sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Crimes terráqueos


               Veio bem a calhar a matéria do jornal O Povo de hoje que dá conta da rejeição, por parte dos deputados estaduais, dos três requerimentos do deputado Heitor Férrer cobrando esclarecimentos ao Governo e aos demais órgãos envolvidos na compra dos helicópteros (http://www.opovo.com.br/app/opovo/politica/2013/08/30/noticiasjornalpolitica,3120237/assembleia-nega-pedido-de-heitor-e-cid-minimiza-caso-de-helicopteros.shtml). Com a decisão da Casa, o senhor governador do Ceará não será importunado. Veio a calhar porque o episódio se alinha com dois outros bem recentes.
               Ontem o mesmo periódico anunciou a rejeição, por parte do plenário da Câmara dos Deputados, do pedido de cassação do mandato do deputado federal criminoso e já presidiário, Natan Donadon. Temos um representante do povo condenado e já em pleno cumprimento da pena. Podemos supor que o povo é bandido? Ou são também bandidos aqueles que lhe negaram a cassação? Sim, porque quem trata dos interesses de um bandido é também bandido. Ou não? Se assim não for, necessário é admitir: - de nada mais sei.  (http://www.opovo.com.br/app/opovo/radar/2013/08/29/noticiasjornalradar,3119455/condenado-e-preso-donadon-tem-cassacao-rejeitada-pela-camara.shtml)
               Há dois dias o Diário do Nordeste anunciou a rejeição, por parte dos vereadores da Câmara Municipal de Fortaleza, do pedido de cassação do vereador Leonelzinho Alencar, aquele cuja mulher estava inscrita e chegou a receber recursos do Bolsa Família, se não me engano, a venerável quantia de duzentos e trinta e seis reais, no total. O homem foi acusado de corrupção, improbidade administrativa e quebra do decoro parlamentar por outras de suas peraltices. Será que esses caras sabem o que é "decoro"?(http://diariodonordeste.globo.com/noticia.asp?codigo=365402). 
               Nada disso surpreende, mas os fatos ocorridos e anunciados em curto espaço de tempo permitem-nos vislumbrar um cenário atemorizante: - nossas casas legislativas estão podres. Em primeiro lugar, oposição nelas não se faz, como bem se vê na persistente anuência dos senhores deputados estaduais do Ceará ao que faz e ao que diz El Cid. “Amém” é a palavra que mais se pronuncia na Assembléia Legislativa do Estado. O nobilíssimo deputado Tin Gomes chegou a dizer que “os governistas precisavam isolar completamente Heitor”. Na frase proferida pelo cupincha do senhor governador está dito tudo, como numa confissão indevida e vergonhosa. A sugestão, vinda de um deputado governista, para isolar completamente o mais aguerrido e talvez único deputado que faz oposição corajosa à ditadura branca de El Cid dá-nos bem uma noção do nível a que chegamos. Não há problema nenhum na governabilidade do Estado do Ceará. El Cid governa livre, leve e solto; lépido e fagueiro. Só agora se chega a entender a preocupação de nossos governos com a tal da “governabilidade”. (Como seria se esses senhores governassem sem a tal da “governabilidade”? Sou tentado a um palpite: não governariam. Não da maneira que nossos governantes sabem governar, e eles só conhecem uma.)
               Na Câmara Municipal de Fortaleza e na Câmara dos Deputados os bandidos estão deitando e rolando, como se bem vê. Esse vereadorzinho – se o tratam por um hipocorístico no nome pode-se bem tratá-lo assim na função sem o risco de se levar a coisa para o lado pejorativo –, esse vereadorzinho, também já condenado anteriormente pela Justiça, livrou-se da cassação sob os auspícios de seus pares-comparsas. Seguramente agiram segundo a ética do velho corporativismo da política brasileira. Lendo-se a lista dos trinta elementos que votaram contra a sua cassação, encontra-se um tal de “A onde é”. A princípio julguei estar diante de um erro de digitação do revisor. Esse “A onde é” chama-se Antonio Farias de Sousa e foi eleito vereador com pouco mais de seis mil votos. Tudo se explica, como se bem vê mais uma vez.
               Na Câmara Federal, ao bandido condenado na mais elevada instância jurídica do país por lesar os cofres públicos deu-se-lhe a anuência de permanecer deputado. E estamos conversados. Obviamente não poderá comparecer às sessões por estar no xilindró, mas, se acharem um badulaque jurídico que o tire detrás das grades, quem garante que o homem não estará já, já fazendo leis e salvando outros comparsas? Os criminosos estão na gerência, eis a verdade. Por isso nunca se viu tanta impunidade e violência. Não dá pra pensar de outra forma. Quem sabe eles não enviam à Comissão de Constituição e Justiça um projeto de lei que permita a deputados federais presidiários sair da cadeia para comparecer às sessões? Justificariam o projeto alegando que sairia mais barato aos cofres públicos. Pagar o salário de deputado federal a um suplente sai, de fato, mais dispendioso ao contribuinte. Seria um "regime ultraespecial" no maior interesse do país, zelador da atividade parlamentar.
               Contudo, há ainda esperança. Em meio a essa torrente de demonstrações do exercício do poder criminoso, o Supremo Tribunal Federal contrabalançou o jogo. Os patifes do mensalão, que estavam a estrebuchar tentando escapar da sentença condenatória, estão a cada dia confirmando sua presença no próximo jogo entre os times da penitenciária. O Genoíno e o Dirceu, por exemplo, já estão garantidos. Espera-se que à semana que vem outros se tornem disponíveis para jogar. Isso faria nossa esperança tornar-se mais vigorosa e feliz.
                                                                    ***
               -"Pois o tribunal da justiça cometeu um engano. Não somos culpados de nenhum crime no espaço", disse Maureen Robinson.
               -"Não estou tão certo disso, madame. Quem sabe que incríveis leis alienígenas teremos infringido"?, retrucou o doutor Smith.
               -"Mas, por certo, mesmo no espaço a justiça protege os inocentes e pune os culpados", argumentou a senhora Robinson.
               Doutor Smith foi taxativo: -"Um conceito bastante ingênuo, cara senhora".

Do seriado "Perdidos no Espaço", episódio "Tribunal das Galáxias", escrito por Barney Slater e dirigido por Jerry Juran.