terça-feira, 24 de setembro de 2013

Quem nunca come mel, quando come se lambuza...

    Diz o adágio que quem nunca come mel, quando come se lambuza. Pois foi justamente o que ocorreu ao meu querido amigo Edson Lopes Júnior, eminente Neurocirurgião desta terra causticada pelo sol. Por falar em sol, outro dia testemunhamos, Bella e eu, a um lindo nascer do sol. Foi ontem, admito. O disco solar, visto a quase cento e oitenta graus de onde estávamos, no horizonte máximo, era enorme e amarelo. Quase podíamos ver-lhe as manchas, as explosões, o halo... Pensei: - "Eis o milagre"! E lá estava o milagre. É muito engraçado, para não dizer trágico, que o Homo sapiens exclua o que entende como normal do que é, de fato, sobrenatural. Ora, é tão óbvio que o sobrenatural seja diário! Senão, vejamos.
      Como podemos explicar esse disco tão perfeito e tão adequado a nós? Como podemos olhar para ele sem pensar que dele nos vem toda a energia de que necessitamos para viver? E, se vem dele a energia, quem o pôs lá, assim tão adequadamente a nós? Por que ele está lá? Teleologicamente, há um fim nas coisas, ainda que digam o oposto. Se algo serve a algo, ainda que por acaso, em si não é isto uma pista, uma deixa, uma instigação à nossa mais remota burrice? Desejei imensamente estar, nem  que fosse por uma fração de minuto, em qualquer astro outro de nosso sistema, a fim de saber, de presenciar, um nascer desse sol comum a nós. Imune aos raios que nos afetam e nos são letais, imune às temperaturas extremas que nos são nocivas, anelei estar lá, algures, alhures, ali, ora bem perto, como em Mercúrio, ora bem longe, como em Plutão. 
      Conclui-se, sem mais delongas, que o natural é a insensatez, a burrice, a estupidez, a empáfia, o mal. O sobrenatural, sobre o qual nem de perto conseguimos atinar, o sobrenatural é o bem, é o que aparentemente não se explica numa base de fins, teleológica demais para a estultícia do Homo sapiens. 
     Mas, o que era mesmo que eu ia falar? Ah! Lembrei. Do Edson Lopes. Se não sabem, lhes conto. O Edson é o chefe da Neurocirurgia do Hospital Geral de Fortaleza(HGF). O diabo é que o hospital tem menos vagas do que o número de doentes que precisam de internamento. Em consequência deste fato, as áreas próximas e contíguas ao setor de Emergência foram enchendo-se de macas, de colchões, de cadeiras de rodas, todos ocupados por pacientes necessitando de algum tipo de tratamento hospitalar especializado. Essa área tornou-se, assim, uma enorme enfermaria e, de fato, poderíamos dizer que ali seria um outro hospital. Então, teríamos um hospital dentro de outro hospital. No Brasil tudo é piada, tudo é anedota, e por isso vamos tolerando os absurdos e os assassinatos como se nada disso nos dissesse respeito. Apelidou-se o hospital dentro do hospital de "piscinão". E o que o nosso querido Edson Lopes tem a ver com tudo isso? Vou explicar.
     Todos já sabem que o senhor Ciro Ferreira Gomes assumiu o posto de secretário de Saúde do governo de seu irmão Cid Gomes. -"Tenho as costas largas"!, foi logo dizendo o homem. E disse mais: -"No máximo em noventa dias vou acabar com o piscinão do HGF"! Diz outro adágio que quem fala assim não é gago. Ficou-se de orelha em pé e de olhos esbugalhados. Perguntava-se pela cidade: -"Que será que esse homem vai fazer pra resolver esse 'abacaxi'"?. Ninguém sabia. E repetia: -"Tenho as costas largas"! O diabo é que o governo de El Cid já vai ao ocaso e o piscinão o acompanha desde seu início, ou quase isso. Todos queríamos saber por que somente agora seria dada ao problema a atenção que ele sempre mereceu. O senhor Ciro Gomes acompanha, como o piscinão, o irmão desde a alvorada de sua administração, com direito a lances cinamatográficos e novelescos, incluindo bate-bocas mais efervescentes do que aqueles entre marido e mulher entre ele e deputados, entre ele e ex-prefeitos, entre ele e aliados, enfim, sempre entre ele e alguém que ousou lhe peitar. Bem poderia ter sugerido a solução para o piscinão há mais tempo. Será que o homem estava enlarguecendo as costas para essa entrada triunfal e digna de clímax hollywoodiano? Até agora o mistério segue insolúvel. Mas, continuemos.
        Semana passada foi o senhor novo secretário de Saúde visitar pessoalmente o piscinão. Abraçou doentes e acompanhantes, fez piadas com eles, piscou olhos para as donzelas e, como não poderia deixar de ser, bateu boca com uma senhora que fazia companhia a um parente lá "internado" e que não se deixou seduzir por sua voz melíflua e aflautada. A mulher caiu na besteira de dizer que eles, os políticos e, dentre eles, o secretário ali presente, estavam roubando o dinheiro do povo e que, por isso, a situação precária em que ele, o povo, ali se encontrava, naquele espaço. Em seguida à visita, ele seguiu para o gabinete do senhor diretor do hospital para uma reunião com as chefias e direções no intuito de planejar a compra de leitos hospitalares na rede de apoio, solução encontrada para acabar com aquele "aborto" do atendimento médico que é o piscinão. 
        Eram umas doze pessoas no gabinete da direção. Não estava presente apenas o doutor Edson Lopes, chefe da Neurocirurgia, preso noutro hospital devido a uma intercorrência. Eis, então, que chegou o momento, na reunião, de se estabelecer como seria feita a compra dos leitos hospitalares para os pacientes da Neurocirurgia. Doutor Rommel Araújo, chefe da Emergência do HGF, resolveu ligar para o telefone portátil do doutor Edson Lopes, a fim de pô-lo em contato direto com o secretário de Saúde ali presente. 
        Disse-lhe: -"Edson, bom dia! Estamos aqui no HGF em reunião com o secretário, doutor Ciro Gomes. Ele quer dar uma palavrinha com você", e passou o telefone para as mãos do secretário. Ele disse:
        -"Doutor Edson, bom dia! Aqui quem fala é Ciro Gomes. Como vai"? 
        -"Rommel, deixa de putaria, rapaz. Liga depois que agora eu tô ocupado"...
        Ciro deu um sorriso sutil e continuou: "-Mas, doutor Edson, sou eu, Ciro Gomes, o secretário de Saúde... Estamos aqui reunidos no gabinete do Zózimo [diretor geral do HGF] para dar um encaminhamento para a solução definitiva  ao problema do piscinão". 
        Edson recalcitrava: -"Rommel, eu sei que é você... Faça o seguinte. Me ligue depois que agora eu não tô pra brincadeira, não"!
        Ciro afastou o fone do ouvido e, dirigindo-se a todos os presentes no gabinete, disse, tendo na face o sorrisinho sutil que todos bem conhecem: -"Pessoal, ele não está acreditando que sou eu"..., e passou o telefone para Rommel. A essas alturas todos já estavam a ponto de gargalhar com a inusitada situação que se apresentava. Doutor Rommel, calmo como um monge budista, interveio dizendo: 
       -"Edson, sou eu, Rommel. Rapaz, acho que você ainda não entendeu. Estamos aqui no gabinete do Zózimo com todos os chefes de clínica e o doutor Ciro Gomes, o secretário de Saúde, em reunião. Ele quer falar contigo para saber sobre os leitos da Neurocirurgia"... 
        -"Rommel, você está com a voz diferente, mas eu sei que é você com aquelas tuas brincadeiras, né"?
        Apenas cinco minutos depois, quando o diretor do hospital falou com ele e explicou o que estava se passando, Edson finalmente acreditou que o secretário de Saúde do Estado do Ceará estava precisando lhe falar para resolver assunto de interesse da população. 
        Foi por isso que eu disse ao início: quem nunca come mel, quando come se lambuza.