quinta-feira, 1 de agosto de 2013

A morte definitiva do óbvio


               Quantos anos tem a Austrália independente? Liberada de sua ligação com o Reino Unido em 1931, podemos dizer que este país tem apenas 81 anos. 
               Digamos com todas as letras a fim de que não haja dúvidas: - a Austrália livre tem 81 anos. Através do Estatuto de Westminster de 11 de dezembro de 1931 o país terminou formalmente com a maioria das ligações constitucionais com o Reino Unido. Há mais: 
               "A Austrália adotou o estatuto em 1942, mas com efeitos retroativos a 1939 para confirmar a validade da legislação aprovada pelo Parlamento australiano durante a Segunda Guerra Mundial. O choque da derrota da Inglaterra na Ásia em 1942 e a ameaça da invasão japonesa fez com que a Austrália olhasse para os Estados Unidos como um novo aliado e protetor. Desde 1951, a Austrália tem sido um aliado militar formal dos Estados Unidos, nos termos do tratado ANZUS. Após a Segunda Guerra Mundial, a Austrália encorajou a imigração da Europa. Desde os anos 1970 e após a abolição da política Austrália Branca, a imigração da Ásia e de outros lugares também foi promovida. Como resultado, a demografia, cultura e auto-imagem da Austrália foram transformadas. Os laços constitucionais finais entre a Austrália e o Reino Unido foram cortados com a aprovação do Australia Act 1986, acabando com qualquer papel britânico no governo dos estados australianos e, fechando a possibilidade de recurso judicial para o Privy Council, em Londres. Em um referendo de 1999, 55% dos eleitores australianos e uma maioria em cada estado australiano rejeitou a proposta do país se tornar uma república com um presidente nomeado pelo voto de dois terços de ambas as Casas do Parlamento Australiano. Desde a eleição do Governo Whitlam em 1972, tem existido um foco crescente na política externa dos laços com outras nações do Pacífico, mantendo laços estreitos com os aliados tradicionais da Austrália e com parceiros comerciais".
               E há mais ainda: "Tecnologicamente avançada e industrializada, a Austrália é um próspero país multicultural e tem excelentes resultados em muitas comparações internacionais de desempenhos nacionais, tais como saúde, esperança de vida, qualidade de vida, desenvolvimento humano, educação pública, liberdade econômica, bem como a proteção de liberdades civis e direitos políticos. As cidades australianas também rotineiramente situam-se entre as mais altas do mundo em termos de habitabilidade, oferta cultural e qualidade de vida. A Austrália é o país com o segundo maior índice de desenvolvimento humano do mundo (IDH). É membro da Organização das Nações Unidas (ONU), G20, Comunidade das Nações, ANZUS, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), bem como a Organização Mundial do Comércio (OMC)".
               Eis que hoje, durante a aula de Sociologia Jurídica e Judiciária, a ilustre professora desculpava a miséria e as mazelas brasileiras utilizando-se do argumento do tempo. Afinal, temos "apenas" 191 anos de independência. Fomos "descobertos" há somente 512 anos. (A colonização australiana começou no final do século XVIII.) Segundo ela, em nossos quase duzentos anos não nos foi possível fazer muita coisa. 
               Imaginem vocês que em quase duzentos anos não tomamos vergonha na cara. Pois está aí a Austrália para desmentir esse ufanismo oco e absurdo que culpa o tempo. (Vai ver é por isso que o criminoso menor de idade tem todas as proteções e regalias por aqui: - ele tem ciência do bem e do mal proceder, mas o tempo o redime de suas hediondas canalhices.)
               Hoje, ao meio dia, soube que um assassinato acabara de ocorrer nas dependências do Instituto Dr. José Frota. Um menor, portando uma arma calibre .38, atirou contra um desafeto que, segundo ele próprio, matara seu irmão e um primo. A vingança o moveu. Pergunto, do alto de minha soberba ignorância: crianças inocentes se vingam? 
               Hoje fui visitar meu neto. É um lindo bebê de pouco mais de dois meses de idade. Olhava para ele e me fascinava com sua pureza. É uma pureza física, mental e espiritual; uma pureza em toda completude, em toda inteireza. Em pouco tempo crescerá e ainda terá muito dessa pureza de hoje. É uma criança, aos olhos dos homens, livre de qualquer culpa. É verdadeiramente inimputável.
               O canalha que assassinou o paciente dentro do hospital – os gestores lutam freneticamente, ou nem tanto, para garantir que o crime ocorreu na área externa do edifício principal, mas... e daí? – premeditou minuciosamente o ato. Esperou o momento certo, as condições mais propícias, para lograr seu intento. Diria até que tenha um ou mais cúmplices, os quais lhe forneceram as informações sobre o dia e a hora em que sua vítima sairia do nosocômio. Ele, por sua vez, fez questão do assassinato público, teatral, televisivo. Queria platéia e TV. Não temeu a prisão. Sabe que estará livre em dois tempos. 
               E a sociedade? E nós? 
               Nós somos um arremedo de povo, de organização social, de pobres pretendentes a um bem comum inatingível. Somos quase um nada. Assassinou-se não somente a vítima, provavelmente outro canalha produzido pelo sistema, mas também o óbvio. 
               Anuncio com pesar: morreu definitivamente o óbvio.