quarta-feira, 9 de abril de 2014

Geração Y?

          Outro dia pedi ou, melhor, ordenei que não me amassem (http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2011/09/nao-me-amem-em-18062009-ainda.html). E o fiz por várias e boas razões. À época sentia que me amavam com o amor que exigia a paga ou a troca, o amor negociado; ou amavam-me com o amor que demandava-me a punição após minucioso exame de minhas culpas; ou amavam-me com o amor que me extorquia a partir da noção amplamente aceita de que tais amores tudo podem... Enfim, cansado de tais amores, decretei em alto e bom som: -"Não me amem"!
          Hoje, passados alguns anos, descobri o inusitado, o impensável, o terror maior sobre o amor: - não há amor. E há, sim, o amor. Hoje, claro feito a límpida água dos igarapés inexplorados, o objeto do amor não é o ser humano ou um ser humano em especial. Ama-se tudo, menos o ser humano. Mesmo o chavão "amor só de mãe" encontra-se sob tremenda suspeita. Tal suspeita emerge no esteio da evidência de amores outros, objetos diversos das crianças que as mães trazem ao ventre. Ama-se o "sucesso" em detrimento do rebento, eis o que quero dizer. Por isso os filhos das creches e das babás.
          Nunca me esqueci do que ocorreu entre o meu amigo Edísio Camacho e sua esposa Lucídia. Estudavam juntos desde o início do curso superior. Planejaram tudo desde o princípio. Eles seriam dois grandes médicos em especialidades afins. Essa afinidade visava a colaboração mútua que, esperava-se, resultaria em bons dividendos financeiros. Cada um deles tinha a mais sólida noção do que queriam. Digamos, a título de exemplo, que ele quisesse ser neurocirurgião e ela neurologista. Quem os visse em estudantes, já em estágio no hospital, poderia jurar que aquele casal realizaria todos os seus planos e seriam uma família feliz, ele neurocirurgião, ela neurologista. Zoando com eles, eu dizia: -"Deixem pra casar após a Residência"... Eles batiam pé; diziam: -"Não, senhor... Vamos casar antes"!
          Eis que, passados poucos anos após o estágio no hospital, formaram-se e foram especializar-se em escolas médicas de renome no sul do país. Eram, então, marido e mulher. 
          Ah, o jovem, o jovem...! O que seria capaz de demover o jovem em seus propósitos? mesmo e principalmente aqueles considerados centrados e perfeitos? Resposta: - nada. Ali à frente, virando-se a esquina da vida, está o que não se conhece quando jovem; está o imponderável; estão os fatores desconhecidos que não se colocam em suas mais equilibradas equações para o futuro. Entretanto, o jovem – inda mais o jovem inteligente – tudo sabe. Mas nada conhece, eis a grande verdade. E mais: - não conhece nem mesmo a si próprio. 
          Aconteceu, então, o seguinte. Certa noite, após três dias de trabalho extenuante no hospital onde era Residente, Edísio pensou, pensou, pensou... e decidiu. Virou-se para a jovem Lucídia e disse: -"Não quero isso pra mim". E largou a Residência Médica. Não mais queria se especializar em Neurocirurgia, ainda que essa fosse sua vontade desde o momento em que entrou para a faculdade de medicina. Enumerou à mulher várias das razões que o levavam a tomar aquela decisão. Já tinha em mente planos para outra área, mais adequada ao estilo de vida que queria para si. A especialidade de seus sonhos não o fazia feliz agora e, provavelmente, não o faria um profissional feliz no futuro. Os dois primeiros anos na área já o habilitavam a pelo menos uma certeza: - não era o que ele queria. Em outras palavras, meu amigo assumia seu erro ao escolher para si algo que não estava gostando de fazer. Vira, à escolha inicial, somente o status, a pompa, os cifrões, a empáfia, o respeito talvez... Agora, vivendo o dia-a-dia da especialidade, suas obrigações futuras, seu futuro estilo de vida, não restava nenhuma dúvida: - não iria até o fim. As piores vítimas seriam seus futuros pacientes. Podia ter certeza disso. 
          A mulher, oriunda de família conservadora, tradicional, de posses e quereres, recebeu com enorme desconforto o comunicado do jovem esposo. Tratou incontinenti de dividir seu drama com os pais e os irmãos: - o marido desistira da Residência. Os meses que se seguiram foram de embates e bate-bocas. Ele entrou para o programa Médicos de Família aguardando as provas para a nova Residência Médica ao final do ano. Com isso, chegava à casa mais cedo, o que era bom porque ficava com a pequerrucha do casal a dar-lhe toda a assistência. A mulher, ao contrário, irritava-se com isso. Como ele poderia estar em casa já às 4 da tarde? Um absurdo! Certo o dia o cunhado lhe bateu o telefone. Que queria? Passar-lhe um pito, ora essa!  
          O resultado de tudo isso foi o divórcio. Camacho não era o homem que a mulher queria. Não era ele o objeto de seu amor. Seu amor amava o estereótipo, um tipo imutável, perfeito e só desejável se portador de todos os atributos, diplomas e posições que haviam planejado adquirir previamente. Meu amigo, destituído de seu futuro como neurocirurgião, não mais era objeto da admiração, querer e amor de sua esposa. Lucídia não amava o homem Edísio Camacho. Talvez nem ela própria soubesse que não o amava. Com a revisão dos planos do marido, ficou claro: - Lucídia amava um sonho, um projeto, um futuro bom negócio, seu futuro ao lado de um homem de sucesso na especialidade que ela sonhara para ele. E para ela. Tendo resolvido se tornar psiquiatra, digamos, a mulher o descartava como um desejável e respeitável marido. Ela amava o futuro neurocirurgião, não o futuro psiquiatra. Eis aí tudo. 
          Edísio era nada mais nada menos que um espelho que refletia para Lucídia seu ideal de personalidade masculina. Ele não era uma pessoa: - era uma personalidade; ele não era um caráter: - era um tipo; ele não era um homem: - era apenas uma idéia... Lucídia não foi capaz nem mesmo de lobrigar no marido a coragem por tomar decisão autêntica e independente, desprovida de quaisquer influências externas; não foi capaz de entrever o sólido caráter do marido por assumir publicamente que estava errado; foi incapaz de perceber que ao seu lado dormia um homem de verdade.