sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Perita, negligente e entojada


               -“Ei, mulher!... Com’é teu nome, hein”?
               Foi como a servidora pública que funcionava de recepcionista na junta médica municipal se referiu a uma senhora que aguardava sentada a fim de ser periciada. Ela própria, a servidora, era uma senhora de certa idade e, de fato, parecia ainda mais velha, tamanho seu desleixo estético e tamanha sua rasteira educação. Teria o quê? Talvez seus sessenta anos. A mim me pareceu ter oitenta. Quiçá noventa. Quanto mais me lembro da cena, mais a mulher envelhece. Seus desgrenhados cabelos diziam tudo.
               Esperei exatos cento e trinta minutos para ser periciado, uma laringo-faringite que se me abateu desde a sexta passada. Com a nova determinação, a partir de agora mesmo o atestado médico de um dia necessita de “homologação pericial”. Era precisamente o meu caso. A burocracia weberiana é a demonstração mais cristalina do que se chama “o exercício do poder”. 
               (O burocrata não sabe que, mesmo doente, fui trabalhar ao dia do atestado. Apenas não cumpri a carga horária exigida por ele. Dei uma passada na enfermaria para ver como estavam os doentes, mediquei-os embora não me sentisse bem e, após a consulta que confirmou minha condição, vim para casa. Bem se vê que o burocrata é desses idiotas espessos e essenciais.)
               Chamaram-me a entrar. A perita era uma senhora de tez muito clara e cabelos encanecidos. Semblante sério, inexpressivo, quase não ergueu a vista para me olhar nos olhos e, quando o fez, queria apenas saber o nome do médico que me fornecera o atestado. Tive de repetir-lhe por duas vezes o nome. Nem minha rouquidão remanescente lhe provocou a curiosidade. Não quis saber se eu estava bem, nem se estava pronto a voltar ao trabalho. Foi a funcionária que a assistia quem quis saber: -“O senhor já voltou a trabalhar”?
               A outra, a médica perita, apenas operava o teclado. Olhava para ela e pensava na lá de fora, na recepcionista. A médica me lembrava uma parenta antiga, a tia Zélia. Era uma mulher gorda, cabelos igualmente brancos e bem sedosos; sua pele era pálida e delicada como a de um bebê. A diferença entre elas me parecia enorme, embora da falecida parenta só me restassem as reminiscências infantis. Viúva, recolhera-se, em seus últimos dias, em sua casa com sua inseparável companheira e funcionária do lar, a Severina. Era tia-avó de minha mãe. Tia Zélia exalava amor, bondade e doçura. A perita não. Era o que se poderia chamar de “mal amada”. Ou má amante. Talvez fosse uma “nunca amada”. Sabe-se lá.
               Ainda com os olhos vidrados no monitor, me fez a segunda pergunta, que também em nada se referia à minha condição: -“Qual a sua função”? Após a minha resposta, completou: -“Tudo certo. Pode ir”. –“Posso ir, então”?, quis confirmar dando um tapinha na mesa ao me levantar. Quis saber se não seria necessário levar comigo um papel, um documento comprobatório da “perícia”. (A burocracia não existe sem o papel. No dia em que se abolir o papel, estará igualmente morta a burocracia.) Respondeu secamente: -“Não, não precisa”. E emendou: -“E também não precisa bater na mesa”. Dando outro tapinha na mesa, sorri ironicamente e respondi: -“Desculpe e bom dia”! A única a me retribuir o cumprimento foi a funcionária, que disse: -“Bom dia, doutor”!
               O meu querido amigo Ivan Machado explicou-me, outro dia, referindo-se a essas agora obrigatórias homologações de atestados médicos: -“Fernandin, o bom paga pelo pecador”... Ele falava e eu me lembrava da passagem bíblica em que Abraão pergunta ao Senhor: -“Destruirás também o justo com o ímpio”? Respondeu o Senhor que, “por amor dos dez”, não destruiria Sodoma se nela encontrasse dez justos. O final da história todos sabem. Sodoma foi destruída somente após a partida de Ló, que levou consigo a mulher e três filhas.
               (Severina ainda mora na mesma casa onde por muitos anos cuidou fiel e zelosamente da patroa-irmã. Ela herdou todo o patrimônio de tia Zélia.)