são, cheios de idéias e ideais, prestes a serem esmagados pela torrente da decepção. Explico.
               O chefe, como disse ontem ou anteontem, deve(ria) conduzir em seu currículo dois itens fundamentais: a aprovação em concurso público e a destruição de sua certidão de nascimento. Lancemos o olhar ao horizonte e façamos uma rápida avaliação de todos os chefes que a vista alcançar. Nenhum deles, repito, nenhum deles estará credenciado a ser chefe. (Só agora percebo que estou sendo demasiadamente duro com os chefes, o que, seguramente, levantará a suspeita de que sou um funcionário público relapso e dado à anarquia. Direi apenas que não é esse o caso.)
               Observe-se que, das duas credenciais necessárias ao legítimo chefe, uma delas depende do candidato a chefe e a outra depende do sistema. Outro dia falei dos sistemas (http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2011/07/um-cruel-e-mau-sistema.html) e da tão desejada inexistência do mal e do mau (http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2011/05/o-pior-mal-e-o-que-nao-existe.html). Para que se dissipe de imediato a idéia de que sou anarquista e contrário à instituição do chefe, declaro em alto e bom som: - ninguém está credenciado a ser chefe porque o sistema é ruim. O sistema é ruim para os que nele operam e para os que dele dependem. Se o sistema é ruim para suas próprias "engrenagens", como se pode achar um chefe apto a operá-lo? Nesse sistema das duas uma: - ou o chefe por ele será absorvido e tornar-se-á parte dele, ou o chefe dele será "cuspido". 
               Assim, fácil é concluir que aqueles que são bons serão, mais cedo ou mais tarde, os resignados do sistema. Ser "cuspido" do sistema? Só saindo do país.