sexta-feira, 27 de setembro de 2013

A perigosa vida do perigoso Brasinha

          Eram duas avenidas movimentadas. No cruzamento o semáforo estava para virar ao vermelho, e reduzi a velocidade para parar rente à faixa de pedestres. O motoqueiro que vinha a meu lado, ao contrário, imprimira mais velocidade a seu pequeno veículo, na clara intenção de tentar passar ainda no amarelo. O diabo é que o amarelo ia virar a qualquer momento. 
          Daria tempo a que o motoqueiro passasse? E, em passando, não correria ele um risco enorme de ser atropelado por outro veículo que trafegasse na transversal? Pela velocidade que imprimira à motocicleta, uma colisão naquele cenário lhe seria, muito provavelmente, fatal. Mas, qual? 
          O farol mudou para o vermelho segundos antes de ele passar pelo cruzamento em alta velocidade. Por pura sorte nenhum outro veículo veio-lhe ao encontro pela perpendicular. Ele passou ileso. Fiquei ali parado, olhando-o afastar-se rapidamente em direção ao próximo cruzamento. Perguntava-me se no seguinte faria o mesmo, caso as circunstâncias fossem semelhantes. Condescender com o risco é um hábito comum e tão mais repetido quão mais vezes se o repete impunemente. Por isso o dever-se cultuar os bons hábitos ou, pelo menos, não se habituar à exposição a riscos. A estatística diz: - quanto mais freqüentemente se repete uma ação, mais provável que cada um de seus resultados possíveis ocorra, mais cedo ou mais tarde. O que me encafifava era o seguinte pensamento: - por que algumas pessoas gostam de viver tão perigosamente? 
          Por exemplo, o Brasinha. Não sei se dele se lembram, e por isso refrescar-lhes-ei a memória. O Brasinha é o homem dos fetiches. O que ficou mais conhecido foi aquele em que queria fazer sexo com a namorada fantasiado de diabinho, com chifres, rabo e tudo. Daí o apelido: - Brasinha. Suas pretensões se viram frustradas quando a jovem passou mal ao ver-se diante daquele homem de barriga enorme, branco como um círio funéreo e travestido de capeta. Para resumir a ópera, a menina foi parar no hospital. Até esse ponto, tudo bem. O homem gozava de uma solteirice que já durava meio século, ou quase isso. A conseqüência maior foi perder a namorada.
            Em casado andou aprontando também, a mulher já pejada, o menino de cabeça pra baixo e encaixada à bacia. Até a sogra foi testemunha ocular, auditiva e presencial da marmota. Ainda assim, a mulher não hesitou em dar-lhe uns bons sopapos quando o surpreendeu dentro do carro fazendo-se acompanhar de uma muruxaba, tudo ocorrido ali, no estacionamento de um conhecido shopping da cidade. A sogra do safado fazia companhia à filha na missão. Não ia permitir que ela saísse de casa sozinha a flagrar o marido às voltas com um de seus casos. E, inclusive, participou da cena dando-lhe, ela própria, umas boas bordoadas. Cabra sem-vergonha! Dê-se ao respeito, seu cachorro!
            Eis aí, pois, dois dos mais recentes episódios em que se enfronhou o Brasinha. Dois, pausa. Pensava eu serem os últimos, até o domingo passado. Bateram-me o telefone, um amigo, para me pôr a par de mais uma presepada do homem. Como não poderia deixar de ser, um rabo de saia foi, mais uma vez, o pivô do fato. Bem se explica a quase eterna solteirice de nosso querido Brasinha. Vejam que um homem, qualquer homem, está sempre sob a ameaça de uma tentação. Se não há ninguém a quem dar satisfação, menos mal. Brasinha gastou cinqüenta anos numa valsa solitária e bem a seu gosto. Queria tudo, podia tudo, a ninguém precisava se explicar. Entretanto, casou. E, em casando, já não podia, ainda que quisesse. Vejam o hábito a fazer o monge. De tanto poder e tanto fazer, já não sabia mais como “não fazer”, nem queria aceitar o “não poder” nem o “não dever”. E, como não sabia nem aceitava, fazia, continuava a fazer. Não sei se me faço entender. O que aconteceu foi o seguinte.
             Brasinha arranjou, sabe-se lá onde, uma pequena. Ele não é o que se poderia chamar de "homem ocupado". Seu tempo é bastante livre, de modo que pode ir à caça desses espécimes sem prejuízo nenhum de seus vencimentos e receitas. Convidou-a, antes de ir às vias de fato, a um almoço numa churrascaria de que gostava muito. Só havia um pequeno problema. A tal churrascaria localiza-se nas vizinhanças de onde mora sua sogra, a mesma que participou de seu "resgate" numa de suas peraltices. Era dia útil, a velha senhora não costumava sair. Por isso achou por bem parar o carro defronte o edifício onde ela mora. Seu apartamento fica no décimo andar e ela não enxerga muito bem, coitada!... Passa a maior parte de seu tempo a construir caminhos de mesa do mais belo crochê. Brasinha imaginou que ela jamais daria conta de seu carro parado defronte o prédio. Estava tranquilo, portanto, para almoçar em paz com sua nova conquista. 
             Percebam os queridos leitores a semelhança de meu querido amigo com o motoqueiro do sinal vermelho. Ambos se arriscam à toa, por nada, pelo simples prazer de dar a cara a tapa. Como diria o meu amigo Iran Rocha, pelo simples prazer de "dar carne a gato". Brasinha e o motoqueiro adoram "furar" o sinal vermelho, pôr a vida em risco, fazer roleta russa. Não dão a mínima a seu péssimo hábito. Pelo contrário, sentem nele um prazer indescritível, orgástico. O risco seria um elemento a mais de excitação, digamos assim.
              Pois justo nesse dia e àquela hora, a sogra do homem resolveu apreciar, da varanda, a paisagem do horizonte e, ainda não se sabe como com toda aquela miopia, astigmatismo e cataratas, avistou, sem a menor sombra de dúvida, como diria à filha dali a alguns minutos ao telefone, o carro de seu imprudente genro. A mulher, em casa a cuidar do pequerrucho e do lar e conhecedora dos maus hábitos do marido, não perdeu um segundo. Bateu-lhe incontinenti o telefone portátil. Numa melíflua voz a fim de não lhe levantar a mínima suspeita, indagou: 
              -"Meu filho, onde você está"? 
             Ele, sentindo-se o homem mais esperto do mundo, o mais inteligente e safado do planeta, respondeu cheio de si e pondo à voz a tonalidade firme do homem incapaz de uma lorota:
             -"Estou no supermercado fazendo compras, meu amor"...
             -"Pois você tem cinco minutos pra tirar o carro da frente do prédio de mamãe, seu mentiroso sem-vergonha! Senão, quando você chegar lá os pneus estarão tão cortadinhos que não servirão nem pra sola de sapato"!
              Não deu tempo terminar o almoço. Aliás, não deu nem para começar. Brasinha e a "presa" já haviam feito o pedido e o garçon já dera ordens expressas ao churrasqueiro. Tudo em vão. Saíram de lá às pressas e a mulher ainda teve de esperar que ele buscasse o carro e a pegasse numa esquina a uma certa distância. Afinal, se a velha vira o carro, nada a impediria de também ver a pequena. Era certeza ela estar à espreita lá de cima, do décimo andar, assistindo ao genro correr para sair dali o mais rápido possível. 
             Meia hora depois ele chegava em casa carregando uns poucos pacotes de compras feitas no supermercado. Ia tentar convencer a mulher que lá estivera de fato. O diabo seria explicar o que fazia seu carro parado defronte ao prédio da sogra. É como já dissemos. Quem se arrisca deve ir se acostumando com a idéia da morte. Ainda bem que não é o caso de meu amigo Brasinha.