sexta-feira, 4 de abril de 2014

Retumbante fracasso

          ERA no tempo da Constituinte. Nesse tempo ainda havia os hospitais-escolas. (Quando se fala em escola, pressupõe-se o que ensina e o que aprende.) Até ao tempo da Constituinte, o que aprende respeitava e venerava aquele que o ensinava. Era quase uma relação de pai e filho. Dir-se-ia que o mestre era uma espécie de pai intelectual e moral, que ensinava aos discípulos não somente o conhecimento técnico, mas o comportamento e a postura correta para com o ser humano que sofre e sua família; ensinava a respeitar e a compreender o drama alheio; ensinava a ser sereno diante da derrota imposta pela morte e a ser humilde diante do sucesso no alívio do sofrimento. O discípulo queria beber da sabedoria de seu mestre e, por fim, queria imitá-lo. 
          ATÉ ao tempo da Constituinte, a punição fazia parte do processo educacional como forma de corrigir distorções e inadaptabilidades inviabilizantes. Para isso havia as regras, as normas, os protocolos, as rotinas. Por exemplo, ao discípulo, médico residente do hospital, impunha-se a seguinte norma: - vestir branco. Os homens deveriam vestir camisa e calça branca, usar um cinto branco e caçar meias e sapatos brancos; às mulheres eram permitidos vestidos variados condizentes com a irrefreável diversidade do figurino feminino, desde que fossem de cor branca.
          Eis que, certo dia, ocorreu o seguinte. Doutor fulaninho chegou ao Serviço usando cinto e sapatos pretos. A calça e a blusa eram brancas, mas os sapatos e o cinto eram pretos. Estava na enfermaria vendo os doentes quando a secretária do chefe veio chamá-lo. Em seu gabinete o chefe disse: -“Queira fechar a porta, por favor”... E então, com toda a educação do mundo, com toda a firmeza e autoridade de chefe, continuou:
          -“Sabes que o uso do branco é a norma aqui, não sabes”?
          Fulaninho sorriu meio sem graça e respondeu:
          -“Sim, senhor. Mas os sapatos brancos estavam sujos”...
          -“Volte para casa e só me apareça aqui amanhã; por hoje estás suspenso”.
          E o assunto deu-se por encerrado. À desobediência da norma seguiu-se, quase que automaticamente, a suspensão. Sem réplicas, tréplicas, argumentações inúteis. Fulaninho não era mais uma criança do ensino básico, nem um adolescente cheio de vontades e rebeldias. Ao dia seguinte, ele voltou ao hospital para sua rotina normal de trabalho e aprendizado trazendo consigo a pecha e a vergonha da punição. Aos outros serviu o exemplo; a si serviu a lição.
          Hoje, quase trinta anos depois da Constituinte, já sob os auspícios da Constituição “cidadã”, não há mais, nas Residências Médicas, o chefe. Ou, melhor, o chefe tornou-se uma figura absolutamente decorativa e desautorizada. Não mais exige, não mais pune. Com efeito, o Chefe de Clínica de algumas Residências Médicas não tem nenhuma autoridade. E tem, sim, alguma autoridade, qual seja, a de “proteger” seus residentes daqueles que querem pô-los a trabalhar e, forçoso dizer, daqueles que querem pô-los a aprender. Diria até mais; diria que, hoje, o chefe limita o que o médico residente deve, por dever de ofício, aprender.
          Certo é que só se ensina o que se sabe, e só se aprende o que é ensinado. É pertinente, então, as perguntas seguintes: - alguns chefes limitam o ensino porque têm conhecimento limitado daquilo que, por dever de ofício, deveriam conhecer? Ou: - os chefes limitam o que ensinam por temerem a “concorrência”? Sabe-se lá... O fato observável e constatável é que as chamadas especialidades estão cada vez mais especializadas. Senão vejamos.
         Hoje pela manhã o Traumatologista, após avaliar o jovem paciente atropelado por uma motocicleta quando pedalava sua bicicleta, pediu, com urgência, o parecer do Cirurgião Vascular. Para ele, o caso era uma síndrome compartimental, uma condição que eqüivale a uma isquemia crítica de grupos musculares e que deve ser tratada com urgência através de uma fasciotomia. Falando assim, os leigos leitores imaginarão um procedimento altamente especializado que só o Cirurgião Vascular estará apto a realizar. E mais. Que a fasciotomia é um procedimento somente realizável em hospital de elevada complexidade por necessitar de material e equipamento sofisticado. 
          A verdade, leigo e paciente leitor, é que a fasciotomia é um procedimento que qualquer médico minimamente treinado é capaz de realizar utilizando-se de material básico em hospital primário lá no Ipaumirim ou no Jati. Mais que qualquer médico minimamente treinado, a fasciotomia deve ser de domínio das especialidades que lidam com os traumas dos membros como cirurgiões plásticos, traumatologistas, cirurgiões vasculares e cirurgiões gerais. Veja-se como é simples e fácil toda a coisa. 
          Então, estamos em plena capital, em hospital de nível terciário e que se diz hospital-escola e o traumatologista precisa urgentemente de um cirurgião vascular que trate uma síndrome compartimental. (É verdade que a coisa poderia ser bem pior: - há traumatologistas que não sabem reconhecer a síndrome compartimental.) Se o nobre colega não sabe lidar com a síndrome compartimental, e sou obrigado a admiti-lo já que se valeu de outro especialista, como se sairão os residentes de Traumatologia deste hospital quando estiverem de plantão no Ipaumirim ou no Jati? A fórmula é bastante conhecida: - uma ambulância rumo a Fortaleza a fim de realizar a fasciotomia no hospital de alta complexidade. O profissional formado em nossa instituição vai pôr o paciente numa ambulância para rodar mais de 500 quilômetros a fim de realizar um procedimento que é possível fazer à beira do leito com anestesia local em qualquer diminuto hospital. E nem falemos na importância que tem o timing para esse procedimento. 
          Além disso, se o hospital de alta complexidade está abarrotado de casos de alta complexidade, como ficará com a chegada de casos que poderiam e deveriam ser tratados em suas cidades de origem? Em suma: - o não ensinar aos médicos em treinamento procedimentos simples acabará, num futuro bem aí às portas, contribuindo para onerar ainda mais o que já está operando acima de sua capacidade. 
          Cadê os chefes? Onde estão os chefes? Onde estão as normas? Onde está a vontade desses "discípulos" de aprender? Seguramente os chefes consideram que esses meninos já têm muito trabalho, coitadinhos... Ou talvez imaginem que nada disso é problema deles. Eles não necessitam aprender a realizar a fasciotomia. Ainda é possível que, ao concluir a Residência Médica, esses garotos abram um consultório e já tenham bastantes pacientes da rede "particular" para atender e jamais se verão às voltas com uma síndrome compartimental. Eles não farão plantões e, se fizerem, será ali nos frotinhas, bem pertinho dos hospitais maiores e a ambulância será a salvadora da pátria. Como já acontece hoje. 
          Antes ao discípulo era exigido a mínima disciplina. Hoje deles nada se exige. Nossa geração fracassou retumbantemente na atividade de formar médicos completos. Uma vergonhosa e inevitável constatação.