segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Choremos com o Romeu...


               Tocou-me deveras a prosa de hoje do Romeu Duarte (http://www.opovo.com.br/app/colunas/romeuduarte/2013/09/16/noticiasromeuduarte,3129853/no-centro-do-coracao.shtml). Tão prosa quanto poética, como o passeio que o menino Romeu, entre o Cearense e a parada do Quitandinha, chupando um rolete de cana ou uma lasca de doce americano, bem entendido deixou nas entrelinhas. Vez ou outra, presumo, esticava-se até a Praça onde tudo começou há, sei lá, quase trezentos anos, na intenção do caldo com pastel ali na Leão do Sul, vizinho a ela. É quase um choro, um pranto resignado e contido, um lamento doído e quase mudo do homem que ainda carrega dentro de si o marista menino, como a um sapo de macumba, no dizer do Nelson.
               Chora o Romeu sobre o estado deplorável do Centro dessa Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Diz mesmo assim: "a culpa é tua, por continuares sendo a referência de salvação das periferias miseráveis". Não sei como ainda não se ergueram contra o Romeu nossos simulados comunistas após a expulsão, dos nababescos shopping centers da cidade, dos miseráveis da periferia miserável. O Centro, esse recalcitrante econômico e geográfico, segue firme na função de bem recebê-los e, assim, torna-se obrigatoriamente uma espécie de repositório discriminado por seu "conteúdo". Não é essa a opinião do poeta, deixe-se claro. É um fato facilmente demonstrável.
               Vejam que na mesma edição do jornal as sumidades sugerem medidas que, se tomadas, viriam melhorar o desempenho e o serviço prestado pelo transporte público desta decadente cidade. Depois de mais de mil e quinhentos assaltos a ônibus de janeiro para cá no ano corrente, sugerem, por exemplo, que a passagem não seja vendida dentro do veículo, como se os bandidos não gostassem de telefones portáteis e do mais que os indefesos passageiros trazem aos bolsos e bolsas; que, com a progressiva e crescente lentidão das viagens em nosso caótico trânsito, se coloquem mais veículos nas ruas já congestionadas e abarrotadas quase a transgredir o princípio da impenetrabilidade da matéria; que, na mesma previsível inocuidade da medida, se recriem as faixas próprias para os ônibus, como se isso não servisse a piorar o já referido caos. Enfim, a reportagem, que pretende sugerir medidas ainda cabíveis e factíveis para melhorar nosso trânsito insano e brutal, propostas por entendidos que de nada parecem entender, sugerem o impraticável e o inútil porquanto incapaz de solucionar ou mesmo mitigar o problema. Não é preciso ser douto no assunto para isso afirmar. A cidade mais do que esgotou-se em si mesma: - esgotaram-se por completo as medidas paliativas, demostrando o exaurimento de nossos espaços de manobras.
               Não bastasse isso, no dia 6 deste mês deu no jornal o seguinte. Que em apenas uma semana os alunos do Centro Educacional Dom Bosco fizeram dois motins. (Um motim é das duas uma: - um grande tumulto, ou um movimento de revolta contra a autoridade.) Segundo a reportagem, os jovens, durante o segundo motim, acabaram por queimar cadeiras de plástico, roupas e colchões e também quebraram bebedouros. A reportagem não esclarece quem discutiu com quem, nem em quais circunstâncias tudo ocorreu. 
               O Centro Educacional Dom Bosco é um... lugar, ou escola, ou internato, ou reformatório, onde internam-se jovens "infratores" que cometem "atos infracionais de natureza grave". Esclareçamos a fim de que não se perca o fio da meada. "Ato infracional de natureza grave" é um crime praticado por um jovem que, justamente por ser jovem, não recebe o epíteto de criminoso mas de "infrator". Observem que todas as aspas se destinam a pôr em evidência os múltiplos eufemismos criados por uma penca de legisladores incompetentes ou mal informados. 
              Na primeira revolta eles haviam incendiado móveis, colchões e quebrado o teto. (Estou absolutamente impressionado com a quantidade de colchões que o Centro Educacional tem. A outra possibilidade é a de que, tão logo viram-se sem colchões após o primeiro ato de vandalismo, os administradores do Centro celeremente providenciaram a compra de novos colchões os quais, infelizmente e também, foram incinerados na segunda revolta. A se permitir novos e incontroláveis   motins, é o caso de se pensar na criação ou aumento de algum imposto estadual ou municipal a fim de cobrir essas contingentes despesas.) 
               Novamente a matéria do jornal é omissa quanto ao contexto do episódio. Fiquei a me perguntar, com cara de tacho: -"Por quê"? Digo, por que a reportagem não informa o que deve informar? Uma matéria tão pertinente havia de, por dever de ofício, esclarecer tudo, explicar tudo direitinho. Mas não. No momento em que a sociedade discute a história da maioridade penal, eventos como esse deveriam ser esmiuçados, escrutinados, esclarecidos. O jornal, um bom e marrom jornal, nega-se a fazê-lo. Que os jornais locais para nada prestam já sabíamos. Informar que é bom, nem pensar.
               Enquanto isso o senhor Ciro Gomes, que assumiu a pasta da saúde do governo de seu irmão, anunciou que o estado vai, finalmente, acabar com o chamado "piscinão" do HGF bem como desafogar os demais hospitais terciários repletos de pacientes que neles vêm se acumulando desde o início do referido governo. Contratarão leitos em hospitais particulares, ampliarão e reformarão alas já existentes nos próprios hospitais públicos e, enfim, resolverão o problema da desumanidade institucionalizada na saúde desta Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. O que não se entende é a razão de só agora cair do céu a solução de problema tão crônico e aparentemente insolúvel, e por quanto tempo essas providências surtirão o efeito esperado. Tudo cheira mal, essa é que é a impressão que se tem. O tempo, senhor da verdade, nos proverá em breve de tudo o que o manto do presente encobre.
               Ah, Romeu!... A tua prosa poética estava tão querida, tão por nós necessitada!... Choramos contigo e não somente pelo Centro do qual dizes: "tu, que eras de uma beleza singela e asseada, agora exibes necroses por abandono em teu tecido urbano". Cansado, pergunta Romeu em sua aguçada visão de artista das edificações, mas não menos sensível aos horrores da putrefação de nosso organismo social: "ex-cidade, que é da tua vocação, qual é a tua"? 
               Sim, todos queremos saber: Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, qual é a tua? És, assim como parece, uma cidade imobilizada, repleta de doentes desumanamente largados e de criminosos sádicos e inimputáveis? És mesmo tudo isso? Teu Centro é apenas a amostra menor de todos os teus piores males? És mesmo uma ex-cidade? um amontoado argamassificado de gente cega ferindo dia-a-dia as teorias que tentam explicar os ajuntamentos humanos? Tornaste-te a prova viva do estado natural hobbesiano? a necessitar urgentemente de um Leviatã opressor? Qual o teu destino, Fortaleza? O que te aguarda em teu futuro?
               Choremos com o Romeu...