sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Quero ser chefe

Todo chefe deveria se comportar como um bom juiz de futebol. Como se comporta o bom juiz?, há de indagar o que não entende de futebol. Todos sabem. O bom juiz não aparece. Sim, ninguém lhe nota a presença. No dizer de Nelson Rodrigues, o bom juiz seria um desconhecido vocacional.
            O diabo é o ego. O ego é aquele troço que impele o sujeito à autopromoção, à exaltação pessoal. Imaginem, então, o juiz de futebol que, durante a partida, fosse assaltado por uma incoercível vontade de ser o ator principal, o galã do jogo por assim dizer. Nem os eventuais gols seriam notados pela torcida. Os aplausos seriam todos endereçados ao senhor juiz, e a partida seria um mero detalhe, inclusive o gol.
            Dirá alguém que vivemos uma época em que a autoridade está em crise. Vivemos uma crise de autoridade e na autoridade. Nenhuma autoridade tem autoridade aos dias de hoje. Nem o juiz de futebol, nem o chefe de seção, nem o chefe da repartição tem autoridade. Antigamente a autoridade máxima era o bispo. O sujeito vinha se queixar e ouvia o impropério: -“Vá reclamar com o bispo”! Hoje nem isso. Mesmo o bispo tornou-se uma mera figura decorativa, como um enfeite de bolo.
            Outro dia eu dizia que o sujeito tem que ter maturidade para chefiar e para se deixar chefiar. O chefe não é uma pessoa, não é um ser. O chefe é uma entidade, ao passo que os chefiados são, todos eles, reles e ínfimos mortais. O chefe deveria ir ao cartório e rasgar a certidão de nascimento, eis a verdade. Que faz o mortal? O mortal reza, e estamos conversados.
            Entretanto, quando o chefe traveste-se de si mesmo, quando carrega a si mesmo sob a pele, vislumbra-se o caos. O chefe, portanto, e por não ser um ser vivente, deve, única e exclusivamente, se utilizar de todas as liturgias, honrarias e ônus do cargo. Bem se vê que o grau de maturidade associado à atividade de chefiar deve ser elevadíssimo. Chefe que insiste em ser ele próprio não presta. Daí a explicação para a crise de autoridade que ora grassa por este rincão sem dono.
            E mais: - chefe não deve ter regalias. A regalia do chefe lhe enfraquece a moral e a credibilidade. Chefe que não dá exemplo jamais será ouvido e semeará em seus chefiados o deboche por sua figura. A regalia, qualquer que seja ela, mesmo a vaga reservada no estacionamento, pressupõe a existência de um ser vivente no ser que, já dissemos, não é vivente. O chefe que insiste em ser o titular de seu CPF estará sempre a mercê de suas paixões e vícios.
            Vejam, então, a escandalosa relação existente entre maturidade e aptidão para chefiar. Hoje qualquer um é chefe. Trocam-se os chefes como se trocam as fraldas do bebê. (Eu ia dizer as roupas, mas, como temos um lindo bebê na família, me ocorreu que se lhe trocam as fraldas com mais frequência do que as ceroulas dos adultos.) A verdade á a seguinte: - o chefe deveria ser chefe por concurso. E um concurso de porta bem estreitinha, com avaliação psicológica e tudo.
            Por exemplo, o hospital público. Diretor de hospital público devia ser selecionado por concurso, assim como os demais funcionários. Se os demais funcionários são selecionados por concurso, por que seus diretores não o são também? O que se faz é o seguinte. Os diretores desses hospitais são escolhidos pela “panelinha” que está no poder. Assim, entra panela e sai panela e, na mesma medida, entra diretor e sai diretor. O resultado não poderia ser outro senão o que está aí.
            O que diremos dos chefiados? a arraia miúda? o povo que reza? Também esses devem ter lá a sua maturidade. Se o chefe tomar uma medida que o cargo lhe impõe, o chefiado não deve nunca, jamais, tomá-la para o lado pessoal. Quem está agindo é o chefe, e não o fulano de tal que, a propósito, não existe. O diabo é quando o chefe age fora do âmbito de suas obrigações ou, mesmo que aja segundo elas, o faça usando dois pesos e duas medidas. Todos sabem: - a liturgia do cargo é uma só, de modo que medidas divergentes levantam a suspeita de tirania e de o chefe estar agindo na defesa de interesses escusos. Outras vezes o chefe age segundo sua obrigação em determinado contexto e deixa de fazê-lo noutro. A coerência e a obediência estrita ao que exige o cargo são o caminho que leva à justiça e aos bons resultados na atividade de chefiar.
            O que se tem visto? Nada disso temos visto. Ou, melhor: - tudo isso. O chefe é um ego e, pior, um ego inflado e inflamado. Do Oiapoque ao Chuí, do Cabedelo ao Xapuri, o Brasil é um antro de egos a lhe chefiar desde os cargos mais elevados aos mais humildes chefes de portaria. Consequentemente, a já citada crise na autoridade é uma evidência que nos assola e humilha.

            Eu nem sei por que razão fiz todo esse devaneio. Diz o meu amigo Vevê que sempre se quer ser o touro, e nunca se quer ser a vaca. Acho qu’eu estou querendo é ser chefe. O diabo é que não tem concurso...!